A morte do trabalho

Por Ernesto Milà (retirado do livro Falange: análisis crítico sobre el presente y el futuro del nacional-sindicalismo, disponível online em InfoKrisis)

Pode ser um drama constatá-lo, mas é uma realidade. O trabalho está a morrer. É certo que todos os dias se criam novos postos de trabalho, mas se observamos os números absolutos, em 20 anos a capacidade produtiva duplicou, mas a ocupação só aumentou 5%. O que é que isto quer dizer? Que cada vez menos pessoas fazem mais trabalho. Porquê? Por causa da automatização de processos. Constatar este facto é o elemento sociológico de maior interesse no nosso tempo.

Chama a atenção que, precisamente no momento em que o trabalho agoniza, este se converteu num mito universal: tanto a direita, como o centro, como a esquerda veneram o trabalho, considerado como uma obrigação social. Todos os partidos lançam medidas para “estimular o trabalho”, “diminuir a fraude no desemprego”, “reciclar os trabalhadores”, etc. Nenhum explica – talvez porque na sua estupidez não o percebam – que o resultado da era tecnotrónica é a eliminação progressiva do trabalho físico.

Há 10 anos atrás eram precisos 12 trabalhadores para vindimar um campo de um hectare. Hoje, esse mesmo trabalho realiza-se mediante uma máquina provida de sensores que detectam os racimos e outra pessoa que, a pé, examina se há algum racimo não detectado. Na construção, há 20 anos atrás, construía-se uma casa ladrilho a ladrilho; hoje tende-se às estruturas pré-fabricadas. Inclusivamente nos autocarros, até há pouco tempo eram necessários um condutor e um revisor, e dentro em breve haverá só um programa computorizado que levará os passageiros ao destino. O trabalho agoniza. Mas nunca como agora se prestou tal culto ao trabalho. O culto do trabalho pertence à mitologia moderna. É universal: mas é um mito.

Diariamente legiões de desempregados vivem um drama que parecem não entender: estão dispostos a vender uma força de trabalho… que ninguém está interessado em comprar. Estas pessoas ou vão engrossar as filas de desemprego e da assistência social, ou então aceitam trabalhos mal remunerados, que não exigem qualificação profissional e para os quais têm de competir com outros milhares de trabalhadores. O resultado é uma queda no preço da força de trabalho e a proliferação de trabalhos-lixo remunerados com salários-lixo que apenas permitem uma subsistência mínima.

Nos últimos 20 anos assistimos a uma mutação imperceptível mas contínua. Paralelamente à morte do trabalho, está também em vias de extinção a economia de produção que se converte progressivamente em economia de especulação.

Nas bolsas, a loucura financeira não tem nada a ver com a economia produtiva. No passado, os investidores investiam numa empresa porque acreditavam nas suas possibilidades produtivas, o que se reflectiria na hora de repartir os dividendos. Agora tudo isto mudou: investe-se na bolsa apenas durante algumas horas, e ao registar alguma subida, retira-se imediatamente o dinheiro, e a diferença entre o valor investido e o registado duas horas depois já constitui um lucro apreciável. De seguida o dinheiro migra para outras empresas, noutras fronteiras, noutras bolsas… Não existe nenhuma relação entre a economia produtiva e a especulação financeira. Estas práticas especulativas não fazem mais do que acelerar a morte do trabalho.

Em primeiro lugar temos de considerar a morte do trabalho como algo irreversível: os processos de automatização irão avançado e diminuirão progressivamente o mercado de trabalho. Este processo não é bom, nem mau: é bom se se reconhece no seu verdadeiro rosto e se actua em consonância. É mau, na medida em que os partidos políticos mentem e se negam a dizer à população a realidade da morte do trabalho.

Imaginemos uma sociedade em que o trabalho não seja o grande valor universal. Há outras actividades humanas, que não produzem benefícios económicos, mas que são indispensáveis para o equilíbrio psicológico da vida humana: o ócio, o estudo, a investigação, o exercício da paternidade, todas estas actividades podem dispor de mais tempo numa sociedade em que o trabalho tenha morrido.

Torna-se claro que nestas circunstâncias há que reduzir as jornadas laborais (trabalhar menos para trabalharem todos) e aumentar as ajudas sociais do Estado. É possível um programa baseado nestes dois pontos? É cada vez mais possível. Basta reconhecer os factos, estimular os canais educativos da população e realizar uma melhor distribuição das receitas do Estado que deve aumentar as suas receitas castigando fiscalmente a economia especulativa.

Reconhecer que o trabalho está a morrer é reconhecer também que há que remover dos programas dos partidos políticos de estilo novo qualquer referência ao culto do trabalho, é preciso ser realista: o trabalho é uma actividade como outra qualquer. Certamente que desde o nazismo todos os partidos promovem um “culto ao trabalho”. E isto gerou uma distorção da realidade: porque o trabalho não é a única tarefa que pode realizar o ser humano.

Felizmente a vida humana é extremamente rica em matizes. Além do trabalho existem muitas outras formas de actividade: a criação artística, o ócio, a investigação, a aprendizagem, o estudo, cuja natureza é muito diferente da do trabalho e que, frequentemente, é gerada por interesses não económicos.

A morte do trabalho é uma das formas que adquire a norma aconselhada por Julius Evola de “cavalgar o tigre”: porque se a morte do trabalho é uma tragédia, é-o, sobretudo, para a sociedade burguesa das Luzes e da prática política-económica do século XIX, não para aqueles que queremos um mundo novo e original, no qual a possibilidade de não morrer de fome não se dê necessariamente por troca com a de morrer de aborrecimento.

Em 1965 Herbert Marcuse estabeleceu que a diferença entre a nossa época e as anteriores, consistia em que agora era possível a realização prática dos ideias utópicos dado o crescimento das forças produtivas. Marcuse adiantou-se quase 40 anos: para que a utopia fosse possível era preciso uma maior automatização dos processos produtivos… e uma vontade decidida de conter o crescimento da economia especulativa. Isso não ocorria em 1965, mas ocorre hoje.

A utopia é possível, desde que se adoptem medidas drásticas: em primeiro lugar é necessário cortar radicalmente o fluxo de imigrantes para a UE, de seguida inverter a tendência e proceder ao repatriamento progressivo dos imigrantes. Neste terreno a divisa é: “Os Espanhóis primeiro”. Assim se põe termo ao crescimento da população que pretende vender a sua força de trabalho e, em consequência, o seu valor aumenta.

A segunda medida é a redução drástica dos horários de trabalho. Hoje é possível manter os salários com menos de 35 horas semanais. Além do mais, as reduções de horários devem ser acompanhadas por medidas sociais: subvenção ao trabalho no lar, protecção à família, etc. As protecções no desemprego, longe de diminuir como até agora, devem aumentar. E tudo isto, que implica um forte aumento dos gastos públicos, obtém-se mediante uma maior distribuição das receitas do Estado.

Finalmente a utopia é possível desde que se ponha termo à economia especulativa. A taxa Tobin parece uma medida oportuna, mas não é a única, nem sequer a mais aplicável. É preciso impedir fiscalmente as grandes acumulações de capital. É impossível abolir o capital, mas é possível orientá-lo em direcção à produção em vez da especulação. Os rendimentos procedentes da especulação devem restringir-se ao máximo. Hoje, a utopia é possível, mas a utopia já não está na nova esquerda, mas sim em quem tenha a coragem de denunciar o principal facto do nosso tempo: a morte do trabalho.

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