Europa: Civilização de Nações livres e solidárias

Por Filipe Batista e Silva (Discurso pronunciado na Conferência Nacionalista de 19/11/05 organizada pela Frente Nacional)

Não poderia deixar de iniciar esta breve alocução com uma saudação àqueles que resolveram organizar esta conferência. Pela sua iniciativa, dedicação e mérito na realização e no sucesso deste evento, as minhas saudações. E pelo desafio que me foi lançado para aqui prestar este contributo, os meus sinceros agradecimentos. A oportunidade de estar aqui, lado a lado com personalidades destacadas do movimento nacionalista português e europeu, é, simultaneamente, uma honra e uma enorme responsabilidade.

O evento que hoje tem lugar surge no seguimento do trabalho iniciado este ano (2005) no Porto e que consistiu em retomar o hábito da organização de eventos públicos desta natureza. Não esqueçamos o Colóquio Nacionalista de 10 de Junho, sob o tema «Portugal no séc. XXI – A Resposta Nacional» e o Encontro Nacionalista de 23 de Julho, que reuniu, também no Porto, camaradas de Lisboa, do Norte e do Centro do nosso país.

No entanto, esta conferência eleva a um novo patamar quer a capacidade de organização quer o prestígio do movimento nacionalista português. Este é mais um indicador que comprova a crescente vitalidade de que goza o nosso movimento.

Feitas as menções indispensáveis, passo agora ao corpo da minha comunicação.

* * *

Caros compatriotas,
Caros amigos,
Caros camaradas,

Impõe-se desde já um esclarecimento preliminar. Nacionalismo Europeu ou Nacionalismo na Europa? Estas duas expressões, à primeira vista semelhantes, têm, na realidade, significados e implicações muito distintos.

Quando falamos de Nacionalismo, falamos necessariamente da ideologia que eleva a Nação ao valor supremo. Note-se bem: Nacionalismo remete inequivocamente para Nação. E se é de Nação que falamos, importa saber o que ela é. Não me cabe aqui entrar em profundas dissertações etimológicas ou filosóficas. Por isso, passo directamente para uma definição simplificada de Nação:

Comunidade de homens aparentados que partilham de uma mesma história, língua e cultura. Essa comunidade de homens investe a sua realização plena através da autodeterminação política e da construção de um Estado Nacional cuja função primeira é a salvaguarda do bem comum. Por outras palavras, a Nação é uma unidade etno-cultural, impulsionada por uma vontade política que resulta, geralmente, num destino histórico comum.

Se aceitarmos como válida esta definição, então a Europa não pode ser uma Nação. Quantas vezes os destinos históricos das nações europeias impuseram caminhos divergentes e até conflituantes…

A Europa é algo distinto de uma Nação. A Europa é uma civilização! Para alguns, a civilização europeia tem a sua raiz mais profunda na remota herança indo-europeia. Para outros, ela nasce com o mundo céltico-germano. Para outros, emana directamente da tradição Greco-romana. E, para outros ainda, ela apenas toma consciência de si própria durante a Idade Média. A Civilização europeia é, afinal, o resultado de uma construção, fruto de uma longa maturação no tempo, e define-se pelo conjunto de características espirituais e materiais partilhadas pelos povos diversos que a compõem.

O que nos interessa aqui reter é que a Civilização europeia não pode nem deve ser confundida ou reduzida ao estatuto de Nação. Chamar Nação à Europa é um erro que equivale a chamar Reino a um Império.

Ora, se não existe uma Nação Europa, parece-me lógico que não possa existir algo como o Nacionalismo Europeu. O que pode existir é, isso sim, o Pan-europeísmo – termo mais correcto para designar aquilo que seria uma espécie de Nacionalismo ao nível Europeu. Haverá Pan-europeísmo quando a Europa se transformar num Estado verdadeiramente federal, a cargo de uma organização central incumbida do governo de todos ou da maioria dos povos europeus.

Mas pode existir também Nacionalismo na Europa, sendo isso a soma dos nacionalismos correspondentes a cada uma das nações europeias. Haverá nacionalismo na Europa quando as Nações forem dirigidas por governantes nacionalistas.

