A verdade sobre a primeira Cruzada

Por Paulo Rodrigues (Jovem NR, nº 1)

Na passagem de mais um aniversário da vitória da Primeira Cruzada, que culminou com a conquista de Jerusalém pelos exércitos cristãos a 15 de Julho de 1099, os pseudo-historiadores que nos "ensinam" história e os meios de comunicação social disseram disso quase nada, aproveitando a data apenas para evocar os mesmos velhos clichés das "conquistas de territórios alheios" e da "intolerância".

O primeiro disparate que se costuma dizer a este respeito é que se tratou de uma guerra de conquista e isso é nada mais nada menos do que falsear a história. Porquê? Porque os cruzados não foram combater povos desde sempre ali instalados. Aquelas terras não pertenciam originariamente aos muçulmanos, mas sim aos cristãos. Com efeito, desde o Império Romano (e depois sob a autoridade de Constantinopla) que os territórios da Palestina e da Síria eram focos notáveis da civilização cristã, que os turcos tinham conquistado apenas alguns anos antes da chegada dos cruzados. Em relação à Península Ibérica fala-se em "Reconquista". E foi exactamente a mesma coisa que os cruzados foram fazer à Terra Santa: reconquistar aquilo que os cristãos tinham perdido ao serem escorraçados pelas invasões muçulmanas.

Intolerância? Outra mentira. É preciso ser-se mau observador para acusar de intolerância pessoas que foram reconquistar aquilo que desde há séculos lhes pertencia. Aos olhos dos pseudo-historiadores que nos tentam intoxicar a mente, só os ocidentais é que são intolerantes e imperialistas. Os "coitadinhos" dos muçulmanos, que tinham ido invadir territórios que não eram deles, é que são as vítimas, os civilizados, etc. Com certeza! E, curiosamente, enquanto hoje em dia no Ocidente os "historiadores" defendem os muçulmanos, no Médio Oriente ninguém defende os Cristãos. Que perigo para a verdade histórica! E se relativamente às Cruzadas a situação é esta, não se passará o mesmo relativamente a outros acontecimentos históricos?

Outro erro em que os nossos "pseudo-historiadores" caem é comum à corrente da Nova História, de inspiração marxista, que quase todos eles seguem: trata-se de (por muito que digam que o tentam evitar) julgar os comportamentos dos homens do passado pela mesma bitola com que julgam os comportamentos dos homens de hoje em dia: pensa-se praticamente só em termos económicos quando, na realidade, o Homem do século XI tinha um conhecimento muito diferente do nosso e uma forma de ver o mundo muitíssimo distante daquela que hoje temos. Por exemplo, para muita daquela gente reconquistar território considerado sagrado podia facilmente transformar-se no objectivo de toda uma vida, pois isso seria uma honra e a honra era muito importante para a mentalidade desse tempo. Pelo contrário, para a esmagadora maioria dos nossos contemporâneos, morrer pela honra ou por uma causa, seja ela qual for, é impensável. Por isso não nos venham dizer que, por detrás das Cruzadas, estiveram sobretudo motivações económicas. A isto acrescem as acusações de "barbaridade" e "violência excessiva". Ora, não podemos acusar de ser violentas as pessoas que viviam num mundo em que, ao contrário de hoje em dia, a violência era a única forma de sobrevivência. As atrocidades naquele tempo eram cometidas por todos, fossem eles cristãos, muçulmanos, judeus ou pagãos.

