Uma ideia nova - a Eurodireita

Por Maurice Bardèche

O grande sucesso do comício da “Eurodireita”, na “Mutualidade”, não foi somente o sinal dum despertar que a campanha eleitoral não conseguiu provocar. Não foi também um acto de fé num futuro dum Parlamento europeu que se arrisca muito a ser uma assembleia sem poder real, e cuja única importância será transformar-se em um símbolo, o duma aspiração que terá ainda muito que fazer para se tornar uma vontade. É outra coisa: é a aplicação de uma ideia nova que pretende encher um vazio político e que incarna não só uma ideologia, mas o que é muito vasto e mais atraente, uma atitude.

A Comunidade Europeia que nos preparam os partidos colocados no seu lugar pelos Aliados em 1945 reproduzirá todas as taras dos regimes de sufrágio. Será portanto uma Europa democrática, isto é, uma Europa dos políticos, enfeudada aos trusts e aos monopólios, alimentada com mitos e confusões elaborados em 1945, incapaz de se defender contras as infiltrações e a subversão, paralisada na sua vontade de se defender pelos partidos subordinados a Moscovo ou aterrorizados à ideia de se oporem àqueles, venal e desonesta porque estará fundada no mecanismo eleitoral, impotente contra a invasão estrangeira, vestida de ideologias antiquadas como o antifascismo, imprópria por todas estas razões para proteger e, ainda menos, manifestar a sua independência, tão inviável como era a Polónia do século XVII, e exposta aos mesmos perigos.

Além disso “avançada”, isto é, frouxa, hipnotizada pelos estoira-vergas que se proclamam mais avançados que ela, sem defesa contra os terroristas e os separatistas, espantados com a ideia de ser aquilo que convém ser quando se quer ter, em política, uma força. Por todas estas razões, a Comunidade europeia democrática conduz em si própria todas as causas de malogro e decadência, não conseguirá, pois, remediar as necessidades mais urgentes, organizar um exército que seja suficiente para tornar perigosa uma empresa contra o seu território e dotar-se de uma legislação que proteja eficazmente os seus interesses económicos.

Podemos, pois, estar seguros de que a “Comunidade” dos regimes sem alma e sem força será, ela própria, uma Comunidade sem alma e sem força. A Comunidade europeia democrática não produzirá qualquer milagre: não pode ser senão a das fraquezas dos Estados democráticos que a compõem.

O revigoramento da Europa tem por condição o revigoramento moral e político de cada uma das nações europeias.

É nisso que o aparecimento da “Eurodireita” é simpático. Ao reabilitar uma terminologia política, que parecia votada ao ostracismo e que nenhum partido ousará reivindicar, o M.S.I. italiano, a “Fuerza Nueva” espanhola e o P.F.N. em França, nos quais a juventude representa um papel importante, tomam, em primeiro lugar, uma atitude característica, opondo-se, pela escolha do vocabulário, a uma esquerda paralisada e convencional e, por consequência, conservadora sem o saber, entorpecida por ritos e responsos, cuja observância e recitação lhes conserva lugar em toda a ideia política. Esta nova “direita” não pode já contar com a Igreja, que se passou para a esquerda, nem com o exército, que se tornou inerte, nem com os grandes proprietários, que desapareceram, nem com os chefes do capitalismo que se encontram bem instalados no presente regime. Ela não pode representar senão recusas e exigências, pelo que é necessariamente a recusa da subversão, do esquerdismo, da frouxidão e do terrorismo, do crime e dos grandes negócios, que ilustram tão perfeitamente o caso Leone em Itália, sintoma de decomposição (tão grave como o caso Moro) da confraria antifascista que se tornou uma confraria de videirismo e de benesses, resultando daí uma confraria de ódio e de denúncia.

Esta “Eurodireita”, concebida como um contrário, como uma “medicina” de que a Europa tem urgente necessidade, ultrapassa fatalmente a política, não falando, por consequência, a mesma linguagem que os partidos entronizados. A sua vocação é, em primeiro lugar, moral. O que está inscrito no seu programa não importa, porque os programas dependem das circunstâncias. Mas o que ela representa pode importar muito se incarna essas qualidades de homem e de Estado de que se não ouve falar há mais de trinta anos: a honestidade, a seriedade, a consciência profissional, a disciplina, a coragem, a lealdade como virtude dos particulares, a autoridade, a probidade, a franqueza, o sentido das responsabilidades como virtudes de Estado.

A recusa de se comprometer nas polémicas estéreis sobre o fascismo e antifascismo, a escolha duma política realista que dê prioridade aos instrumentos de independência militar e política da Europa, o sentimento sempre presente do perigo que correm os Estados Europeus, ao mesmo tempo pelo cerco à Europa independente, que não esteja enfeudada a Washington nem a Moscovo.

Mas devemos convencer-nos que esses esforços para o rearmamento material da Europa serão vãos se não forem acompanhados dum rearmamento moral da Europa.

Não sendo a Europa outra coisa senão a soma das forças que representa cada um dos Estados europeus, para o rearmamento moral da Europa convém um rearmamento moral de cada um dos Estados que compõem a Europa. É inútil estabelecer uma distinção entre o destino próprio das nações da Europa e a sua vocação europeia, a Europa os reclama também: não existe senão uma contradição aparente, visto que a força da Europa é a força de cada um de nós. Nenhuma nação da Europa se salvará só de perigos que as ameaçam a todas: salvar-se-ão conjuntamente ou tornar-se-ão escravas umas após outras.

É evidente que diante do terrorismo, do crescimento do banditismo, da impunidade dos marginais, assim como diante dos perigos exteriores, todos os países da Europa, quaisquer que eles sejam, necessitam de Estados fortes, decididos a agir, decididos a prevenir, o que é ainda mais difícil. A esta necessidade nenhum dos Estados europeus se poderá esquivar, apesar dos seus sonhos quiméricos de contemporização e de demagogia. Nós caminhamos inevitavelmente para Estados ousados e firmes porque só eles são os garantes da liberdade e da segurança individuais. Mas ao mesmo tempo, para o rearmamento moral necessário à Europa, a adesão da opinião é indispensável. É bom, portanto, que a “Eurodireita” rectifique profundamente a imagem da “direita” na opinião pública. Esta deve saber, não somente pelas suas declarações, mas por atitudes novas e por factos, que a “direita” se demarca do conservantismo social que os seus adversários quiseram impor-lhe como etiqueta definitiva. Mesmo sem se referir às posições dos movimentos extremistas de direita de antes da guerra, é natural e lógico que um regime forte seja o melhor protector dos trabalhadores contra aqueles que os procuram explorar.

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Nota: este artigo surgiu na sequência do êxito do comício realizado em Agosto de 1978 em Paris, na “Mutualité”, pela união que então se anunciava entre diversas forças europeias, tendo como cabeças de cartaz Giorgio Almirante e Blas Pinãr. Tratou-se então de uma novidade com grande repercussão nos meios políticos europeus, de que me lembrei agora devido à recente criação da Frente Nacional Europeia, já aqui noticiada. Desnecessário recordar também aqui que o artigo tem já 26 anos, e muita coisa mudou a nível dos equilíbrios políticos mundiais. Mesmo assim parece-me de proveitosa leitura nos tempos de hoje. - FeR

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