Razões para recusar a candidatura de Ankara

Por Alexandre del Valle* (26 JUL. 2004)

No dia seguinte ao da visita a Paris do Primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan, com o fim de convencer os cépticos que Ankara está pronta para integrar a Europa, o debate sobre a entrada da Turquia na União Europeia e sobre as fronteiras da União Europeia merece ser prosseguido. Assim, é necessário responder desde já aos principais argumentos dos partidários da candidatura turca, e depois explicar quais seriam as consequências geopolíticas da adesão de Ankara.

Dizer que a Turquia é historicamente europeia é tão verdadeiro como dizer que a França, na qualidade de potência colonial que foi, é africana. A Turquia não é mais europeia pela sua geografia (excepto Istambul e a Trácia) do que pelos seus costumes ou a sua consciência civilizacional. Os turcos definem-se como um povo asiático, cuja idade de ouro é o apogeu do Império Otomano, e se uma fraca minoria kemalista ou saída dos bairros privilegiados de Istambul se sente europeia, os habitantes dos bairros de lata de Istambul e dos campos da Anatólia reconhecem-se mais no vizinho iraquiano do que nos europeus do norte, ou mesmo nos gregos cristãos. A recente nomeação de um cidadão turco para a direcção da Organização da Conferência Islâmica (OCI, pró saudita), depois os inquietantes propósitos irredentistas de Erdogan, acusando a Grécia de «perseguir os turcos muçulmanos» da Trácia (1), ou ainda a política panturca de Ankara na Ásia Central e no Cáucaso, mostram bem que a Turquia permanece o país «dreaming west and moving east».

Invocar a “irreversibilidade” da candidatura turca sob pretexto de que Ankara assinou um acordo de associação em 1963, é membro da OTAN e do Conselho da Europa, ou a título de uma “promessa”, não se aguenta. A OTAN e o Conselho da Europa não são câmaras de entrada na União. Em resposta ao pedido oficial de adesão de Ankara (1987), que foi rejeitado, o Parlamento Europeu tinha votado uma resolução – hoje ocultada – exigindo em vão, como condição prévia, o reconhecimento do genocídio arménio, a melhoria da situação das minorias, e depois a retirada de Chipre. Logo, é Ankara que não cumpriu as suas obrigações, e não o inverso. Longe de ser uma obrigação, o processo de integração da Turquia pode ser interrompido a qualquer momento por decisão do Conselho Europeu, de um relatório negativo de Bruxelas, ou pelo veto de um Estado membro.

- Dizer que “é necessário” integrar a Turquia a fim de demonstrar que a Europa não é um “clube cristão” e não “rejeita” um candidato islâmico, é absurdo: alguém pede à Liga Árabe que integre Israel ou a Índia para provar que não é um “clube muçulmano”? Este malicioso processo inverte os papéis, porque pertence à Turquia provar que não é um “clube muçulmano”: há mais turcos de confissão muçulmana em Paris do que cristãos em toda a Turquia (100.000), país 99% muçulmano.

- Dizer que a Turquia se mantém uma “excepção laica” e uma aliada natural contra o islamismo, graças à herança de Ataturk, é falso: a nova Turquia autoriza e reclama tudo o que Ataturk rejeitava: o véu, os partidos islâmicos, as confrarias, os cursos de religião obrigatórios. As suas leis contra a blasfémia condenariam o próprio Ataturk! O kemalismo sofreu um bloqueamento nos anos 50-60 com os governos Menderes e Demirel, e morreu politicamente com Turgut Ozal, esse grande artista da reislamização que aboliu o artigo 163º proibindo os partidos islâmicos. Como se pode sustentar que um país em que 70% das mulheres usam véu, cujo Estado mantém 90.000 imãs e milhares de mesquitas, menciona a religião nos documentos de identidade, proíbe as funções públicas e militares mais elevadas aos não muçulmanos, e que é dirigido por um partido (o AKP) saído de uma corrente islâmica vitoriosa nas eleições desde o início dos anos 90, é ainda um país laico?

- Explicam-nos que os islamitas turcos no poder são “moderados” e pró ocidentais, que manterão ligações com a OTAN e Israel. É ignorar os propósitos do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Abdullah Gül, justificando a poligamia perante um auditório do SPD alemão, explicando que «a democracia não é um fim mas um meio» (2). Os aliados americanos sabem também, desde a guerra do Iraque, que a Turquia reislamizada não cooperará nunca mais como anteriormente. Tanto assim que Erdogan reprovou a George Bush, quando da cimeira da OTAN em Junho, a sua política “pró curda” no Iraque (3), reivindicando Ankara uma parte deste país em nome da “política das minorias” que invoca em Chipre ou na Trácia…

- A integração da Turquia permitir-lhe-ia «prosseguir a sua democratização», ao que nos dizem. A União Europeia é decerto um espaço de paz e de democracia, mas do ponto de vista civilizacional, logo naturalmente “reservado” aos povos de cultura juadaico-cristã, marcados pelo pensamento greco-latino e situados na Europa, o que lhe traz já muita gente a democratizar antes da Turquia, sendo a Ucrânia, a Bielo-Rússia e a Rússia infinitamente mais europeias. Qualquer entidade geopolítica deve ter limites claros, sem o que teremos que lidar com um fenómeno neoimperial com vocação para se estender até ao infinito.

- Os nossos dirigentes apenas têm consciência de que a Turquia na Europa se tornará o Estado preponderante da União: em 2020, Ankara disporá de 100 deputados turcos maioritariamente islamitas no Parlamento Europeu (contra 72 da França e 98 da Alemanha); será a primeira potência militar e demográfica da União (em breve com 100 milhões de habitantes e 850.000 soldados).

A entrada da Turquia na União abrirá a caixa de Pandora do alargamento. Como recusar, a seguir, os 200 milhões de turcófonos do Cáucaso e da Ásia Central, ou os Estados do Magreb? A U.E. herdará todos os contenciosos geopolíticos (água, fronteiras, minorias, etc.) que a Turquia mantém com os seus vizinhos. Sem esquecer os tráficos de droga, armas e imigrantes clandestinos, dos quais é uma das maiores placas giratórias.

A União terá como vizinhos directos o Irão dos molás e a Síria, padrinhos do Hezbollah; o Iraque da djihad anti-ocidental da Al Qaída; o Azerbeijão e a Geórgia, pontos de passagem dos terroristas islâmicos da djihad chechena…

Apesar disto, os partidários da candidatura turca afirmam que a sua integração na U.E. nos permitirá conjurar o choque das civilizações e combater a ameaça islâmica! A Europa seria uma oportunidade para a democracia turca, dizem-nos.

Seria principalmente uma oportunidade para os islamitas turcos, até lá condenados a adoçar o seu programa e a suportar a aliança com a América e Israel, enquanto os militares controlarem o país. Quanto mais não seja do que para preservar a excepção kemalista tão invocada pelos turco-eufóricos, os dirigentes europeus deverão reflectir duas vezes antes de desencadear um processo que nunca dominarão.

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Notas:

*Ensaísta. Acaba de publicar nas Éditions des Syrtes: La Turquie dans l’Europe, un cheval de Troie islamiste?

(1) Agence Anadolou, 17 de Junho de 2004.

(2) Gérard Croc, na Revue des Deux Mondes, Abril de 2003.

(3) AFP, Junho de 2004.

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