Para pesquisar as origens deste acontecimento, as teses materialistas (marxistas) falam-nos ainda da sede de conquista, da procura de novos espaços e da busca de especiarias. Tudo falso! Os camponeses dos anos mil eram sem dúvida mais numerosos do que os de todas as épocas anteriores. Mas foi precisamente nessa época que se iniciou o arroteamento das grandes florestas da Germânia, da Europa Central e do sudoeste francês. Começara-se igualmente a secagem dos pântanos. Logo esta gente não precisava de novos territórios onde se instalar, pois a quantidade de terrenos próprios para o cultivo nas suas terras era cada vez maior e chegava para todos. Porquê afrontar tantas fadigas e tantos perigos para se estabelecerem em terras longínquas das quais se sabia pelos peregrinos serem áridas e impróprias para a agricultura? Porquê negligenciar as terras próximas para ir para tão longe, onde tudo teria de ser reconstruído? O que realmente se passou foi que esta gente, que com a sua mentalidade diferente da nossa achava que TODOS os aspectos da sua vida dependiam apenas de Deus (numa altura em que os mais simples fenómenos atmosféricos eram considerados manifestações do divino), era perfeitamente capaz de largar tudo para ir morrer pela sua religião (tal como os muçulmanos faziam) pois isso era uma honra e, segundo acreditavam, conduzi-los-ia ao Paraíso. No nosso tempo, o conhecimento científico avançou e as pessoas já não crêem nas suas religiões tão cegamente. Logo, repetimos, não podemos analisar gente de há mil anos como se fossem homens de hoje em dia. E quanto às especiarias, contrariamente ao que muitos afirmam, os mercadores italianos não foram os instigadores da Primeira Cruzada porque, quando ela se realizou, há muito que os comerciantes de Génova, Veneza e Pisa estavam estabelecidos em Constantinopla e no Cairo, onde até gozavam de benefícios fiscais, encontrando-se assim no verdadeiro coração do tráfico do Oriente. A costa da Síria e da Palestina, fora destas grandes rotas, não lhes despertava grande interesse. Até porque nesse tempo, comparada com o Cairo, Bagdade, Damasco ou Constantinopla, Jerusalém fazia (em termos de prosperidade económica) figura de aldeia.

Outra mentira é a de esta Cruzada ter servido também para os segundos e terceiros filhos da nobreza (que pelas leis do Feudalismo, não tinham direito a qualquer herança) conquistarem novos reinos e riquezas para si. Mais uma vez, este argumento cai por terra se analisarmos bem as coisas, nomeadamente se reflectirmos sobre quem foram os chefes desta expedição: Godofredo de Bulhão era Duque da Baixa Lorena e, desde logo, herdara uma vasta extensão de terras muito ricas. Gastar homens e dinheiro a fundar um estado seu numa terra tão pobre como a Palestina era, sem dúvida, a última coisa em que pensaria. Por seu turno, Raimundo de Saint-Gilles era Conde de Tolosa e, depois do rei, era o homem mais importante de França. Ao partir para combater na Terra Santa (onde acabaria por morrer) perdeu a hipótese de aceder ao trono e acrescentar uma magnífica herança àquela que já recebera ao ascender à sua actual condição. Se estivesse interessado apenas no poder (ou seja, se tivesse a tal mentalidade igual à de hoje) teria ficado em França a urdir intrigas contra o Rei. E podíamos continuar esta lista com os exemplos de Balduíno de Hainaute, Boemundo de Tarento, Ademar de Monteil, etc., etc. Por tudo isto conclui-se uma única verdade: a de que a Cruzada de 1096-99 respondeu somente ao desejo dos crentes de poder visitar livremente o túmulo de Cristo e aí poder orar. É claro que, mais tarde, muitos filhos segundos se alistaram nas ordens militares que aí cumpriam serviço. Mas dizer que o objectivo das Cruzadas foi resolver o problema do excesso de população, dos filhos segundos ou de uma suposta escassez de especiarias é dos maiores disparates que se tem dito e (pior!) ensinado nas escolas. E não nos venham dizer que os muçulmanos deixavam os cristãos visitar os locais sagrados, pois esse "deixar" implicava o pagamento por parte destes últimos de taxas elevadíssimas. Já agora, que falamos em taxas, também é falso que os peregrinos que seguiam nas Cruzadas fossem autênticas hordas de bárbaros que tudo destruíam à sua passagem. O que acontecia era que os governadores e os mercadores das cidades por onde as suas rotas passavam (que muitas vezes até nem eram cristãos, mas isso é outra história) os obrigavam a pagar taxas e víveres mais caros. E tanto o fizeram que, quando as bolsas ficaram vazias e os estômagos também, os peregrinos ou cruzados não tiveram outra solução senão começar a pilhar essas mesmas cidades. Foi assim a ganância dos ditos governadores e mercadores e não o instinto dos Cruzados que levou ao saque de cidades ditas "cristãs". E realmente (como afirmam os nossos pseudo-historiadores) a pilhagem e o massacre da população de Jerusalém na tarde da vitória foram revoltantes e de uma violência atroz. Tal como o tinham sido as pilhagens e os massacres das populações cristãs por parte dos turcos e tal como eram todas as pilhagens e massacres desses tempos em que os homens cresciam e viviam em clima de pé de guerra constante. Logo, repetimos, a sua conduta não deve ser julgada segundo os parâmetros de hoje em dia, mas sim comparada com a conduta dos seus contemporâneos. Ver-se-á então mais uma vez que os cruzados não eram mais "bárbaros" do que quaisquer dos outros guerreiros do seu tempo.

