Ser Natural

In Último Reduto n.º 5

«Nos tempos pré-históricos da humanidade, a selecção era assegurada por condições naturais, e o heroísmo, a utilidade social, etc., eram factores que o rude meio exterior seleccionava. Hoje, é necessário que esse papel seja desempenhado por uma organização humana, sem a qual a humanidade, carente de factores selectivos, será aniquilada pela degeneração devida à domesticação.»

O sistema democrático que nos oprime, nas suas cambiantes burguesa ou popular, para se tornar eficaz e solidificar a sua monstruosa dominação, necessita de se basear em dogmas, em mitos.

Essa série de dogmas básicos, de ideias-força, são vitais para a sobrevivência do Sistema e, por isso, são diária e repetidamente martelados nos nossos ouvidos, não só pelos políticos e pelos meios de comunicação, mas inclusivamente por muitos intelectuais e cientistas que presumem ser independentes.

É fácil resumir este conjunto de mitos: «os homens nascem todos iguais»; «o comportamento e o carácter são fruto exclusivo da educação»; «a agressividade é fruto da repressão»; «os factores culturais são fundamentais»; «os factores biológicos ocupam um papel secundário: logo as diferenças interraciais são de origem cultural e não de origem biológica»; «a economia é o verdadeiro motor da História».

São estes os dogmas de fé democráticos. Desgraçado de quem os põe em causa!

De repente e graças a uma evolução científica baseada em importantes trabalhos e estudos, a nova vaga de cientistas demonstra que estes pilares ideológicos não passam de mentiras, de utopias e de lucubrações de cérebros narcisistas e sonhadores. Pelo contrário, os cientistas apresentam a verdadeira imagem do Homem: forte, livre e natural.

Se considerarmos a transcendência dos trabalhos de Konrad Lorenz, de Robert Ardrey, de Irenaus, de Eibel-Eibesfeldt e de outros etólogos, damos conta de que ultrapassaram em larga escala o puramente científico e académico, para revolucionarem a concepção do Homem no domínio da antropologia filosófica, da ética, da pedagogia e da psicologia, demonstrando a falsidade dos conceitos que herdámos directamente Revolução Francesa.

Uma forte reacção, encabeçada pelos discípulos do pseudo-místico Teillard de Chardin, não se fez esperar. O seu problema (que, digamos, em abono da verdade, a fez cair imediatamente pela base) foi estar alicerçada em diletantismos e ataques pessoais, onde eram até acusados de serem nazis… Nenhum argumento com bases sólidas em experiências científicas ou factos concretos! Pobres palhaços pseudo-humanistas!

De entre o grupo de cientistas que demonstraram que os homens não nascem iguais, que existem caracteres e instintos que são inatos e que a educação e o meio apenas influem relativamente, que o instinto de território e propriedade tem raízes biológicas etc., penso que o mais importante e talvez mesmo o mais conhecido será o prémio Nobel Medicina de 1973, Konrad Lorenz.

Para Lorenz «pecado é tudo aquilo que está contra a ordem natural». Apenas isso. Tudo o resto pode afectar valores morais, pode ser discutível, pode estar errado, mas acaba por variar com o tempo. Nada tem o sentido negativo absoluto do que é antinatural.

O instinto

O inato, o instinto, é o centro dos estudos de Lorenz: sexualidade, fome, medo, agressividade, são os instintos básicos do homem, baseados em última instância na luta pela sobrevivência da espécie. Estes instintos, comuns a todos os animais, não são maus nem inferiores. São simplesmente naturais!

Nas suas divagações paranóicas, Freud considerava os instintos como produto do subconsciente. As religiões têm considerado os instintos como produtos inferiores de um corpo desprezível, nada tendo a ver com a alma igual para todos, pura e imaterial. A democracia e o marxismo atribuem os instintos à educação, ao meio e às relações económicas.

Konrad Lorenz e a ciência genética em geral assinalam o caminho natural e verdadeiro: os instintos são inatos, geneticamente determinados, formando parte integrante da alma — Lorenz demonstra que os instintos não só não rebaixam como, pelo contrário, salvaguardam a espécie e a personalidade. Nos animais irracionais, os instintos estão limitados e conduzidos pela ritualização de uns dados actos. Por exemplo, a agressividade entre dois animais da mesma espécie raramente termina com a morte de um dos contendores, pois perante certos comportamentos rituais o vencido é perdoado. Essa gama de ritualizações do comportamento é o que poderemos chamar a moral do animal.

