Otto Strasser em Lisboa

Por José António Barreiros (1)

Otto Strasser, fundador do Partido nazi alemão, do qual seria expulso em conflito aberto com Adolph Hitler, esteve em passagem por Lisboa, com a Gestapo de Walter Schellenberg no encalço. Corria o ano de 1941.

A vida política de Otto Strasser é a da passagem do partido socialista nacionalista alemão a nacional socialista, de partido dos trabalhadores alemães a partido do povo germânico. Nasceu em 10 de Setembro de 1897 em Windsheim. Formado em Direito fez a sua carreira pelas hostes da social democracia. Mas em 1925 filia-se no NSDAP, o partido nacional socialista dos trabalhadores alemães. A sua formação política leva-o a construir dentro do partido o que seria conhecido como a «ala radical». O seu campo de acção fundamental é o norte do país. Os seus companheiros de missão, o irmão mais velho Gregor e Joseph Goebbels, um universitário católico especialista em Goethe, convertido em chefe de orquestra da propaganda do III Reich. Todas as sua ideias se aproximam dos socialistas. Apoia as greves operárias, favorece uma aliança com os «bolcheviks» soviéticos, e a formação de acordos políticos com as forças de libertação dos países a oriente da URSS. Centrado no «programa de vinte e cinco pontos» que constituiu a base ideológica do nazismo inicial, Strasser é favorável à nacionalização da indústria e dos grandes bancos, desenvolvendo, em suma, uma lógica anti capitalista que o vai progressivamente isolando das cúpulas do partido. Por vocação cabe-lhe o controlo dos veículos de propaganda. Edita o jornal dos trabalhadores de Berlim («Berliner Arbeiterzeitung»), as «Cartas nacional socialistas», bem como a editora militante «Kampfverlag». A ruptura entre Strasser e o partido dá-se em 1930. O anti-semitismo, neles comum, não chega para os irmanar. Nos dias 21 e 22 do mês de Maio assiste-se a um confronto ideológico patente entre Adolph Hitler, um sargento austríaco cujo fanatismo messiânico o alcandorara à posição de chefia máxima do partido e mais tarde da nação e Strasser. O pretexto fora precisamente a questão da posição a sustentar quanto à oposição socialismo/capitalismo. A linha de orientação oficial do partido recusa o seguidismo em relação à segunda alternativa, tentando, pragmaticamente, constituir-se como um terceiro caminho autónomo. Emparedado, Otto recusa-se a aderir e é expulso das fileiras partidárias durante o mês de Julho desse ano. Homiziado, ensaia a formação de um ramo autónomo, a «Frente Negra», denominada como a «União dos Nacional Socialistas Revolucionários», mas as adesões não correspondem. Exilado em Praga, com uma corte de seguidores, lança as bases do jornal «Die Deutsche Revolution» (A Revolução Alemã). A sua permanência pelo estrangeiro mantê-lo-ia pela Suiça e pelo Canadá. Parte da sua actividade de oposição seria plumitiva, tendo dado à estampa inúmeros livros, alguns de cunho biográfico. Faleceria em 27 de Agosto de 1974, em Munique.

No entretanto, deu-se a sua passagem por Lisboa. Corria o ano de 1941.

Em Abril, Walter Schellenberg é mandado chamar à presença de Adolph Hitler. Na reunião, estritamente secreta, estão Reinhard Heydrich e Heinrich Himmler.A missão é localizar e neutralizar Otto Strasser, o qual, segundo informações seguras de infiltrados na «Frente Negra» estaria em Portugal há cerca de uma semana. O Führer está apoplético. Considera os irmãos Strasser como traidores capitais. De ambos, Otto, em princípio de menor importância, revestia agora fundamental relevo, dadas as suas actividades provocatórias de propaganda. A solução final passava, pois, pelo seu extermínio. Demasiado importante, a tarefa assinalada secretamente a Schellenberg corria, porém, o risco de se transformar numa missão impossível. Na verdade, três meses antes, os serviços de informação da Legião Portuguesa haviam assinalado, numa sua informação datada de 30.01.41 (processo nº 1566/15-B5, ANTT/LP- caixa 1418) que «o alemão Otto Strasser esteve em Portugal, de onde embarcou há cerca de dois meses e meio. A amante ficou, tendo embarcado recentemente». Tudo se conjugava assim para que o pássaro tivesse levantado voo. Mas na Chancelaria nazi o trio Heydrich, Himmler e Schellenberg ignoravam a ocorrência. Schellenberg é então instruído com o método que iria ser utilizado para a liquidação física de Otto Strasser, no caso um soro bacteriológico que posto em contacto com a vítima levaria à sua morte com sintomas semelhantes aos de uma febre tifóide. Munido com tal arma letal, faz a viagem a Portugal, via Barcelona, desembarcando no aeroporto de Sintra, na Granja do Marquês. Chegado a Lisboa, através das boas ligações que mantém com a PVDE, nomeadamente com José Catela, e através de um seu agente japonês, monta uma vastíssima rede de vigilância na mira de encontrar o seu perseguido. São então postas a correr informações, imputadas a «fontes espanholas», segundo as quais Otto Strasser, que residiria anteriormente em Espanha, haveria passado a fronteira de Vilar Formoso em 7 de Agosto de 1940, encontrando-se agora em Portugal.

Alegadamente viveria agora no nosso país com falsos nomes (Dr. Baumann, Dr. Berger, Dr. Weber, Dr. Voigt) e exibiria passaporte checo em nome de Dr. Baumann, sueco em nome de Otto Brostron (desde Dezembro de 1939) e alemão em nome de Loerbrocks. A descrição física da sua pessoa é difundida, paralelamente com a sua fotografia: «1,74 de estatura, tipo pouco esbelto, cara cheia, afeitado, cabelo escasso e ruivo, olhos cinzentos azulados, andar vivo». A sua ligação ao nosso país radicaria acessoriamente no facto de o seu irmão Paul Strasser, residir aqui no Mosteiro dos Beneditinos em Singeverva, perto de Santo Tirso.

Catorze dias durou a caçada da Gestapo local. Ao fim da missão, Walter Schellenberg conclui que tudo redundaria numa estadia turística pelo país soalheiro onde se multiplicavam os seus amigos. O sucesso era nulo.

Strasser tinha partido e antes dele o irmão para preparar terreno para a sua saída. Regressa por isso a Berlim e lança ao rio Tejo a mala de aço onde confinara o poderoso veneno capaz de liquidar o seu adversário.

Oxalá, para bem da saúde dos portugueses de hoje, o aço da Krupp saiba resistir. De outro modo, uma vaga de tifo espalhar-se-à por aí…

-------------

Nota:

1. Fonte: O Mundo das Sombras.

Comentários

Sem comentários

Adicionar Comentários

Este post não permite comentários