Quem são os mecenas do «Bloco de Esquerda»? - Capitalistas e trotskistas: a mesma luta

Artigo publicado no Jornal “O Diabo”, nº 1346, de 15 de Outubro de 2002

A sucessão de escândalos com origem no caso da «Universidade Moderna» é, seguramente, uma procissão que ainda só vai no adro.

Por vezes, o afluxo de matérias que se entrecruzam e enovelam na enxurrada mediática não permite uma paragem para reflectir no significado de factos importantes que ficam por esclarecer.

É o caso da tentada venda da discreta «Publicultura» ao universo psicopático então detido pelo homem forte da «Moderna», José Braga Gonçalves, o qual se empenhava, por essas alturas, em alcançar presença influente no meio jornalístico. Com fama de comprar tudo o que lhe aparecesse pela frente, com grande desplante e exibicionismo, foram vários os títulos de imprensa e empresas editoriais em dificuldades a desejá-lo ter como sócio, ou mesmo passar-lhe o negócio por inteiro para as mãos, como tábua de salvação.

Foi o que tentou a «Publicultura», empresa controlada, no plano editorial, pelo «Bloco de Esquerda», mas suportada, em termos de capital social, na sua grande maioria, pelo preocupado carinho de alguns dos mais frondosos capitalistas da nossa praça.

Editora da «Vida Mundial», revista dirigida pelo sócio «bloquista» Miguel Portas e também da «História», esta sob a direcção do renomado e operoso historiador e «bloquista» Fernando Rosas, vivia a «Publicultura» os difíceis transes de uma existência amargurada e deficitária a que os dois por cento dos aderentes ao «B.E» não davam para se manter. Só um drástico aumento de capital podia permitir uma agonia mais prolongada. É então que surge a hipótese salvífica do «compra tudo» Braga Gonçalves. Hipótese, porém, que logo aborta com o escândalo da «Moderna» já a estoirar pelas costuras (1999). Nessas condições, a coisa não era negócio para ninguém…

Termina, assim, desta forma frustrada, a nova aventura editorial dos bloquistas, como aliás acontecera antes com o semanário «Já!», igualmente dirigido por Miguel Portas e apoia do financeiramente pelo capital do costume. Apesar das centenas de milhar de contos vertidos neste último peditório, pelos simpáticos e esmoleres mecenas do capital, nenhum dos títulos chegou a chambaril (1).

E quem são, afinal, estes esforçados capitalistas, irmanados na mesma luta editorial dos impagáveis camaradas, mais ou menos trotsquistas, do irrequieto Bloco?

Vejamos: embora não sendo o mais poderoso, é justo destacar, à partida, António Dias da Cunha, pelo seu empenhado envolvimento e posição financeira e social na «Publicultura». O conhecido africanista dos bons velhos tempos do colonialismo e hoje presidente dos «verdes» nunca teve problemas em dar o seu apoio a vermelhos ou cor-de-rosa. Do arco financeiro integrante da «Publicultura» impõe-se mencionar também o grande capitão da banca, Jorge Jardim Gonçalves, hoje, por desgraça sua e principalmente dos accionistas do BCP, a enfrentar uma queda superior a 50 por cento, só este ano.

José Roquette surge representado por Dias da Cunha. De resto, Roquette só está enquanto o seu consabido «feeling» o permitir. O caso Banesto é exemplar.

Os Mellos marcam presença através da Companhia de Seguros Império.

Abel Pinheiro, alto cargo do CDS, mas com experiência de parcerias várias, editoriais e políticas, percebe-se que mais uma vez tenha alinhado, agora via «Autodril». «Abel Pinheiro está em todas», dizem dele alguns amigos. Exagero! Apenas em quasi todas.

Presença paradigmática é a de Godinho Lopes, homem de teres e haveres, olá! A «Soconstrói» já lá vai, mas nesta aventura bloquista ficou mais uma vez a ver navios.

E para que não se julgasse que a «Publicultura» era uma brincadeira infantil do capitalismo, por interpostos doentes do trotsquismo «aggiornato», aí aparacem a participar, neste «bodo dos pobres», os grandes tubarões mediáticos: Paes do Amaral, o diáfano conde de Alferrarede, através da sua «Media Capital» e o tutelar Pinto Balsemão, com a sua «Sojornal». Autêntico «Citizen Kane» à portuguesa, PB provavelmente já não se recordará da minudência. Tita, sua mulher, compassivamente, dir-lhe-á como tudo se passou e mostrar-lhe-á o Diário da República.

Dos renomados capitalistas passemos, velozmente, a outras categorias dos cerca de 60 accionistas da «Publicultura».

Entre os políticos, tem piada descortinar ali, além do Miguel Portas e do João Nabais, o ex-PC Barros Moura, de braço dado com Vera Jardim; o ex-MÊS José Manuel Galvão Teles; o ex-PPD longínquo Sérvulo Correia; e ainda Nuno Teotónio Pereira, não se sabe se como político se na qualidade de arquitecto. Por arquitecto, também lá pintava o grande e simpático Fausto Correia.

Genericamente, mencionaremos apenas o PC Luís Francisco Rebelo, hoje em dia «cantando e rindo» à frente da SPA, de que é presidente vitalício, sabe-se lá, até, se primeiro monarca da dinastia Rebelo. Rosalina Machado faz ali um figurão, que isto de uma presidente de agência de publicidade dá imenso jeito a um editor em palpos de aranha.

A fechar, um produtor de fitas: o camarada Paulo Branco, celebrado angariador de subsídios, que com aquela cara de «tou xim!» leva qualquer um à certa. E, como se vê, ainda lhe sobram uns cobres para investir noutras «más acções».

E ficamo-nos por aqui, porque o espaço é curto e as histórias não acabam. Até à próxima.

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Nota:
1. Para os ignorantes: Chambaril é um pau curvo, semelhante a um arrocho, que serve para pendurar o porco depois de morto e sangrado, por alturas do Natal. Nessa posição, o animal é desmanchado, cumprindo-se, assim, o destino para que fora criado. Chegar a chambaril significa, pois, atingir a plenitude de uma vida predestinada. Nas Beiras é (ou era) costume ouvir-se, em relação a quem, pelo seu aspecto ou falta de saúde, não se dá muitos anos de vida: «Este não chega a chambaril.

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