Entrevista a António Cruz Rodrigues

Entrevista realizada pela redacção do Causa Nacional a António Cruz Rodrigues, dirigente da Aliança Nacional, em 2004

1. O que é a Aliança Nacional? Uma simples página na Internet, uma organização?

Sim, uma organização também, como resulta da nossa escritura pública, notarial. Mas, acima de tudo, uma associação de carácter doutrinário e político. Como tal, uma das muitas iniciativas, conhecidas, do “grupo Vector”, em quarenta anos de actividade, visando a doutrinação e a acção no plano do empenhamento cívico e social, à luz do Cristianismo e da Doutrina Social da Igreja. Sobre a actividade desse grupo, a respeito de várias das suas iniciativas, há apontamentos mais ou menos desenvolvidos no blogue Aliança Nacional. Não conheço, nestes quarenta anos, em Portugal, grupo com maior repercussão efectiva ou que tenha sido mais activo e mais coerente na sua acção.

2. Consideram-se a voz do nacionalismo de futuro?

Sim, consideramo-nos uma voz estruturadora e estruturante do nacionalismo de futuro. Porque quebrámos todas as cadeias que no passado prenderam os vários nacionalismos a meros e sucessivos circunstancialismos históricos. Assim, rejeitamos os regimes de partido único, consequências da profundíssima crise e descrédito generalizado dos regimes demo-parlamentaristas, nos fins do séc. XIX e princípios do séc. XX. Rejeitamos igualmente, por isso, qualquer totalitarismo e defendemos que a representação da vontade política dos povos se deve exprimir, menos imperfeitamente que por qualquer outro meio, através do sufrágio directo universal.

Naturalmente, pois, não aceitamos que o corporativismo seja ou possa vir a ser uma forma exclusiva ou dominante de expressão da vontade política popular.

Como também rejeitamos que, para se ser nacionalista, se tenha de ser monárquico e visar a restauração da Monarquia, ou que se tenha de ser Cristão (ou Judeu ou Muçulmano) ou ser ateu, agnóstico, anti-cristão, anti-muçulmano ou anti-judeu.

Mas um outro preconceito dos nacionalismos antigos, dos séculos XIX e XX, temos de esclarecer, porque talvez seja até o mais grave de todos: de facto, o novo nacionalismo, para nós, não pode assentar em qualquer preconceito ou prevenção de carácter racista ou racialista ou étnico.

Não duvidamos de que todo o racialismo de base, por muito cor-de-rosa, lírico ou idealista que se apresente, acaba sempre por degenerar em racismo, teórico ou simplesmente prático. Porquê? … Creio, fundamentalmente, que por o racialismo esquecer que as manifestações racistas adversas, que tanto teme e de que tanto quer a todo o custo defender-nos (nos bairros periféricos de Lisboa, por exemplo), são antes de mais casos de polícia que a Polícia terá de resolver.

Os problemas concretos duma sociedade nunca se resolvem só com nacionalismo, nem só com ideologias, quaisquer que sejam, ao contrário do que criam todos os ideólogos e os nacionalistas tradicionais ou tradicionalistas também.

3. Quando lemos as críticas a um nacionalismo racialista e a apologia a um nacionalismo não étnico, não será esse um nacionalismo de passado? Não era esse nacionalismo que regia o Estado Novo?

Se assim fosse, teríamos de concluir que o Estado Novo foi singularmente futurista. Pelo menos muito mais actualizado, moderno e futurista que qualquer outro nacionalismo do séc. XX, de origens germânicas, italianas, francesas, espanholas, balcânicas … É que assentava fundamentalmente na profunda tradição política portuguesa, universalista e anti-racista. Em Portugal, só poderá ser-se nacional-racialista deixando de ser Português. O que, em contraponto, significa que, sendo-se Português, não se pode ser nacional-racialista, ou nacionalista de base étnica, como também gostam de camuflar-se. Direi até que, no plano lógico, pelo menos, um nacional-racialista português acabará sempre por ser anti-Português e que, mais tarde ou mais cedo, por força da mesma lógica, acabará de facto anti-Português.

Os medos por que se deixará submergir farão o resto.

4. Qual a vossa posição perante a imigração?

A imigração, como qualquer outro fenómeno social, tem de ser regulado e controlado por um Estado que se preze e esteja vigilante contra qualquer invasão, seja de que tipo for. Mas regulado e controlado sem discriminações por motivos raciais, ao contrário do que tantos racialistas defendem, descaindo claramente para o racismo anti-negro ou anti-afroasiático. Cada Estado tem de continuar a poder escolher os imigrantes que aceita, mas em igualdade de condições e sem discriminação racial, a qual, de acordo também com a tradição e formação católicas do Povo português, é inaceitável. Queiram-no ou não certos racialistas – ou mesmo todos? – essa tradição é parte substancial da nossa identidade. Mesmo quando pessoalmente se renegou qualquer religião cristã, essa tradição continua a ser uma referência intrínseca de todos, familiar a todos. É dessas referências que se alimenta instintivamente a natureza da grande maioria dos Portugueses.

