Nuremberga

Por Francisco Perfeito de Magalhães e Meneses CONDE DE ALVELLOS in “O BERÇO EXILADO”, págs.CCLXXXV até CCLXXXVIII. Porto, 1946

Cidadezinha no coração da Baviera, sossegada e burguesa a debruçar-se sobre a frescura do seu rio miniatural, - o Pegnitz - onde se reflecte o casario medieval de altos telhados pontudos semelhando caixas de brinquedos. Indústrias florescentes, primando na bonecagem para crianças e afamados instrumentos musicais; os seus relógios com figurinhas animadas, dançando minuetes e gavotas, ganharam merecida fama no passado século.

Pátria de Durer, -gravador e pintor,- que se deleitava no paradoxo de colorir cenas macabras de uma horripilante fantasia, no ambiente sereníssimo da sua cidade natal...

Que fizeram de ti, burgozinho tão alegre que os meninos adoravam pela autoria dos joguetes? Hoje, és um sarcófago!

Os cosmopolitas que se uniram para os horrores da Guerra, cada dia mais desavindos sobre os benefícios da Paz, exigiram que os teus peritos retroseiros fabricassem uma corda, não para violino ou harpa, não para, na buliçosa vida, pequeninos saltarem... Mas para os Grandes fazerem saltar para a morte os indesejáveis, que os haviam afrontado com o engrandecimento de uma Pátria rival...

É que a esses grandes, -totalitários supremos,- para se auto-proclamarem supremos democratas, urgia fazer desaparecer o democratismo social o qual, só por existir os denunciava de farsantes; prenderam então alguns notórios nazistas e fascistas e sentaram-nos no banco de um tribunal para serem, não julgados, mas logo sentenciados por crimes de guerra e abusos da força. Qual a nação inocente de tais abusos e crimes?

A Inglaterra? – Sem ir mais longe do que o passado século: - em 1807, bombardeou Copenhague, sem prévia declaração; em 1858, chacina com ferocidade inaudita os cipais do Panjab Indostânico que se haviam revoltado a favor da Índia livre de Nana-Sahib; em 1882, bombardeia Alexandria, salpicando com sangue de crianças e mulheres os bairros indígenas; em 1900, afoga em terror e prende em campos de concentração desabrigados, as populações boers do Transval e do Orange; em 1890, pelo ultimatum, exibe a cobiça do leopardo, pela África do seu Aliado...

A América? – Extermínio metódico e inexorável dos índios aborígenes, enxotados, presos e guradados à vista em zonas, tão limitadas hoje, como sectores de museu paleontológicas; a façanha heróica da batalha naval de Cavite, onde a frota numerosa e couraçada dos Estados Unidos, meteu no fundo os navios de madeira de Cervera, o Sacrificado Almirante Espanhol; a pulverização das cidades nipónicas de Nagasaki e Hiroshima com bombas atómicas, sem a mínima contemplação pelos não combatentes... Mera experiência sobre um milhão de cobaias humanas e que foi tida como acção humanitária, por terminar com a guerra na liquidação instantânea dos combatentes opostos!

A Rússia? – Calemos os horrores moscovitas, desde o tiro clássico na nuca, aos enterramentos na neve e às metralhadas em massa...

E foram estes os juízes!

Juízes, que bem podiam ser réus.

E foram estes os acusadores!

Acusadores, que deviam ser acusados.

E foram estes os carrascos!

Carrascos que o acaso faria justiçados.

Tudo dependeu da sorte das batalhas, que é o jogo mais caprichoso da roleta que é o Mundo. Ai dos vencidos!

Faltaram condenados à execução; felizes por se libertarem da morte infamante pela forca e da corda de Nuremberga ficou ainda pendente e insaciada, à espera...

À espera desses juízes, desses acusadores, desses carrascos que lá irão meter voluntariamente as cabeças no laço aparatoso! É questão de tempo.

Sim, porque essa corda, ela entrará, em sonhos e pesadelos mortificantes, onde quer que esses manequins da justiça de facção, tentem conciliar o sono e eles, suando frio, todas as noites a vêem ondulando como serpente a buscar-lhes as gargantas...

E a ideia-fixa os domina; a obsessão os vence; o remorso os asfixia e a corda os espera...

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