Carvalhadas

Fonte: Batalha Final

Já disse algumas vezes que não consigo ver o programa “Prós e Prós” da RTP mais que 10 ou 20 minutos. É uma questão de salvaguarda da minha sanidade mental. Curiosamente parece que é sina minha nesses 10 minutos em que o televisor está sintonizado no referido programa apanhar as declarações mais… espantosas. Nesta semana, quando inadvertidamente fazia zapping, parei no “Prós e Prós”(designação apropriada a esse projecto televisivo desde a célebre emissão sobre os distúrbios em França) na altura em que tomava a palavra Carvalho da Silva, dirigente da CGTP, estrutura sindical controlada pelo PCP.

Não sei qual seria o tema em debate mas a intervenção de Carvalho da Silva foi sobre a Segurança Social. Mais precisamente sobre a sustentabilidade da Segurança Social. Como não estava a acompanhar o programa não ouvi a intervenção que antecedeu a do sindicalista/comunista mas pelo que disse percebi que do lado oposto alguém havia defendido a necessidade de reformas na Segurança Social do desagrado do dirigente sindical. Ora a indignação do sindicalista manifestou-se num protesto contra as reformas propostas pelos oponentes no debate, afirmando que o necessário seriam políticas que garantissem a sustentabilidade do sistema. Quais? Perguntou e bem um dos participantes. Carvalho da Silva respondeu: medidas estruturais! Até aqui tudo certo, todos estamos habituados a ouvir este tipo de soluções que na verdade não encerram solução alguma, apenas generalidades. O pior veio de seguida. Quando lhe perguntaram que medidas estruturais seriam essas o dirigente da CGTP respondeu que seriam medidas demográficas e políticas que criassem emprego.

Quanto às políticas que criem emprego, enfim, se formos até à escola mais próxima e colocarmos a questão a um miúdo de 15 anos ele é bem capaz de dar uma resposta semelhante à de Carvalho da Silva. Já a questão demográfica foi um caso diferente. E como resolveria então Carvalho da Silva o problema demográfico? Resposta do homem da CGTP, citando de memória: “vivemos numa sociedade globalizada, o mundo tem muita gente, a globalização não serve só para algumas coisas…”

Existem aqui dois factores a levar em consideração:

1. O dirigente sindical faz tacitamente a defesa da globalização, o que constitui uma novidade, ou até uma inversão, no discurso público habitual da extrema-esquerda e sobretudo dos comunistas, que são a sua família política.

2. Defende ser possível garantir a sustentabilidade da Segurança Social importando imigrantes.

Em relação ao primeiro ponto, vem confirmar o que já anteriormente havia escrito, o combate à globalização não passa nem nunca passou pela extrema-esquerda, seja ela qual for. Aquelas concentrações anti-globalização ou altermundialistas (e note-se que ao passarem a utilizar este termo já estão a assumir a defesa de uma ideia de globalização) são o espelho de quem nelas participa, vagabundos e palhaços, literalmente (um dos grupos habituais nessas concentrações designa-se “the clandestine insurgent clown army”). A esquerda marxista, como a esquerda libertária, é o que sempre foi, internacionalista e apátrida, e isto é a essência da globalização. A oposição que a esquerda radical pretendeu desenvolver por algum tempo à globalização era pouco mais que espalhafato mediático, nunca constituiu um todo harmonioso e coerente. Os seus argumentos nunca foram anti-mundialistas, no fundo resumia-se essa luta a controlar ou dirigir os movimentos do capital permitindo irrestritos os movimentos de pessoas, o que constitui uma visão claramente incompleta do fenómeno “globalista”. O velho ideal revisitado: destruir as pátrias destruindo os laços tradicionais, anular a economia de mercado, construir uma nova ordem mundial.

O segundo ponto assenta numa premissa falsa, a imigração não garante a sustentabilidade da Segurança Social, muito pelo contrário. Antes de mais convém entender que a imigração maciça é um fenómeno representativo de trabalho pouco qualificado que pouco contribui para o crescimento do rendimento dos países de destino. Esses imigrantes, para além de descontarem pouco, acabam por representar enormes custos para os sistemas de Segurança Social dos países da Europa, já que passam também a usufruir de benefícios sociais que excedem muitas vezes as suas contribuições e isso não parece nunca ser tido em conta por quem argumenta como Carvalho da Silva. Os imigrantes não vêm apenas contribuir mas passam também a estar inseridos nas redes de protecção social. O aviso mais claro chegou há cerca de 5 anos da Dinamarca, tendo alastrado aos países com sistemas mais abrangentes.

Segundo o relatório Bering a população imigrante na Dinamarca, estimada à altura em 4%, consumia 34% das despesas sociais!

Por outro lado esta imigração maciça provoca nos sectores onde incide uma pressão de baixa do preço do trabalho, provoca uma queda dos salários dos trabalhadores nacionais e uma pressão sobre os direitos laborais.

Carvalho da Silva acaba desta forma por deixar cair precisamente aqueles que supostamente deveria proteger e que mais precisam dessa protecção, os trabalhadores mais vulneráveis e mais afectados pela imigração desregrada e pela globalização. O sindicalismo marxista, preso ao eterno dogma internacionalista, revela a sua verdadeira face e demonstra que a defesa do trabalhador nacional e europeu jamais poderá ser feita pela extrema-esquerda. É certo que os custos maiores dessa imigração ultrapassam o domínio económico, são sociais, culturais, “securitários”, e se isso é um raciocínio que está fora da matriz de pensamento marxista, mesmo no seu economicismo estreito a extrema-esquerda mostra a sua inconsciência.

Comentários

Sem comentários

Adicionar Comentários

Este post não permite comentários