A Aldeia Global e os Direitos dos Povos

Por Tomislav Sunic

Os grandes conflitos do futuro já não consistirão de confrontos entre a esquerda e a direita, ou do Leste contra o Ocidente, mas das forças do nacionalismo e do regionalismo contra o credo da democracia universal. O ideal da aldeia global parece tremer com a insurreição renovada dos separatismos do Leste europeu, cujas consequências podem brevemente alastrar para o hemisfério ocidental. O dogma dos direitos humanos já se encontra sob fogo dos defensores dos direitos dos povos, e o desejo das comunidades históricas começa a encabeçar as sociedades deserdadas pelas ideologias.

Com o colapso do comunismo internacionalista o relógio da História reverteu, e recordo inevitavelmente as palavras de Joseph de Maistre, um conservador do século XIX: “Já conheci polacos, russos e italianos, mas no que diz respeito ao Homem, declaro nunca o ter conhecido”. De facto, este paradigmático Homem universal, liberto do peso económico e do fardo da História, este Homem no qual baseamos a ideologia dos direitos humanos, não se encontra em lado nenhum. Parece tornar-se cada vez mais nebuloso à medida que encontramos, no dia a dia, povos reais com culturas específicas. Se este Homem vive em Brooklyn, o seu ideal de direitos humanos é muito provavelmente diferente de alguém que viva nos Balcãs; se for um fundamentalista islâmico a sua noção de dever cívico será diferente da de um católico. O crescimento dos sentimentos nacionalistas na Europa de Leste não deve ser visto como uma mera retaliação contra o caos económico comunista; em vez disso, é o desejo de povos diferentes resgatarem a sua memória nacional há muito oprimida pelo vácuo do universalismo comunista.

Toda a Europa parece estar a ser sujeita a uma paradoxal e quase enganosa curva histórica. Por um lado a Europa ocidental está a tornar-se cada vez mais numa sociedade “americano-cêntrica” desnacionalizada, enquanto que a Europa do Leste pós-comunista ameaça explodir numa miríade de mini-Estados. Comparativamente, a Europa ocidental está a experimentar uma vaga de imigração sem paralelo e o inevitável surto de racismo que esta origina, e a homogeneidade racial dos europeus de Leste torna-os actualmente mais “europeus” que os europeus ocidentais – e isto sem ignorarmos a bagunça multi-étnica do Leste.

Vislumbrando o desintegrar do sistema de Estados da Europa de Leste, as cruzadas de Woodrow Wilson pelo direito à autodeterminação nacional e à democracia global devem parecer contraditórios. A autonomia doméstica como foi visionada pelos arquitectos do Tratado de Versalhes em 1919 pode ter respondido aos interesses dos polacos, dos checos e daqueles povos europeus que beneficiaram com o colapso da monarquia austro-húngara, mas pouco apelou àqueles que foram obrigados a passar de uma soberania estrangeira para outra. Para os alemães tresmalhados, numa recém surgida e inflada Polónia ou numa Roménia em 1919, ou para os eslovacos num híbrido Estado Checoslovaco, o direito à autodeterminação não significa nada menos do que a criação do seu Estado-Nação próprio.

Também a Jugoslávia deve mais a sua relativa longevidade aos benfeitores liberais ocidentais do que a um verdadeiro consenso dos seus vários povos. Nos últimos setenta anos a experiência jugoslava tem sido um exercício de guerras civis e de constantes tensões étnicas entre quatro dos seus maiores grupos étnicos. Naturalmente, à luz das actuais salvas a serem trocadas entre croatas e sérvios, a questão que se coloca é: porque será que uma mistura artificial de vários povos origina sempre a instabilidade e o caos étnico? A resposta parece bastante óbvia: os direitos dos povos não são compatíveis com o universalismo. As particularidades étnicas não podem conviver num Estado que coloca os princípios abstractos dos direitos humanos acima dos princípios reais dos direitos dos povos.

