José António, ou das revoluções traídas

Por Jaime Nogueira Pinto (In «Política», n.º 16/17, 15.03/15.04/1973, pág. 3/4)

A história do Século XX é, em grande parte, a história das Revoluções Traídas. Das Revoluções e dos revolucionários. Como se as estruturas do Poder, a complexidade e a marcha dos Estados, a política enfim, fosse no nosso tempo uma engrenagem devoradora das almas fortes e ardentes, uma pratica desencorajante onde só sobrevivem os grandes cépticos ou os burocratas disciplinados.

Os idealistas, os que passaram a clandestinidade, a prisão, a luta de ruas, a aventura espiritual e física da revolução, os puros, os profetas, parecem condenados a morrer longe ou à vista da terra prometida, outras vezes arrependidos, desenganados, mortos pelo próprio sistema que sonharam e construíram. Talvez aqui resida uma das notas do trágico, num tempo que matou deuses e deu arbítrio aos homens.

Assim os militantes bolchevistas liquidados por Estaline, com o tiro na nuca, a velha guarda negra sacrificada à Burguesia no ‘ventennio’, os homens e mulheres da F.A.I. fuzilados pelos comunistas em Barcelona, os falangistas generosos que deram o peito às balas para passarem anos como o Manuel Hedilla (e tantos outros obscuros…) nas prisões duma Espanha que tinham reconquistado. Como os centuriões sacrificados por De Gaulle ao abandono da Argélia, e tantos e tantos cujo sangue e sacrifício foram vendidos pelos políticos profissionais, pelos sábios calculistas, pelos ‘aparatchicks’ oficiosos.

Daqui uma explicação geral do fenómeno. Os revolucionários, os homens de mão, os pioneiros são, por definição elementos instáveis, indisciplinados, inimigos de qualquer ordem, em necessidade permanente de contestação. Quando a Revolução triunfa e instaura uma nova ordem, tornam-se indesejáveis, até por lhes faltar aquele mínimo de senso comum, bom-senso, necessário à condução e gestão normal dum País. Passado o período heróico, os heróis deixam de ser precisos. E vêm os sábios, os administradores, os políticos explicar como foi e assegurar o regresso à normalidade.

Tenho para mim que esta tese enferma do simplismo romântico das explicações literárias e gerais de fenómenos muito mais complexos, onde a relação de forças, a complexidade das transformações operadas, o próprio jogo de homens e estruturas tem um papel que ultrapassa a mera aventura cíclica dos Povos e das Ideias, nascimento, apogeu e ocaso. Os profetas não são visionários ou alienados do real. Os revolucionários não têm de deixar a lucidez em casa. As revoluções não acabam com a conquista do Poder, mas devem prosseguir no quotidiano das transformações necessárias.

E depois há revolucionários lúcidos. Há idealistas capazes de dirigir um movimento, fazer andar uma organização, alinhar e cumprir um programa.

José António Primo de Rivera foi um destes homens que aliam a clareza da Ideia à Poesia do estilo e da Vida. Que escreveu e deu testemunho pela palavra, pelo sangue, com a vida finalmente. Como disse Bardèche nós preferimos os nossos mártires aos nossos ministros. Donde um ‘handicap’ à partida. Que não chega a ser muito importante desde que conhecido.

Foi talvez neste espírito de apresentar um revolucionário lúcido, de analisar um pensamento e uma acção exemplares e próximas, de fazer o ponto do falangismo tal como o concebeu e o realizou o seu criador, que José Miguel Alarcão Judice organizou a Antologia de textos de José António agora publicados pela Cooperativa Cidadela de Coimbra. A abrir um estudo crítico sobre o fundador da Falange e a Espanha nascida do movimento de 18 de Julho. Numa perspectiva rigorosa, sem concessões ao comodismo fácil dos obstáculos naturais, o Nacional-Sindicalismo, modificado e inacabado na prática franquista, as razões da falência do movimento nacional-revolucionário espanhol, as linhas mestras de como o entendeu e formulou José António.