Chegados ao fim desta equação, temos como produto dois modelos distintos, mas igualmente legítimos – pelo menos no plano académico –, e que são: (1) a Europa das Nações e (2) o Império Europa. A Europa das Nações seria uma aliança civilizacional de Nações, cujos povos se mantêm soberanos no essencial das suas questões internas, mas que são capazes de acordar num conjunto de matérias vitais para a defesa do espaço civilizacional. Já um Império Europa seria a definitiva unificação política das nações em torno de uma estrutura central, normalizadora e castradora das idiossincrasias nacionais, com um governo único que responderia pelos 400 ou 500 milhões de europeus.

Quem me conhece sabe que me defino como nacionalista português, logo, partidário do modelo da Europa das Nações. Há quem diga que este modelo de Europa é pouco ambicioso e que, por isso, não seria capaz de dar resposta às exigências da geopolítica actual e futura. A questão é que a Europa das nações é a única opção realista…

Os conceitos de Nação e Civilização são, felizmente, simultâneos e não antinómicos, pois remetem para diferentes escalas de análise. Isto possibilita que vários governos nacionalistas possam, a uma escala continental, e sem abdicar de um grau razoável de autonomia, coordenar políticas e opções estratégicas com vista ao bem comum da civilização de que todos eles são parte constituinte!

Mas, afinal, uma Europa de Nações soberanas pode ou não responder ao grande desafio do presente, designadamente: a invasão demográfica, económica e cultural que sofremos? Sim, se as nações aplicarem o velho princípio da solidariedade de civilização, que tão bem funcionou nos áureos tempos da Reconquista e da resistência ao Império Otomano.

Com efeito, estamos todos cada vez mais conscientes que, na actualidade, uma nação isolada não pode assegurar a sua sobrevivência ou proteger-se dos perigos externos. Esta consciência comum de vulnerabilidade obrigará os futuros Estados Nacionalistas ao acordo em torno das grandes questões de geopolítica e geo-estratégia. E daí deverá resultar uma aliança europeia de Nações. Essa aliança deverá ser forjada não sob os princípios dogmáticos do capitalismo liberal, mas sim sob o cimento da nossa ancestralidade, identidade e valores tradicionais comuns.

O conhecimento que tenho travado com nacionalistas por essa Europa fora permite-me acreditar que, numa Europa de Nações Livres com Estados Nacionalistas, os laços de civilização serão largamente reforçados. Entre muitas outras coisas, esse reforço civilizacional deverá passar, a meu ver, pelo seguinte:

- Política comum de fronteiras que ponha termo à invasão do território europeu;

- Impedimento de qualquer ingresso não Europeu na Aliança de Nações;

- Exército estritamente europeu que substitua a OTAN e que sirva os interesses da Europa, e não os da América;

- Autonomização da Europa relativamente à influência norte-americana;

- Convergência cada vez maior com a Rússia, no sentido de a reaproximar do nossa esfera civilizacional;

- Oposição em bloco às influências culturais do exterior, em especial daquelas provenientes da Ásia e de África;

- Construção de uma auto-suficiência e sustentabilidade alimentar e energética;

- Criação de sinergias ao nível científico e tecnológico;

- Recuperação conjunta do património e dos valores históricos, naturais, espirituais e folclóricos mais profundos da Europa, com o respeito e a valorização das especificidades nacionais;

- Compromisso genuíno ao nível da protecção ambiental;

- Solidariedade entre as nações em caso de catástrofes e tragédias.

Enquanto não realizarmos a Europa das Nações aqui preconizada, teremos ainda que passar por sérias circunstâncias que colocarão em risco a própria sobrevivência das nações e da civilização europeia.

O que tem ocorrido em França, e já um pouco por toda a Europa, nas últimas semanas é apenas uma amostra do que vai acontecer num futuro muito próximo, e revela que, com efeito, os problemas da Europa já não têm fronteiras. A invasão é a invasão da Europa como um todo, e não a do país A ou B.

Infelizmente, ao contrário do que seria espectável, a revolta étnica que está a alastrar por toda a Europa vai alimentar ainda mais a imposição institucional e Estatal do multiculturalismo, do politicamente correcto e, inclusive, da repressão àqueles que põem em causa todo o actual sistema de valores fabricados pela esquerda ideológica. A lavagem cerebral, ou melhor dizendo, o emporcalhamento cerebral com o lixo igualitário e relativista vai-se intensificar. Preparemo-nos também para um maior controlo da opinião, supressão e silenciamento das vozes dissidentes.

