Homenagem a António Sardinha

Por António José de Brito, Jornal "Mensagem", 05/02/1948

António Maria de Sousa Sardinha nasceu em Monforte do Alentejo a 9 de Setembro de 1887. Viria a falecer, em Elvas, no dia 10 de Janeiro de 1925. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra com 21 anos; tendo entretanto concorrido aos jogos florais hispano-portugueses, realizados na Universidade de Salamanca, onde obteve o galardão máximo com «Lírica de Outubro», 1909. A política seguida pelos governos republicanos, bem como a realidade que o regime implantou em Portugal nos diversos campos (político, económico, social e religioso), levou António Sardinha à ruptura com o seu passado republicano, convertendo-se à religião católica e ao ideal monárquico.

Em Abril de 1914, junto de Hipólito Raposo e Alberto Monsaraz, lança a revista «Nação Portuguesa», órgão do «Integralismo Lusitano», onde se mostra defensor da instauração da monarquia orgânica, tradicionalista e antiparlamentar. Um ano depois, concorre à Faculdade de Letras de Lisboa, à cadeira de História, com a tese «Valor da Raça», sendo classificado com mérito absoluto.

Em 1917, no diário «Monarquia», aparecido nesse ano, António Sardinha assume papel de relevo na orientação doutrinária, iniciando o combate de filosofia política, revisão historiográfica e crítica de ideias. Eleito deputado pelo «Integralismo Lusitano», tal como Alfredo Pimenta, bate-se pela defesa dos seus ideais políticos, mas o fracasso da tentativa de restauração monárquica no Porto leva-o ao exílio, em Espanha entre 1919 e 1921. Com o êxito de «Ao Principio era o Verbo» é homenageado publicamente pelas personalidades intelectual e moralmente mais destacadas da nação.

António Sardinha faleceu com 35 anos de idade. Vida demasiado curta, mas suficientemente no entanto, para a vastidão da sua obra nos campos da poesia, da história nacional, da filosofia política, dos estudos peninsulares, da crítica de ideias.
Foi um dos maiores expoentes doutrinários nacionalistas de sempre.

Com a morte, em 1925, do autor de «Ao princípio era o Verbo», perdeu, sem dúvida, o nacionalismo português um dos seus mais altos representantes e um dos seus mais ardorosos doutrinadores.

Educado no culto dos Direitos do Homem e na admiração entusiástica dos Imortais Príncipios, António Sardinha, perante o espectáculo irrisório do Constitucionalismo, foi republicano e revolucionário. A falência catastrófica e anárquica do regime implantado a 5 de Outubro veio, porém, destruir as suas ilusões e quimeras. Tinha chegado a hora angustiosa da crise Interior.

Diante das realidades ele, como tantos outros jovens da sua geração, fez o seu exame de consciência. Qual o valor dos ideais então professados? Quais as causas de desordem? Como salvar Portugal? Que caminho seguir? A essas perguntas perplexas, Sardinha não tardou a dar resposta. Maurras, Barrés, Daudet, Taine, Renan, Agostinho de Macedo, Gama e Castro, o Marquês de Penalva, ensinaram-lhe a crítica à Democracia, ao Liberalismo, o apreço às elites, o amor à realidade. Gama Barros, Alberto Sampaio, os eruditos da Portugália, o estudo das crónicas, de velhas memórias, trouxeram-lhe uma nova visão da história, uma nova compreensão da origem e do destino do país. Tendo encontrado a Verdade, Sardinha não hesitou um momento. Na companhia do grupo ardente de rapazes que constituía então o integralismo, lançou-se, através das páginas da «Nação Portuguesa», no mais aceso combate.

À oposição clássica: Liberdade ou Autoridade, respondia que a Liberdade sem a Autoridade era um absurdo pois a primeira, proclamando-se um valor, implicitamente estava atribuído a si mesma autoridade. E, contra o Individualismo, tratava o esboço da síntese entre estes dos falsos contrários, por meio da noção viva e criadora da Ordem que atribui cada coisa o seu lugar; da Ordem realizada na Monarquia Integral com o Rei ao alto federando e unindo energias, com os municípios, as províncias e as corporações autónomas na sua esfera, toda esta grandiosa hierarquia desenvolvendo-se, fluindo e formando, na inseparibilidade do soberano com os diversos agregados, o formidável todo que é a Pátria.

As calúnias e deturpações dos escritores liberais, discípulos dilectos da Maçonaria, respondia, triunfantemente com as provas na mão, lançando abaixo do pedestal o falso mártir Gomes Freire, combatendo a nefasta acção do Marquês de Pombal, reabilitando a memória ultrajada dos nossos reis, de D. João IV, D. Miguel, D. João V, D. Sebastião, D. Fernando, atacando a obra da Carta Constitucional, provando quão de falso havia na lenda uma suposta tirania existente até ao radioso ano de 1820, demonstrando que não tinham fundamento as acusações injuriosas e difamantes que pesavam sobre a Inquisição e os Jesuítas, etc.

Aos tímidos conservadores, que se insurgiam contra os «extremismos», quer das esquerdas quer das direitas, aos defensores puros do existente; aos monárquicos que se limitavam a combater a república comparando o valor dos estadistas de antes de 1910 com o mérito dos de depois de 1910, aos que repeliam a doutrina como luxo ou a reduziam a palavras vagas, a esses todos fazia a apologia de Sorel e da violência, proclamava o direito do pensamento de dirigir a acção, afirmava a existência de princípios objectivos a defender e a exaltar. E com energia para repelir os apelos escandalizados da burguesia exclamava: «O nosso movimento é fundamentalmente um movimento de guerra».

Aos que apelavam para as memórias gloriosas dos eminentes espíritos do século dezanove, ele, sem hesitação, repelindo preconceitos extraía o sentido contra-revolucionário subjacente nas obras de Herculano, Garrett, Oliveira Martins, Antero, Ramalho, Eça, e, sem falsas devoções, não esquecendo os erros, por vezes graves, de tão grandes vultos, enquadrava-os no momento histórico que lhes cabia, explicando o significado dos seus ataques e das suas ironias, significando bem mais alto que o atribuído pelo fácil jacobinismo da época.

Aos defensores sentimentais ou interessados do Judaísmo ele mostrava, com Sorel e Sombrat, a nefasta influência exercida pelo «espírito talmúdico» na economia europeia, a responsabilidade que lhe competia no desenvolvimento e na frutificação da pluricracia, da agiotagem, da avidez desenfreada de lucro. E assim, de cara descoberta, ele combateu os mitos, sem transigir, sem pactuar com uma glória fácil ou um comodismo tranquilo.

Não nos deixou uma vasta obra sistemática; não nos deixou uma doutrina de cânones estabelecidos; mas, se não compôs tratados no remanso dum gabinete, legou-nos a lição incessante dum combate sem tréguas de nacionalista intransigente e de monárquico desinteressado. Com o auxílio dos seus companheiros do Integralismo, com Mariotte e com o inquebrável e enérgico Alfredo Pimenta, conseguiu Sardinha levar a cabo uma das mais notáveis revoluções espirituais do nosso tempo. Por isso, enquanto houver portugueses, jamais será olvidado o seu apostolado, expressão clara, manifestação gloriosa da vitalidade perene do Génio da Raça.

Por isso o invocamos hoje, nós os que lutámos pela mesma eterna verdade da Pátria e do Rei, certos de que não faltará à chamada e de que o seu espírito nos acompanhará.

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