Seria impossível numerar com precisão quem está correcto e quem está enganado na actual confusão étnica que assombra a Jugoslávia. Um número díspar de desgostos pode ser ouvido actualmente vindo de croatas, sérvios, eslovenos e de albaneses, cada grupo tenta cansativamente ultrapassar os outros com a sua própria e impressionante vitimização. Como a Jugoslávia demonstra, em países multi-étnicos a noção de Justiça depende apenas da constante alteração inter-étnica na balança do poder, bem como a percepção que cada grupo étnico possa ter dos seus vizinhos. Tanto os sérvios como os croatas, os dois maiores grupos étnicos da Jugoslávia, se encontram actualmente muito desapontados com o seu país: os primeiros com o argumento de que a Jugoslávia não se encontra suficientemente centralizada, o que não permite a consolidação do Estado jugoslavo; os últimos com o argumento de que a Jugoslávia já se encontra demasiado centralizada. A lição a aprender actualmente com a experiência jugoslava é a de que em Estados multi-étnicos a democracia só poderá funcionar quando se tiver resolvido a questão nacional.

Mais, a democracia só conseguirá criar raízes dentro das fronteiras etnográficas dos vários povos, que irão definir essa palavra de acordo com o seu genius loci e através da sua História própria. Tal como era um disparate há algum tempo falar de dissidência anti-comunista jugoslava, é agora um disparate antecipar a emergência de uma plena democracia “jugoslava”. O que parece ser bom para um democrata croata hoje pode ser entendido como uma ameaça directa por alguém que se veja como um democrata sérvio amanhã. Mesmo a América, devido à sua política errática sobre a imigração e ao decréscimo da taxa de natalidade, pode em breve encontrar-se numa posição semelhante ou ter de redefinir o conceito de democracia. O legado dos Pais Fundadores, nos anos que se avizinham, pode ser interpretado de um modo diferente tendo em vista a alteração do tecido racial da América. As preferências eleitorais provavelmente irão ser influenciadas pela cor da pele, o que poderá originar uma balcanização pior do que a que actualmente ameaça a Jugoslávia.

A democracia em qualquer Estado multi-étnico, pelo menos como os democratas globais gostam de a ver, é um disparate semântico; o princípio liberal de “um homem, um voto” é inaplicável num país com grupos étnicos diversos. Consequentemente, a genuína democratização da Jugoslávia, ou já agora da multi-étnica União Soviética, iria requerer a desintegração do país e o estabelecimento de novas Nação-Estado. O Sacro Império Alemão foi um exemplo de um sistema confederado relativamente estável que durou quase mil anos, apesar de em certa altura ter sido dividido em três centenas de principados soberanos.

Por mais paradoxal que possa parecer, a ideologia de uma democracia global parece poder comparar-se de perto com o fiasco da Utopia comunista, com uma excepção: actualmente tem tido mais sucesso na obtenção dos seus objectivos. O que testemunhamos no Ocidente é uma transposição liberal do ideal cristão de um só mundo para a sociedade pós-industrial – uma civitas dei na era da televisão por cabo e do Michael Jackson. Tudo pressagia, contudo, que este tipo de universalismo pode ser tão perigoso para os povos da Europa de Leste tal como o agora moribundo comunismo. Do ponto de vista de um mercador global uma Jugoslávia centralizada e unificada, ou uma União Soviética, organizadas em gigantescos mercados livres, seriam a melhor solução para facilitar o livre movimento do capital, e portanto para melhor aliviar a estirpe da animosidade étnica. Na verdade, as perspectivas de ter que lidar com vinte Estados adicionais no continente Euro-Asiático é o pesadelo de qualquer homem de negócios mais interessado no livre movimento de capitais do que na autodeterminação dos grupos étnicos. O liberal político certamente que irá apoiar uma aldeia global que inclua diferentes paradas étnicas desde que estas não se transformem em marchas militares. Tal linha de pensamento, em que “a economia determina a política”, destaca claramente a morfologia marxista inerente ao liberalismo, confirmando, uma vez mais, que o comunismo não é mais que o seu filho intelectual mais empertigado.

Mas irá o bazar livre da aldeia global dissolver as paixões étnicas? Apesar das massas da Europa de Leste «franchisada» estarem actualmente a imitar todos os passos do Ocidente, nada indica que a sua lua-de-mel com a aldeia global dure muito tempo. A intolerância étnica irá agravar-se assim que os povos da Europa de Leste se apercebam que a aldeia global promete muito mas cumpre pouco.