Por ouro lado, a invasão física do território não vai ser estancada. A Europa vê-se incapaz de controlar a ânsia invasora dos povos do Terceiro Mundo, nomeadamente dos africanos. E, finalmente, os jovens imigrantes revoltados deixar-se-ão instrumentalizar pela força mobilizadora do Islamismo assim que se aperceberem que esta sua revolta de 2005 não resultou em ganhos sociais concretos. O Islamismo vai fornecer a ponta da flecha à revolta agora dispersa e difusa. Vai dar um sentido, uma vocação e um objectivo concreto àquilo que agora é ainda anárquico e despropositado. Nessa altura haverá uma verdadeira guerra de civilizações e de povos! Ernesto Milà, num recente artigo, prevê que isto possa acontecer até 2010 [1].

Perante a ocorrência de tais acontecimentos, acaso pensais que os governos europeus mandarão os seus exércitos pagos com os nossos impostos para nos defender? Jamais! Se por altura dessa guerra não tivermos chegado ao poder, terão que ser os genuínos povos da Europa a defender-se com os meios disponíveis…

Desafortunadamente, o cenário que vivemos é em tudo idêntico ao relatado no livro escrito há mais de 30 anos por Jean Raspail: Mortos: 200 milhões – Todos nós. O povo caminha alegremente para o suicídio. Em boa verdade, mais do que os governos anti-nacionais que estão no poder, o que me preocupa objectivamente é essa apatia desconcertante dos povos europeus face ao assalto, à usurpação e à profanação dos seus próprios lares nacionais e civilizacional!

Ao contrário do que nos tentam fazer crer, o nacionalismo não surgiu no séc. XVIII. De uma forma genérica, o nacionalismo é algo que é congénito ao Homem. Mesmo quando não havia ainda nações, havia já o tribalismo, que era uma espécie de nacionalismo em estado bruto. O nacionalismo é uma atitude humana natural de proteger aquilo que é igual ou identificável consigo. Portanto, o nacionalismo tem, na base, o sentimento da identidade comum, identidade essa definida de acordo com critérios essencialmente etno-culturais. O nacionalismo é como que a defesa da “família alargada”. Por isso, antes de ser uma construção ideológica, essa sim surgida na Era Moderna, o nacionalismo é algo inato e estrutural em qualquer sociedade organizada que deseje cumprir um “destino comum”. E esse destino comum corresponde à preservação identitária face aos eventuais perigos externos que possam impor uma diluição etno-cultural.

Ora, se o nacionalismo desapareceu completamente do instinto do Homem Europeu, nada há a fazer. Mas creio firmemente que esse instinto nacionalista não foi ainda totalmente extirpado da generalidade das pessoas, muito apesar das campanhas incríveis que há mais de dois séculos têm sido empreendidas para o eliminar…

Nesse sentido, a luta dos nacionalistas deverá passar progressivamente do plano eleitoralista para o plano de fundo, isto é, para o plano da revolução das mentalidades, para a revolução cultural e para o despertar da consciência de Identidade que reside adormecida em cada elemento do povo. Se sucedermos em despertar nos povos europeus a sua essência adormecida, então a Civilização Europa estará a salvo.

A ressuscitada Europa das Nações será, então, a Europa da Liberdade! A Europa do reflorescimento da nossa Identidade. A Europa das grandes obras e dos grandes feitos. A Europa dos grandes génios, quer das artes quer das ciências. A Europa da beleza estética e das coisas boas e harmoniosas!

Todo o relativismo histórico e cultural que nos tem fragilizado será esmagado e o sentimento de culpa que nos tem feito prisioneiros da moralidade maçónica será extirpado. Seremos briosos da nossa grandiosa civilização. Honraremos altivamente o nosso panteão e daremos ao Mundo e à História novos Heróis. Libertaremos o potencial do nosso sangue e da nossa alma, e seremos novamente a Europa do triunfo!

Viva Portugal!

Viva a Europa!

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Notas:

1. «De las revueltas étnicas a la guerra étnica que vendrá», http://infokrisis.blogia.com, 13/11/2005.

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