Acresce ainda dizer que, no caso da Península Ibérica, agora é moda dar-se a ideia de que os muçulmanos eram mais tolerantes, menos dados à violência e mais civilizados, daí terem sucumbido à fúria dos cristãos, apresentados aqui mais uma vez como bárbaros. Cabe aqui esclarecer que os mouros eram tão "tolerantes" e "pouco dados à guerra" que passavam a vida a chacinar-se entre eles nas guerras entre as diferentes taifas em que a Hispânia muçulmana se encontrava dividida. Nem as suas técnicas agrícolas e conhecimentos científicos (sem dúvida muito avançados para a época) resultam de qualquer superioridade civilizacional: resultam apenas do facto de terem tomado contacto com as descobertas que já tinham sido feitas pelos gregos (ou seja, por ocidentais) e que tinham sido aplicadas por estes em territórios que séculos depois cairiam nas mãos dos muçulmanos. Sim, senhores historiadores de inspiração marxista, lamentamos informá-los de que os árabes não eram superiores aos europeus, apenas se aproveitaram das descobertas que outros europeus já tinham feito e aplicado no Oriente Helénico. Tal como os senhores gostam de dizer, nenhum povo era superior aos outros. Apenas havia diferenças entre os povos. Por isso não nos venham agora com teses racistas a propósito de uma pretensa superioridade dos muçulmanos. Num recente programa de televisão, um historiador português falou com todo o encanto da sociedade muçulmana, que "era muito organizada" e onde "os ofícios passavam de pais para filhos". Ora isso passava-se igualmente na sociedade ocidental (Feudalismo) mas, quando se trata do caso do Ocidente, aquilo que no caso dos mouros é visto como "organização" passa a ser visto pelos mesmos "historiadores" como "falta de liberdade", "atraso", "opressão dos pais sobre os filhos", etc. Porquê este ódio visceral à nossa sociedade, que era tão medieval como as outras?

É um facto indesmentível que, recentemente, se tem assistido a uma tentativa por parte dos "historiadores" ocidentais de despertar na nossa sociedade um fascínio por tudo o que é muçulmano. Logicamente, isso permite-lhes explorar esse novo filão do mercado que é o gosto pelo exotismo. Mas desconfiamos de que há algo mais aí por detrás: numa altura em que a pressão da imigração muçulmana é cada vez maior na Europa, o sistema apoia os "trabalhos" destes "historiadores" porque tenta preparar-nos para receber de braços abertos um multiculturalismo interno que está a dar muito maus resultados em toda a parte. Ou seja, mais uma vez, por detrás das mentiras dos falsos historiadores marxistas, estão os tentáculos do Mundialismo destruidor da diversidade cultural e do direito à individualidade dos povos. E, acima de tudo, está a velha intenção marxista de humilhar a espiritualidade e a religiosidade ocidental, que continuam a ser hoje em dia enormes obstáculos ao concretizar da utopia marxista. Depois não digam que não avisámos!

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