O que cria um povo? Um povo possui uma herança comum e o desejo de um destino comum. Um povo existe apesar das divisões superficiais como os partidos, grupos com interesses especiais e inclinações ideológicas passageiras. Como Georges Dumézil, Mircea Eliade e Carl G. Jung o demonstraram, um povo partilha um “mito fundador” – um mito comum que origina os feitos culturais originais. A cultura de um povo, recorda Alain de Benoist, é o seu bilhete de identidade e a sua respiração mental, e “é o passaporte para um futuro que toma a forma do destino.”

Quando um povo se torna alheio ao seu mito fundacional está condenado a desaparecer. Pior, pode transformar-se num agregado de robots felizes cujo novo dictum dos direitos humanos universais pode ser apenas uma camuflagem para o seu hedonismo demente. A Europa ocidental já experiência este tipo de entorpecer étnico e cultural. Paris em Agosto assemelha-se a Oran ou a Marraquexe, e grandes áreas de Berlim, ao meio-dia, têm o sabor distinto da Anatólia. Para muitos estrangeiros a França está a tornar-se cada vez mais um sinónimo do seu famoso queijo de cabra e cada vez menos o símbolo do heroísmo Corneliano, e se decidirmos ir a Florença é mais por uma boa garrafa de Chiante do que pela mística transcendente sentida através dos quadros de Botticelli. A Jugoslávia, fundada em princípios semelhantes aos do multiculturalismo, é um produto do pan-eslavismo russo do séc. XIX combinado com o sonho Wilsoniano. Esta experiência não deu origem a uma paz perpétua. Em tempos de grandes crises as nações hospedeiras já não vislumbram os estrangeiros como exemplos de um folclore exótico, mas como predadores que lhes roubam o pão da boca. Os povos não são iguais; nunca o foram e nunca o serão. Os grupos étnicos podem ser comparados aos presos das grandes prisões americanas, que normalmente só se começam a respeitar uns aos outros quando os seus movimentos são inspeccionados e as suas celas separadas por grossas paredes de betão. Atirados para uma só cela o mais provável é devorarem-se uns aos outros num conflito perpétuo sobre “imperativos territoriais.”

A melhor via, portanto, para resolver a crise multi-étnica jugoslava não é apelar ao espírito de “irmandade e união” mas desmantelar o país num Estado confederado. O sangue e a terra irão determinar sempre a vida das nações. “Arranhem a pele de um globalista, prega um provérbio croata, e por baixo encontrarão um croata, um sérvio, um alemão ou um judeu dedicados.”

Com o fim do comunismo, não se chegará ao fim da História, como alguns gostavam que acreditássemos. Tivessem os europeus do séc. XIII conjurado o “fim da História”, o cananato da Mongólia teria sido transferido para a Península Ibérica. Tivessem os alemães e os polacos pregado a liturgia da discriminação positiva em 1683 e Viena brilharia actualmente como a capital dos sultões turcos. Os infinitos jogos de poder entre as nações e os grupos étnicos, as alterações constantes das inclinações demográficas, ensinam-nos que a vida continua com todo o seu ódio “criativo” – além de Hitler, de Estaline ou de Saddam.

Actualmente, mais que em qualquer outro período da História da humanidade, é a especificidade dos povos que se encontra ameaçada pelo credo universalista. Quer se viaje para Varsóvia ou para Sarajevo, ou às terras em Bucareste ou em Berlim, o som da música rock e a iconografia da cultura de plástico tornaram-se na nova língua franca da aldeia global. Podemos passar dias no Hilton de Budapeste sem sequer nos apercebermos que deixamos para trás as pontes suspensas do complexo de hotéis na baixa de Atlanta. O novo universalismo, com o propósito de reforçar a sua crença, já não precisa de recorrer ao genocídio e ao despovoamento como no gélido clima de Kolyma ou Katyn do qual Estaline, em nome do paradigmático proletariado global, separou alemães do Volga, kalmuks e chechenos. O novo universalismo só precisa de se virar para um universo tépido de Kentucky Fried Chicken, uma sociedade na qual toda a gente se assemelha a toda a gente, e na qual as identidades étnicas, portanto, nada significam.