Há desde logo um ponto que impressiona, um ponto geracional e um dado de localização de classe. José António vem dum meio por necessidade e tradição reaccionário. Diferentemente dos outros chefes nacionalistas-revolucionários, oriundos duma pequena burguesia ou mesmo de condição proletária, ele tem uma etapa interior, um condicionalismo de casta, uma visão conservantista das relações sociais e do mundo a superar. Daí os seus primeiros textos eivados ainda de ‘direitismo’ um pouco ingénuo, das visões paternalistas, das terceiras soluções que, como nos compêndios, pretendem construir-se evitando os excessos das existentes. Mas cedo a consciência da realidade espanhola, a percepção das contradições duma sociedade não integrada, o sentido dum destino revolucionário e nacional, tomam dianteira sobre as proposições paternalistas e reaccionárias e na polémica com a Direita tradicional e uma Esquerda cada vez mais marxistizada vai nascer um sistema de pensamento, uma ética, uma doutrina, um movimento.

Tudo isto para um País, um País real, concreto, nos seus problemas e nas suas soluções — uma Espanha pré-industrial, rural, caciqueira, vivendo entre as clientelas políticas partidárias, a concepção administrativa, o reaccionarismo social dos dirigentes direitistas ou esquerdistas. Escreve… «A nossa Espanha está necessitada de uma ordem harmoniosa. (…) Não se sabe se é pior a bazófia demagógica das esquerdas, onde não há nenhuma estupidez que não se proclame como um achado, ou o patrioteirismo direitista, que se compraz, por força da vulgaridade, em tornar repelente o que exalta. E produzido pelo alvoroço das esquerdas e das direitas um caos ruidoso, confuso, cansado, estéril e feio.»

Qual o instrumento desta nova ordem? É preciso remontar aos circunstancialismos do tempo para entendermos a estratégia falangista que José Miguel Júdice expôs, nestes termos: «A esquerda em Espanha era já nessa altura radicalmente antinacional, ao menos a partir de 1934. Defensora de fórmulas de autodeterminação para as províncias da Catalunha e das Astúrias, grosseiramente materialista e sem aceitar qualquer tipo de valores espirituais. Numa situação destas em que o perigo de destruição da unidade nacional provinha da esquerda e era real, se nos lembrarmos ainda da origem social e política dos primeiros falangistas, não será de estranhar que durante bastante tempo José António se não tivesse libertado das ilusões em relação à direita, conservadora e privilegiada. A consciência teórica e ideológica da sua separação dos sectores conservadores foi desde cedo clara e acentuou-se, como vimos, em relação às JONS. Mas na prática a Falange por vezes era tentada a utilizar uma estratégia política centrada na ideia do mal menor. Foi o que se passou no período pré-eleitoral de 1936, portanto numa altura de acentuada radicalização social em que uma táctica de compromisso não era útil. Nessa altura, ver-se-á claramente em certos textos antologiados, tentou convencer as direitas a serem nacionais e não classistas. Realizou certos contactos com Gil Robles, ‘leader’ das direitas, mas, apesar disso acabou por não aceitar as condições propostas e preferiu uma ida autónoma às eleições. De qualquer modo, ainda não tinha havido uma total adequação do discurso e da prática que evitasse ilusões deste género. Mais tarde acreditou no levantamento militar, mas aí o problema era diferente. De facto, havia possibilidade de que a revolta militar fosse verdadeiramente nacional e não dominada pelas forças conservadoras.

A habilidade de Franco e a falta (por terem sido assassinados pelos vermelhos) da maior parte dos dirigentes falangistas, levou a que a adesão teórica do regime aos princípios nacional-sindicalistas não tivesse correspondência na realidade e o franquismo tivesse evoluído desde muito cedo para posições puramente reaccionárias.

Revolução frustrada a revolução falangista. Entretanto quanta actualidade e verdade nos textos programáticos, nos discursos de ocasião, nos artigos de combate. A crítica da democracia liberal, do capitalismo, das instituições baseadas nos egoísmos ou na exploração de classes. E para além de tudo uma concepção ética do político, um idealismo lúcido, uma coerência quotidiana, um sentido de missão e serviço, que se afirmam como norma de vida, do início até ao fim dum destes combates onde se deixam a pele e as entranhas.

José António marcou bem o seu desejo de dar testemunho; amava a vida, mas sabia que há coisas mais importantes que a vida de cada um. Parece ser esta uma lição a guardar, por enquanto, do seu exemplo.

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