O problema da sociedade moderna reside no facto de não ser natural, de ter perdido o controle dos instintos ou mesmo de os ter procurado eliminar. Assim, a sexualidade descambou em pornografia e orgia, que eliminaram a ritualização amorosa do instinto sexual para apenas, haver o prazer fugaz e material. A violência descambou em sadismo, pela destruição dos conceitos de honra e dos rituais hierárquicos que a limitavam.

A maioria dos princípios morais não eram mais que ritualizações instintivas. Freud demonstrou a sua ignorância etológica ao afirmar que a sexualidade infantil era o tabu para as relações sexuais entre familiares. Hoje, sabemos que os contactos sexuais entre familiares são perigosos para a espécie. Foi baseado neste instinto que nasceu o conceito deste tipo de relações serem pecado. A ritualização do instinto conduz às normas morais!

A violência

A violência é o centro dos estudos sobre os instintos. A maldade não está na violência, mas no seu mau uso. É tão antinatural eliminar os trâmites rituais da violência para cair na destruição gratuita, como pretender abafar o instinto, substituindo-o pelo pacifismo.

Para Lorenz, o leão não é mau por matar a sua presa, a maldade estaria em impedir o leão de ser natural e tentar convertê-lo em cordeiro.

Outros vão ainda mais longe: a maldade estaria antes numa certa debilidade. Os elementos débeis, que não se sabem situar na escala hierárquica que lhe corresponde, sabem que não poderão lutar naturalmente contra os fortes. Por isso recorrem à astúcia (entre os homens apelidaríamos de traição). São esses mesmos elementos débeis que não respeitam os limites rituais da violência: os que destroem com ódio, os que matam crias ou fêmeas ou atacam à traição, os que enganam para vencer ou não dão quartel ao vencido. São claros exemplos disto, a hiena e o mabeco.

A violência, o instinto agressivo, deve ser orientado para a criatividade, para o esforço construtor, não isento de violência em vez de o pretender anular com um utópico pacifismo. A violência não se aprende, é inata. Logo, os ensinamentos pacifistas não a podem eliminar. Apenas criam traumas e complexos ao pretender desviarem-na do interior da pessoa.

A piedade (aplicada à violência) é pois um sentimento ritualizado de inibição da violência, perante provas de aceitação da hierarquia do mais forte. Na sociedade moderna, contudo, transformou-se na arma dos débeis que não querendo aceitar a hierarquia natural pretendem igualitarismo do número e evitar a resposta violenta justa dos fortes, por meio de uma piedade endeusada e como princípio absoluto.

A etologia aplicada

Lorenz escreveu Os oito pecados mortais da civilização especialmente dedicado à aplicação da etologia na sociedade. É um livro muito interessante que assinala os erros básicos da Sociedade moderna (entendendo-se «Moderna» a sociedade que perdeu o sentido natural da biologia do comportamento).

Podemos sintetizar e analisar alguns desses erros:

- Muitas vezes, aquilo que minora o sofrimento humano, aquilo que marca uma excessiva piedade, traduz-se numa corrupção da personalidade e resultará ainda em maiores sofrimentos do que aqueles que se pretendia evitar. Esta é a grande tragédia da natureza. Devemos aprender a não utilizar a piedade indiscriminadamente.

- A necessidade de um espaço vital, de um território mínimo. É um erro acreditar que o crescimento de uma sociedade é indefinido ou ilimitado. A necessidade de um território mínimo e uma realidade psicológica e material. Se se renunciar ao espaço vital, devido a um pacifismo endémico, está-se implicitamente aceitando poder ser um dia vítima da expansão de outros povos, não viciados por utopias.

- Um utilismo ilimitado. Entre os animais irracionais, a obtenção de prazer ou de um bem custa sempre um esforço.

Por isso, entre eles não existe a ganância de esbulhar riquezas. Os animais não agem assim, pois para isso precisariam de despender um grande esforço.

O homem moderno apropria-se sem limites, possui (ou melhor pode possuir) milhares de coisas inúteis que cada vez lhe custa menos trabalho para as obter. Perdeu-se a proporção entre o bem obtido e o esforço a efectuar. Esta é a grande causa da sociedade de consumo.

O mal não é possuir, mas não haver um esforço condizente para conseguir essa possessão, não se saber determinar se vale ou não a pena ou realizar o esforço para conseguir o objecto. Se se pudesse determinar esse custo, ninguém levaria o ritmo de vida necessário para possuir tantas coisas inúteis.

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