Este “estalinismo fixe” despoja os povos das suas almas ao criar um Homo economicus-dollaricus. O resultado dos dois tipos de universalismo é muito semelhante, com a excepção de que a violência encoberta do universalismo liberal pode agora ser mais perigosa que a violência descarada do comunismo. É uma ironia da História que a violência bruta geralmente preserve o regionalismo e as raízes étnicas; todas as perseguições têm a sua virtude catártica, e cada sacrifício fortalece normalmente a memória histórica de um povo. A violência comunista tem desencadeado um nunca visto orgulho étnico das Balcãs às terras do Báltico. Num universo de ar condicionado infernal do multiculturalismo fixe, por contraste, o regionalismo e o amor ao seu país não precisam de ser descaradamente esmagados; em vez disso podem ser transformados em comodismo e, portanto, vistos como algo supérfluo, ou mesmo hilariante. Se algum dia o orgulho étnico desaparecer da Europa de Leste não será devido à repressão comunista, mas devido ao entusiasmo pelos apetrechos capitalistas. A aldeia global sabe como escravizar os comedores de lótus de Ulisses sem que estes sequer se apercebam do perigo que os encara.

Num sistema em que tudo se transformou em comodismo, a identidade étnica é vislumbrada como uma trivialidade dispensável – uma trivialidade que pode, na melhor das hipóteses, despertar algum interesse culinário ou a curiosidade de um turista. Se necessário, o universalismo pode até fazer um bom negócio com o martelo, a foice e a suástica – desde que vendam bem. Para um mercador global, o lar é onde ele pendura o seu chapéu e onde possa ganhar muito dinheiro. Montesquieu não estava, afinal, errado quando escreveu que o comércio é a vocação dos povos iguais.

Até recentemente, os conceitos de igualdade e de democracia global estavam restritamente limitados aos povos ocidentais. Actualmente, num espasmo de masoquismo, e devido à dita “culpa branca”, o Ocidente estendeu estes princípios aos antípodas da Terra. O bon sauvage foi transformado, na nossa era pós-moderna, no papel terapêutico do super-ego do homem branco. Não há muito tempo era o homem branco que tinha de ensinar aos não brancos os modos do Ocidente. Actualmente os papéis inverteram-se; agora é o não-europeu, com a sua inocência prístina, que se incumbe de auxiliar a consciência do ocidental, de lhe indicar a via correcta para um futuro radiante.

O próprio conceito do “Ocidente” foi despojado do seu significado geopolítico e geográfico originais, tornando-se numa metáfora para o sistema que abrange o Alasca, as Filipinas, a Coreia do Sul ou qualquer outro local em que o ideal da mercantil aldeia global pegue.

Com o fim da sua concorrente ideológica, a filosofia da aldeia global tem tomado conta de muitos países, elogiando aqueles que a apoiam e vilipendiando aqueles que se opõem. O que o futuro nos reserva não é difícil de adivinhar. Pode bem suceder que os problemas inter-étnicos acalmem no Leste, mas não é provável que o mesmo aconteça no Ocidente, no qual abunda livremente a confusão racial. Poderemos ver brevemente réplicas do Muro de Berlim erguidas em Nova Iorque ou na Filadélfia com o propósito de conter a violência multi-étnica da aldeia global. O exemplo da Jugoslávia artificial não deve ser esquecido. O nosso “altruísmo promíscuo”, como Garrett Hardin escreve, pode levar-nos, contra a nossa vontade, a uma guerra de todos contra todos.

O culto da aldeia global surge actualmente como uma resposta política às batalhas teológicas e ideológicas que abalaram o Ocidente durante mais que um século. Resta saber como o singular princípio dos direitos humanos pode ser implantado num mundo que permanece eminentemente plural. “Invocamos os direitos humanos”, contínua Hardin, “para justificar a nossa interferência nos assuntos internos doutras nações. Desse modo arriscamo-nos em tornar essa nação num inimigo… As intenções por trás da ficção dos “direitos humanos” pode ser nobre, mas insistir em tais direitos originará graves perigos.” A democracia global é o último sonho daqueles que se encontram espiritualmente despojados e fisicamente desenraizados. É uma doutrina que eloquentemente mascara a realidade étnica e racial por trás da teologia do universalismo.

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