5. A diversidade racial e cultural alimentada pela imigração não destrói a Nação Portuguesa?

O Racismo teórico/ideológico, de que os racialistas são os herdeiros inconfessos, foi a expressão que alguns intelectuais do séc. XIX acharam para fazer frente ao igualitarismo iluminista, ao poder da burguesia triunfante e à mítica classe vanguarda da revolução marxista, o proletariado, pois temiam que a Europa e a civilização europeia fossem desfazer-se contra as novas teorias ameaçadoras. De facto, as raças puras ou a pureza racial, a superioridade ou mesmo supremacia desta ou daquela raça, são simples invenções/artifícios ideológicos, valem tanto ou tão pouco como em geral os postulados de qualquer outra ideologia. O carácter de absolutos que os racialistas dão aos seus postulados étnicos-racistas servem-nos apenas, a nós seus adversários, para ajudar-nos a fazer-lhes o retrato, o retrato-robô, se quisermos.

Não o retrato da Nação portuguesa, de que os racialistas não são representativos. Porque ela própria se construiu dia-a-dia ao longo dos séculos e, nesse sentido, o mais razoável é termos a esperança de que a sua vitalidade permanece em grande parte intacta e apta a vencer, ultrapassar e até tirar proveito de todas as ameaças e agressões internas e externas que venham a sofrer.

Mas a Nação é um ser vivo e pode sempre vir a morrer, como tantas Nações no passado.

Duma coisa, porém, estamos os novos nacionalistas certos. Se ela, a Nação Portuguesa, fosse o que os racialistas-etnicistas-racistas querem ver nela, já há muito a Nação Portuguesa teria deixado de existir; mais provável ainda é que nunca tivesse chegado a existir. Porque não teria sequer chegado a sair dos primitivos limites estreitos do Condado Portucalense e da sua mítica Guimarães.

Os racialistas configuram-se apenas como zeladores do fixismo histórico; tudo o que não fixar a História, num ponto arbitrário qualquer dela, é a seu ver uma ameaça e um risco que devem ser tratados com as mezinhas deles.

Na verdade, o nacionalismo etnicista, ou racialista ou racista, é o puro vazio sem saída, absolutamente estéril nos seus próprios termos e pressupostos.

Ele, sim, seria o pior risco, se o levássemos a sério, a ameaçar a identidade e continuidade da Nação Portuguesa.

6. O que é o nacionalismo à portuguesa (expressão utilizada nas críticas ao Miguel Jardim)?

Creio ter-me em parte antecipado na resposta a esta pergunta, ao afirmar já antes a noção duma “profunda tradição política portuguesa, universalista e anti-racista”.

O “nacionalismo à portuguesa” tem de assentar nisso e desenvolve-se pelo menos desde D. Afonso Henriques e Ourique.

Quero dizer que, pelo menos em Portugal, a realidade nacionalista é muitíssimo anterior a qualquer das teorias do nacionalismo, como as conhecemos a partir do fim do séc. XVIII – séc. XIX. E desde logo o nacionalismo português aparece cerzido a um universalismo.

Ora, pelo menos alguns nacional-racialistas têm afirmado a incompatibilidade entre nacionalismo e qualquer universalismo.

Nós aqui, na Aliança Nacional, afirmamos há muito e defendemos o contrário, inspirados exactamente no nacionalismo português ou “à portuguesa”: que não pode haver nacionalismo sem universalismo. Sob pena de o pretenso nacionalismo não passar, nesse caso, de um mero patriotismo. Porventura respeitável, até muito respeitável, mas sem o mesmo alcance do nacionalismo, por o “patriotismo”, entregue a si mesmo, tender facilmente a debruçar-se em exclusivo sobre o seu próprio umbigo, não desenvolvendo uma teoria e uma prática da organização do Mundo em Nações e entre Nações.

O patriotismo será, neste plano, quando muito a infância do nacionalismo.

Não é o caso do nacionalismo à portuguesa que tem raízes profundas na História nacional, que não bebeu a sua formação nas fontes europeias de muitos nacionalismos estranhos ao nosso, e que – repito – já existia, vivo e actuante, muitíssimo tempo antes de de as teorias nacionalistas dos séc. XVIII, XIX e XX terem sido inventadas e postas em prática. De facto, cedo os portugueses souberam dar ao seu patriotismo o universalismo da Cristandade e da Reconquista e o universalismo das Descobertas e da Expansão, que cedo transformaram esse natural patriotismo em verdadeiro nacionalismo “avant la lettre”.

E não, claro, pelas tristes razões (desculpas?) daqueles que dizem termos feito Descobertas e Expansão só porque … porque tínhamos barcos!

