Táctica e Doutrina

Por António José de Brito (in «Agora», n.º 319, ano VII, 26.08.1967)

Só quem for, por completo, desprovido de lucidez e patriotismo, ou estiver em pleno retrocesso mental, poderá negar, de boa fé, que, no nosso país, reina a maior e a mais franca das desorientações intelectuais.

Sendo facto notório que é esse o estado geral dos espíritos não precisamos de apresentar provas escritas e formais da nossa asserção. Basta-nos dar-lhe relevo e destaque, indicando uns tantos aspectos salientes do panorama de conjunto.

Debrucemo-nos, por exemplo, sobre as páginas literárias dos principais quotidianos portugueses. Apesar da louvável existência da censura, o tom nelas dominante é de um acentuado esquerdismo e, por vezes até, de um acentuado filo-comunismo. Unicamente em jornais considerados já de um tremendo extremismo direitista se manifesta uma preocupação de prudente ecletismo.

Claro que, em consequência, são raros os que, entre nós, conhecem o nome dos romancistas espanhóis Sanchez Mazas ou Rafael Garcia Serrano, dos franceses Saint-Paulien, Michel Déon, Jean Brune, Antoine Blondin, Jacques Laurent, François Brigneau, Roger Nimier, Saint-Loup, dos alemães Hans Grimm e Kolbenheyer e tantos outros. As suas novelas, os seus ensaios, as suas críticas, as suas obras polémicas (algumas admiráveis como o "Mauriac sous De Gaulle", de Laurent ou o "Interdit aux chiens et aux Français", de Brune) são sepultados debaixo do silêncio espesso, ao passo que se erguem até ao céu as nuvens de incenso e as loas a quantos literatozinhos progressistas e anti-fascistas existem neste mundo. Tudo se conjuga para que a opinião pública fique a imaginar que, nas nações civilizadas, não há senão escritores que condenam os regimes não democráticos, que a inteligência é, por definição, demo-liberal ou bolchevizante e que, se não desejamos exterminar a cultura, se impõe uma mudança de instituições.

Passemos, agora, ao plano editorial, aos originais e às traduções que se publicam em abundância. O quadro é, também, francamente desolador. Não vamos deter-nos em pormenores. Apenas desejamos traçar um pequeno apontamento. No próprio dia em que lemos, em periódico francês, uma entrevista do endeusado plumitivo Sr. Cardoso Pires, dando a entender que, sobre o livro, em Portugal, pendia a ameaça de uma nova Inquisição, deparamos, na montra de uma livraria, santa e tranquilamente irmanadas, as versões, na nossa língua, da "Lógica Dialéctica" do marxista romeno Joja, do "Realismo e Existencialismo" do marxista húngaro Lukacs e de "Para um Realismo sem Fronteiras" do marxista gaulês Garaudy. Edições baratas, de divulgação, expostas e à venda, com inteira impunidade, numa terra onde o anti-comunismo é tão oficialmente adoptado que os funcionários públicos têm que declarar, por escrito, por sua honra (muitos fazem-no de sorriso nos lábios), que professam activo repúdio do comunismo e demais doutrinas subversivas.

E voltemo-nos, por último, para as novas gerações, em especial para a elite das novas gerações, a mocidade das universidades e das escolas superiores. Que vemos nós aí? Ou um grande vazio e uma grande indiferença por tudo o que não for o futebol e a música yé-yé ou, então, uma crença agressiva em pobres ideologias ultrapassadas e ultra-refutadas e só postas a reflutuar devido ao triunfo pelas armas, em 1945, da coligação democrático-bolchevique (nem reparam nisso os portentosos jovens que bradam contra a violência, nem reparam que, unicamente, graças a uma vitória guerreira, obtida sem olhar a meios, é que os seus queridos ideais não estão depositados em museu de ressequidas velharias). Em muitos permanecem vivas as recordações dos incidentes académicos de há meia dúzia de anos, tentativas de desordem e subversão em que, aliás, participaram ou colaboraram rapazes e raparigas das chamadas óptimas famílias, ligadas directa ou indirectamente a personalidades de relevo da Situação. A chama da agitação política crepita, ainda, numa minoria apreciável, capaz por momentos de arrastar a massa quando, auxiliada por conjunturas favoráveis, a consegue sacudir das nobres actividades de descompor árbitros nos estádios ou de sacudir as guedelhas ao som dos ritmos trepidantes nas boites.

