Portugal: da Revolução Álibi à Revolução Necessária

Texto retirado de um caderno de formação de quadros do extinto Movimento de Acção Nacional

"Je serais avec celui qui foutra en l'air ce régime" (Drieu la Rochelle)

Houve em tempo uma ideia, sedutora e terrível, que fez época na vida portuguesa. Ela concentrava todas as frustrações, todas as ilusões, todos os desesperos e todas as esperanças. Era a "Revolução".

Ela unia em si muitas e desvairadas gentes. Havia os jovens filho-família de aspecto linfático que tremiam de medo e pacifismo à simples lembrança de irem um dia defender um Império que o seu povo herdava; havia uma turba de cabeludos que proclamavam "make love not war" ao som de Bob Dylan e ao cheiro de marijuana; havia os tecnocratas bem vestidos que sonhavam com as maravilhas de um universo à sua medida, cheio de passaportes para a Europa, abundante em eleições, partidos e parlamentos, rico em grandes empresas e conselhos de administração; havia os intelectuais bem-pensantes, bestialmente progressistas, "pá", e cheios de obras-primas nas gavetas de que a censura tinha a chave; havia também uma juventude entediada por uma rotina em que não sentia ter um lugar, num pequeno mundo em que não descobria um sentido; houve finalmente alguns militares que descobriram que a sua missão não era defender a Terra Pátria da cobiça do inimigo, mas sim entregar-lha; estes, a "tiritar de coragem", passaram aos actos os desejos dos outros todos, e descobriram o jogo. Viu-se então o que já se podia adivinhar antes.

Ao contrário do que todos eles tinham passado anos a apregoar, não traziam a Revolução-panaceia: não era a solução para todos os males, não eram a paz nem a justiça, o que chegava. Tragicamente, foi muito o contrário. Era afinal uma "Revolução" álibi, que cada um usava como cortina a esconder ambições e desejos inconfessáveis, pequenos e mesquinhos interesses, ocultas pelas grandes e belas palavras.

E pronto, "consumatum est". Assim chegamos onde estamos. Atirados para um canto da História, aos lusíadas que fomos parece agora não restar outro destino senão assistir às periódicas mudanças de gerência a que se dedica o Regime que usurpou a Cidade e traiu as gentes. Despojados da grandeza ainda há pouco realidade, parece não podermos senão resignarmo-nos a que tudo o que no Universo vive e mexe se passa longe de nós, sem nós; porque um povo que se demitiu da sua História, aporrinhando-se num pequeno e velho rectângulo à ilharga da Europa, após trespassar a troco de coisa nenhuma o que em si havia de inestimável e único, a sua dimensão universal, não pode aspirar dizer seja o que for aos grandes centros que repartem o mundo. Assim tristonhos e esquecidos, pareceria que nos deveríamos acostumar à ideia de, democraticamente é claro, irmos aos poucos morrendo em vida. "Nem rei nem lei/nem paz, nem guerra,/definem o fulgor baço da terra/que é Portugal a entristecer...".

Mas qual o lugar que querem que eu ocupe nisto tudo? Eu – e comigo todos os que também têm 20 anos – que não têm por hábito a resignação ou o colaboracionismo, que não tiveram culpa nem aceitam ficar com a factura, nós também temos que figurar na trágica farsa que aqui levaram à cena? Devemos ir, cortadamente mendigar votos de chapéu na mão, ou correr humilde e esforçadamente, atrás de uns lugarzinhos no Parlamento? Por mais mil vezes que as vozes sensatas me aconselhem sim, – eu lhes gritarei: não e não!

Antes direi que há uma ideia a abrir um caminho, uma esperança que é preciso restaurar. Chama-se Revolução, mas uma revolução justa, verdadeira, e há-de ser nacional e popular, patriótica e social. É preciso que ela de novo incendeie os corações, mobilize os esforços, congregue os sonhos e os desejos das almas despertas. Há-de ter o sabor e a força da juventude, a alegria e a verdade do povo em luta. Não me perguntem comos, porquês, quandos e ondes: sei apenas que ela é necessária porque é indispensável. Esgotados os homens, cansadas as almas, porque não acender uma esperança? Antes que seja tarde…

Já ouço gritarem-me: "mitómano!", mas logo responde por mim o Fernando Pessoa: "o mito é o nada que é tudo"… "Sem a loucura/que é o homem/mais que a besta sadia/cadáver adiado que procria?" Calma, gente de moderação e juízo, que ainda hei-de estar vivo quando vocês todos forem lixo! Eu só queria levar a cada um um pouquinho de loucura…

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