A política do petróleo

Por Clara Ferreira Alves (Diário Digital)

São notícias a que os portugueses não costumam ligar muito, as que anunciam aumentos dos preços dos barris de petróleo. Desde os grandes choques petrolíferos dos anos setenta e da memória longínqua, depois do 25 de Abril, do tempo gasto nas longas bichas das bombas à espera de meter gasolina no carro – circulavam menos, muitíssimo menos carros do que hoje – que Portugal não se preocupa com a sua energia principal.

Tudo o que vemos, rigorosamente tudo o que vemos mexer-se e iluminar-se à nossa volta, tudo o que alimenta a nossa orgânica voracidade tecnológica e civilizacional, depende do petróleo. As reservas mundiais de petróleo são, como devíamos saber e temos tendência a esquecer, finitas. Os maiores lençóis conhecidos e explorados, os da Arábia Saudita, darão para mais umas décadas, providenciando que a Arábia Saudita dos Saud continue saudita e vendendo o seu petróleo aos americanos, e os outros lençóis, os que não são explorados, estão provavelmente debaixo do solo iraquiano. Pensa-se que o maior deles possa estar debaixo de Bagdade.

Existem, pelo resto do mundo e fora do Médio Oriente, mais reservas inexploradas e desconhecidas, ou conhecidas e intocadas, além das já exploradas. As do Alaska, que os ambientalistas não deixam tocar, as da Costa de África, como se viu com a «descoberta» em São Tomé, as do Mar do Norte, as do Golfo do México, as de grandes produtores como Angola, a Nigéria ou a Venezuela. E as da Líbia, que as pazes com Kaddhafi querem atrair para o regaço do Ocidente. Mas, o nosso apetite por petróleo é sempre maior. A China precisa cada vez mais de crude e a América também. O que existe não chegará para alimentar estes dois gigantes.

Com os conflitos do Médio Oriente, o desastre iraquiano, os resultados incertos das eleições americanas, o terrorismo, a situação instável na Nigéria e os furacões do Golfo do México, o futuro imediato é negro. O preço do crude continua a subir e continuará.

Se o preço do crude aumentar para além dos limites da razoabilidade financeira, um cenário provável, as economias estoiram, incluindo a nossa. Lá se vai a retoma, qualquer retoma. Estamos dependentes da situação política internacional, e estamos de mãos atadas na resolução dessa situação. Curiosamente, ninguém em Portugal parece preocupado com isto. A pequena intriga, o chiste e a pilhéria dominam a nossa politiquice, e a complexidade da situação económica mundial e das consequências da globalização, surge-nos como um problema alheio.

Nem o PS nem o PSD - até agora - apresentaram uma linha de pensamento político ou de soluções alternativas para um cenário de crise aguda. Ignorância? Jactância? Pior, a política do petróleo é coisa que os políticos portugueses nunca entenderam ou quiseram entender. O problema do Iraque não é apenas a «nossa» GNR, é o problema do mundo. O resultado das eleições americanas também. E em matéria de mundo, somos uns saloios. Os jornais e telejornais meteram o mundo em rodapé, e os políticos também. Os think tanks portugueses, conclaves de ponderação e análise, são tanques vazios, os partidos não os têm. Tão vazios como os tanques das refinarias se isto der para o torto.

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