O Nacional e o Social

Texto extraído da revista “Em Frente”, nº 1, 1978

Hoje em dia, em que, rigorosamente, não existe mais nação, há que procurar preservar aqueles valores que a nação encarnava e que foram muito especialmente postos em destaque pelo nacionalismo.

Tal como este o concebia, uma pátria não era um rebanho de homens que, transitoriamente, habitavam um certo território e que, se muito bem lhes apetecesse, se podiam separar e dispersar, praticando o que agora se chama a autodeterminação; ao invés, para o nacionalismo uma pátria era uma comunidade permanente que persistia enquanto os indivíduos passavam e que, para estes, constituía um dever, um imperativo categórico. A pátria representava, assim, qualquer coisa de superior às pessoas «ut singuli», as quais nela encontravam o melhor que tinham em si graças a uma superação do seu egoísmo, do seu comodismo, da sua singularidade, que as elevava ao plano do universal. A nação não valia, pois, como expressão de particularismo e de ânsia de desagregação, mas como realização concreta de unidade, de totalidade.

É esse conteúdo ético que importa defender e conservar, na altura em que desaparecem as realidades históricas em que tomava corpo. Conteúdo ético que implica uma definição de direitos e obrigações clara e inequívoca.

A única hierarquia que um nacionalismo consciente admite é a dos serviços e capacidades em prol do bem comum. Em face da nação, pode sustentar-se, não que todos são iguais, mas, indiscutivelmente, que só se reconhecem as desigualdades derivadas do ou impostas pelo interesse nacional.

O nacionalismo ergue-se, assim, contra os privilégios da fortuna, os impulsos desmedidos de ganho, a ambição de lucro. Aceitando que a propriedade privada e o capital têm ou podem ter uma função positiva, apenas os acha legítimos na medida em que são socialmente úteis, não hesitando em suprimi-los e bani-los quando se mostrem nocivos e pretendam usurpar lugares que lhes não competem.

É perfeitamente erróneo e disparatado o ponto de vista expendido pelos marxistas de que o nacionalismo é uma simples cobertura ou máscara de plutocracia.

Tanto as bases de «classe» em que se apoiava — pequena burguesia urbana, trabalhadores ou pequenos agricultores rurais — se situavam em sector bem distinto dos grandes detentores de riquezas, como a moral política que punha em execução estava a mil léguas da que predominava nos ambientes da alta finança e da alta indústria. Por esses motivos, é que estes mais ou menos disfarçadamente hostilizaram sempre os regimes nacionalistas e contribuíram amplamente para a sua queda.

É que o nacionalismo, por definição, possui aquilo que, usando a terminologia moderna, se pode chamar uma intrínseca exigência de justiça social. Ele não pretende alterar, exclusivamente, as formas exteriores da sociedade, antes as suas estruturas internas. Sem cair nos desmandos e ineficácia das soluções colectivistas, a axiologia nacionalista não deixa de procurar uma reforma integral do «statu quo», abolindo o parasitismo, a exploração egotista, a especulação desenfreada, substituindo-as por uma ordem firme em que contem, sobretudo, a dignidade das acções praticadas e a competência de quem as pratica.

O nacionalismo tem a preocupação de integrar na comunidade as grandes massas marginalizadas que a economia liberal lançou na miséria. Não pretende que elas se tornem uma casta com regalias especiais, nem que o seu bel-prazer se transforme no critério máximo da verdade ou do erro, da bondade ou maldade. O que deseja, sim, é que através de uma hierarquização correcta, todos tenham possibilidade de participar nas riquezas existentes. Ninguém pode ser submetido ao bem-estar de outrem ou de multidões. Cada um tem o dever indiscutível de se sacrificar pela pátria, nunca, porém, o de ser sacrificado ao Sr. A ou ao Sr. B ou a um limitado conjunto de senhores, a um grupo — o proletariado, por exemplo. A nação está para além de quem quer que seja e não é monopólio de ninguém. Os próprios chefes não passam dos seus primeiros e supremos servidores.

De qualquer modo, se o nacionalismo é, essencialmente, social, ele não esquece que uma pátria não é uma organização de trocas destinada a distribuir benefícios económicos. Estes são um meio e não um fim. O fim é erguer o humano a algo que esteja acima de si, a algo que transcenda e ultrapasse a mediocridade fechada de cada eu, algo, precisamente, de que as nações eram até aqui o veículo temporal.

Diante do materialismo capitalista ou do materialismo comunista, o nacionalismo, profundamente «justicialista» na essência, por isso mesmo, perfilha, sem rebuço, uma concepção do mundo e da vida de nítido e forte cariz espiritualista.

Comentários

Sem comentários

Adicionar Comentários

Este post não permite comentários