Perante este desolador estado de coisas uma interrogação aflora imediatamente. Mas porquê isto? Qual a causa de um tão lastimável ambiente? Como chegamos até extremos de tanta gravidade?

A resposta não oferece grandes dificuldades. Porque nos debatemos nesta atmosfera empestada e confusionista? Muito simplesmente porque desapareceu a Fé, a fé actuante numa Ideia, numa Doutrina inequívoca, explícita, sã, radicalmente oposta, inquebrantavelmente oposta, às mitologias hoje dominantes. Semelhante doutrina, observarão os timoratos, era a dos vencidos? E que importa isso! Não deixava, por tal motivo, de ser verdadeira (porque a verdade não depende dos triunfos pela força), nem de ser, igualmente — o que é mais importante —, a única possível, se não quisermos deixar ao inimigo o domínio dos intelectos.

É óbvio, no entanto, que os neutros, os adversários, os curiosos, inquirem, esgrimem, insistem, marcando, apesar das sábias precauções, as afinidades com os sistemas malditos e formulando, ao fim e ao cabo, as acusações a que se procurava fugir a todo o custo. E, então, para se lhes escapar, para provar que os acusadores estão equivocados e não têm razão, fazem-se as primeiras concessões no terreno doutrinário. A táctica assim obriga.

Nesta altura, os ortodoxos esboçam os seus primeiros protestos, apontando o fracasso dos entusiastas da táctica que nem se furtam às acusações que os perturbam, nem deixam de transigir quanto aos princípios. Para não dar o braço a torcer, não arrepiar caminho, não confessar as suas faltas, os tacticistas ripostam, imediatamente, que se não tiveram êxito foi porque as concessões feitas eram insuficientes e o que se torna necessário é situar-se para além dos antagonistas, excedê-los. Inicia-se, por conseguinte, a descida, em rapidez, do plano inclinado.

Passa-se a utilizar, com descaro, a linguagem e as ideias do inimigo até ao ponto de nem se perceber porque é que o inimigo é inimigo. Este, conforme é evidente, cada vez mais se fortifica nas suas convicções e aumenta o número dos seus apaniguados, pois que o apoiam, gratuitamente, na sua propaganda. E são, afinal, exclusivamente, as hostes dos entusiastas da táctica que dão indícios de franca decomposição. Por fim chega-se, no domínio ideológico, até onde chegamos. Toda a gente (salvo as excepções da praxe) quer a democracia (orgânica ou inorgânica), grita o seu respeito pela eminente dignidade do homem, valsa ao som dos direitos do cidadão, desmaia perante o ideal de liberdade. Nem falta quem ao ler a frase do ilustre filósofo católico, o dominicano (dominicano, note-se bem) Louis Lachance: «a pessoa humana está subordinada ao Estado» (1), julgue ter encontrado a maior das heresias, persignando-se logo três vezes a seguir.

O primado da táctica, do intuito de conquistar adeptos seja como for, produziu o maior dos abaixamentos intelectuais. Olvidou-se, lastimavelmente, que os adeptos têm de ser adeptos de qualquer coisa de bem definido, que a táctica só se concebe ao serviço de uma doutrina intangível. Os meios são sempre meios em relação a um fim. Se se pretender arvorar os meios, enquanto tais, à categoria de fim, o que acontece é que perdem a razão de ser e desaparecem até na simples qualidade de meios. A táctica pela táctica é o próprio auto-aniquilamento.

Imaginarão os nossos teorizadores, jornalistas e influentes, da capital e da província, que o globo tem os olhos postos neles e que a posição internacional portuguesa periga se, de Lisboa a Freixo de Espada-à-Cinta, não se repetirem e difundirem (corrompendo as mentalidades) os lugares comuns das ideologias que imperam no nosso triste tempo? Bem estranho fenómeno de megalomania colectiva seria esse.

De qualquer modo, eis-nos no quadragéssimo primeiro ano da Revolução Nacional, em trágica encruzilhada, gerada por visível e patente anarquia intelectual. Para lhe pôr cobro, se porventura estivermos a tempo, não há senão um remédio: o abandono das habilidades tácticas e dos disfarces, a favor da mais firme, da mais veemente das intransigências doutrinárias. Este caminho, que é o do aprumo e da honra, será o caminho salvador, se acaso houver ainda possibilidades se salvação.

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Nota:

1 — Louis Lachance, L’Humanisme Politique de Saint Thomas, vol. I, p. 179. Paris-Otava. 1939 (com imprimatur).

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