Se isso não é ser anti-Português, não sei de nada que intelectualmente possa ser mais anti-português.

São os que nem sequer compreendem que o nacionalismo português o foi sem nunca deixar de continuar radicado em Portugal e nos Portugueses, mas cada vez mais longe dos limites etnicistas da mítica “Guimarães”.

Porque o nacionalismo Português foi sempre, e é, mais isto de específico:

Viagem! Eterna viagem!

Talvez difícil de explicar e de compreender por alguns, só alguns.

7. O que aprisiona o nacionalismo em Portugal?

Não estou seguro de perceber univocamente o sentido da pergunta.

Tomo-a no sentido que me permite, creio, dar mais interesse à resposta, isto é, aquela que julgo ir direito aos tabus em que, ao longo dos últimos cem anos, os nacionalistas em Portugal mais se deixaram enredar e manietar.

Já os enunciei mas repito e acrescento: o tabu do totalitarismo dos Estados modernos e dos partidos únicos; o tabu da suposta incapacidade do sufrágio universal directo para exprimir a vontade política da Nação; o tabu corporativista; o tabu monarquista; o tabu anti-religioso; o tabu anti-judaico; o tabu anti-burguês; o tabu racialista, etnicista, racista …

Chamo-lhes tabus por serem pressupostos adquiridos e intocáveis para muitos “nacionalistas”.

Nos últimos anos, parece ter-se difundido entre nacionalistas também, uma espécie de tabu anti-ocidentalista e, mais particularmente, anti-atlantista. Como se ser atlantista, em particular, repito, diminuísse o nosso portuguesismo e o nosso nacionalismo de Portugueses.

Não quero, por já ir muito longa esta entrevista, desenvolver o que julgo constituir uma gravíssima incompreensão do que serão historicamente o Atlântico e as alianças atlânticas no vastíssimo âmbito do mesmo Oceano, como factor ultra-decisivo da geo-estratégia para a segurança mundial e defesa do Ocidente, no séc. XXI.

Não querer compreender isso e, portanto, não querer prever a indispensável participação de Portugal e de toda a Lusofonia nessas alianças, pode vir a revelar-se perigosíssima imprevidência, se não mesmo criminosa cobardia.

É evidente que nessa perspectiva o atlantismo não tem nada de fechado mas implica a aliança profunda e, acima de tudo, leal e sem reservas, da Europa e dos EUA.

O verdadeiro nacionalismo português não pode, evidentemente, ser indiferente ou ficar passivo face a estas realidades.

8. Os congressos por vós realizados foram uma tentativa de libertação?

Começo por lembrar que se tratou à partida de outra iniciativa do “grupo do Vector”, por intermédio da Aliança Nacional. Posto o que, passo a responder à pergunta.

Sim, foram os Congressos uma tentativa de libertação do nacionalismo português, exactamente no sentido que dei às respostas das perguntas que o site “Causa Nacional” quis fazer-me. A tal ponto que as reacções dentro do próprio I Congresso Nacionalista Português, em Outubro de 2001 – logo a seguir ao ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque – foram de grande surpresa e desacordo da parte, naturalmente, de alguns dos expoentes do nacionalismo tradicional e de alguns manifestantes do nacionalismo racialista. Aliás, logo na preparação do I Congresso – iniciada cinco meses antes – essas reacções se manifestaram, até por deserções de última hora.

No II Congresso Nacionalista Português, em Novembro de 2003, não havendo já razões para tanta surpresa e estando os campos bem definidos, agradavelmente surpreendente foi, sim, a qualidade das teses apresentadas, coincidentes, ou muito próximas do pensamento neo-nacionalista, que fez ali, em minha opinião, avanços importantes para o seu próprio esclarecimento e deu provas de ter atraído excelentes novas expressões.

9. Para quando um novo congresso?

Em princípio deverá ser em 2005, pois o carácter bienal dos Congressos tem sido consensualmente estimado como adequado. Nada está, porém, ainda fixado. Em todo o caso, penso que seria muito oportuno, em especial atendendo às fortes novidades sobre posições doutrinárias e organizativas surgidas desde o II Congresso, há um ano.

10. Obrigado pela entrevista, quer deixar algumas considerações finais?

Eu é que agradeço a oportunidade oferecida, lamentando apenas ter levado tanto tempo para responder às perguntas feitas há mais de dois meses. Para desculpar-me não tenho mais que a minha convicção de que a entrevista alguma coisa terá ganho em actualidade, precisão e concisão.

Também traduzi agora, julgo que mais completamente, o trabalho de revisão e reformulação do nacionalismo português, de várias fontes, tornado especialmente intenso desde há quatro anos.

O que aí fica apela a parte significativa de tal revisão.

E mais nada. O que acrescentasse talvez não viesse a resultar senão na repetição de coisas já ditas, do que a inteligência dos leitores me dispensa por certo.

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