Existiu realmente fascismo em Portugal? Rolão Preto e o Nacional-Sindicalismo

Por Manuel Monteiro (publicado na revista Último Reduto)

«Dias mais tarde, a 29 de Julho, Salazar sai de novo a terreiro, e agora para acabar com a actividade da facção nacional-sindicalista de Rolão Preto. Porquê? Por ser um “movimento inspirado em certos movimentos estrangeiros de que copiou a exaltação do valor da mocidade, o culto da força na chamada acção directa, o princípio da superioridade do poder político na vida social, a propensão para o enquadramento das massas atrás ou adiante de um chefe. (…) Todos os que se não cingirem a estas directivas só podem de futuro ser considerados indiferentes ou inimigos” (nota do decreto governamental assinado pelo próprio Salazar). É assim o carácter nazi ou fascista do nacional-sindicalismo que, antes de mais, leva ao seu banimento.»

- Franco Nogueira, Salazar, Volume II

Existiu realmente fascismo em Portugal? Contestado por muitos, desconhecido por todos, o Nacional-Sindicalismo continua, desde há mais de meio século, a ser o pomo de discórdia da Direita portuguesa. Os salazaristas detestam Rolão Preto pela sua frontal oposição ao antigo Presidente do Conselho, os nacionais revolucionários apontam lhe o facto de se ter deixado eclipsar e a sua posterior sinuosa carreira política (quando morreu era dirigente do PPM!). Existem ainda cretinos da esquerda bem pensante (e muito chegada à Loja) que afirmam ter sido Rolão Preto um fascista enganado, ao jeito de Drieu La Rochelle, e que no fundo era afinal um marxista e um democrata de gema!… Como Drieu!…

Mas afinal quem foi Rolão Preto?

Francisco Barcelos Rolão Preto nasceu em 12 de Fevereiro de 1893 em Soalheira, Castelo Branco, e faleceu, com 84 anos, no hospital do Desterro, em Lisboa, na madrugada de sábado para domingo do dia 18 de Dezembro de 1977.

O retrato da sua vida é inquestionavelmente o do revolucionário integral, bem ao estilo da figura ideológica que foi definida pelo nosso bom amigo e camarada Giorgio Freda.

Foi exilado pela primeira vez por motivos políticos aos 14 anos de idade (1907). Em 1912 abandonou os estudos na Faculdade de Direito de Coimbra para se juntar às tropas de Paiva Couceiro, na Galiza. Condenado a 9 anos de prisão, evadiu se de seguida e exilou se. Na Bélgica, foi um dos fundadores e o secretário do Partido Alma Portuguesa (que veio a dar origem ao Integralismo Lusitano, do qual fez parte da sua Junta Central). Termina o seu curso de Direito em Toulouse, sendo igualmente licenciado em Ciências Filosóficas em Lovaina. Beneficiou de uma amnistia em 1917 e regressou a Portugal, mas logo para aderir em 1919 à revolução de Aires de Ornelas e tomando parte em todas as conspirações para derrubar a odiosa I República democrática até ao 28 de Maio de 1926, onde teve como sempre um papel decisivo. Foi ele quem redigiu o primeiro manifesto do marechal Gomes da Costa.

Um pouco a exemplo do que fez em França Georges Valois ao romper com a Action Française, Rolão Preto e os seus companheiros rompem em 1932 com a tradição monárquica clássica, para se lançarem numa aventura que nem a própria Acção Realista do escritor Alfredo Pimenta conseguiu acompanhar.

A 15 de Fevereiro de 1932 sai o n.º 1 do Revolução (o meu próximo artigo ser lhe á totalmente dedicado), o único jornal verdadeiramente fascista que se publicou em Portugal. Em 28 de Maio desse mesmo ano, Rolão Preto assume a direcção do jornal. A sua repercussão a nível nacional foi enorme, criando a possibilidade da fundação de «um movimento nacionalista de trabalhadores portugueses, destinado à conquista e à organização do Estado pelo sindicalismo», movimento que pretendia continuar os propósitos da Revolução Nacional de 28 de Maio, os quais o salazarismo gradualmente ia esvaecendo.

Em Janeiro de 1933 surge um folheto assinado por Rolão Preto com o título “Salazar e a sua Época” onde, em tom desiludido, era constatado o clima reaccionário e burguês em que a Revolução Nacional caíra (é importante lembrar que foi por esta altura que o grande capitalista judeu Alfredo da Silva se passa para as hostes salazaristas com todo o seu séquito — talvez bem ao estilo de Hugengberg, Thyssen, Krupp…). Aqui aconteceu a primeira grande fricção entre salazaristas e nacional sindicalistas.

O Revolução foi o maior divulgador em Portugal das novas realidades da Itália fascista e da Alemanha nacional-socialista. É de uma forma entusiástica, que o jornal saúda a ascensão de Hitler ao poder. No n.º 276 (1/2/33) Rolão Preto escreve: «um dos grandes povos europeus sacode definitivamente o seu pesadelo democrata, enquanto um novo César sobe triunfante as escadas do Capitólio».

Em 1934, Rolão Preto é pela primeira vez exilado por Salazar. Foi para Espanha e aí conviveu intimamente com José António Primo de Rivera, de que ainda existe uma foto sua com uma afectuosa dedicatória a Rolão Preto. Ajudou José António a redigir os 27 pontos da Falange e acompanhou toda a guerra civil espanhola.

Voltou a Portugal e voltaram as fricções com o Estado Novo. Depois de Salazar, digamos que de uma forma não muito elegante, ter provocado uma cisão no movimento nacional-sindicalista, e depois de vários incidentes, o movimento é dissolvido por decreto governamental. Cessa a publicação do Revolução. Os que não aderem à União Nacional dispersam se. Assim morre o movimento nacional revolucionário português dos anos trinta. E Rolão Preto passa, definitivamente para a oposição.

Mais tarde, fez parte da comissão de candidatura do almirante (1951) e do general Humberto Delgado (1958), foi candidato pela Comissão Eleitoral Monárquica (1969) e pela Convergência Monárquica (1973). À sua morte, era presidente do congresso do Partido Popular Monárquico.

A sua vida, e apesar do que possam dizer, foi, na minha modesta opinião, de uma cristalina coerência consigo próprio. Apesar das estranhas alianças com democratas e maçónicos, apesar de tudo e do que ainda mais queiram dizer, a sua vida foi, acima de tudo, a grande luta contra Salazar. Penso que não principalmente contra a pessoa em si mas contra tudo o que esta representava: a impossibilidade de continuar a Revolução, de a levar até ao fim, de fazer a segunda revolução: a revolução social, que a certa classe política e económica, muito ligada ao antigo Presidente do Conselho, naturalmente que nada agradava.

* * *

«Um movimento de doutrina e acção que se propõe realizar em Portugal a revolução dos trabalhadores, com o objectivo de promover o engrandecimento da Pátria, de instaurar a paz e a justiça social e assegurar a felicidade e o bem estar de todos os portugueses, num plano superior de vida austera e digna.» - definição de Nacional Sindicalismo.

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