Convivência islamico-cristã no Líbano

Por Padre Patrice Laroche

Repetidas vezes, tem o Papa João Paulo II apresentado o Líbano como modelo de convivência entre as comunidades Cristã e muçulmana, modelo que seria absolutamente necessário preservar. Uma rápida mirada histórica a esta convivência bastará para mostrar os seus limites e a sua precariedade.

Digamo-lo desde já, o Líbano Cristão deduz a sua origem das perseguições muçulmanas. Para fugir aos invasores muçulmanos que ocupam a Síria desde os anos 634-636, a comunidade maronita que vivia em redor do Convento de Santo Maron, na Síria do Norte, começa a emigrar para as montanhas do Líbano, que lhes oferece um refúgio natural. Ali, organiza-se em relativa autonomia sob a autoridade do seu patriarca e a direcção de uma aristocracia rural transformada, pela força das coisas, em aristocracia militar de chefes (emires ou cheques), que combatem à testa dos seus camponeses.

No fim do século XI produz-se um acontecimento que terá no Líbano uma repercussão considerável: as Cruzadas. Os maronitas acolhem os cruzados como irmãos de fé, servem-lhes de guias e combatem com eles. Esta identidade de fé leva-os, em boa hora, a frequentar as igrejas latinas e a celebrar nos altares e com os ornamentos do clero do Ocidente.

Os cruzados abrem novamente aos Cristãos do Oriente o caminho de Roma, fechado durante a dominação árabe que tornava impossível a comunicação com o Ocidente e a Santa Sé. Desde então, os patriarcas maronitas pedem regularmente ao Papa a confirmação da sua eleição e introduzem vários usos da Igreja Latina, como o de toque dos sinos. A época das Cruzadas produz, na Igreja maronita, uma verdadeira renascença no plano artístico e cultural, e São Luís passa dez anos (1244-1254) na Palestina e no Líbano, cuja região sul, até ao norte de Beirute, faz parte do Reino Latino de Jerusalém.

Os mamelucos

A perda dos principados latinos, concluída definitivamente com a quede de São João d’Acre (1291), leva à partida dos francos, mas também a uma forte emigração maronita para as ilhas de Chipre e de Rodes, a fim de escapar às vinganças e sevícias dos vencedores, os mamelucos egípcios.

Sob o seu domínio, o Líbano é novamente separado do Ocidente. Os novos senhores, obcecados pela silhueta dos navios francos que não cessam de cruzar à vista da costa. Temem um novo ataque dos latinos e vigiam, com olho ciumento, as relações dos seus súbditos Cristãos com os países estrangeiros. Toda a tentativa de aproximação com os antigos senhores da Síria pode ser interpretado como uma conspiração contra a segurança do Estado.

Todavia, a reorganização do Líbano realizada pelos mamelucos concede aos maronitas, agrupados ao norte do Líbano, uma certa autonomia. Mas esta não os coloca ao abrigo de perseguições intermitentes. Uma delas força o patriarca a abandonar a sua residência do Convento de Maifuque, para se refugiar no Mosteiro de Canobã, nas gargantas do Vale Santo. «É ali que os chefes da Igreja maronita viveram, durante mais de dois séculos, continuando a manter, à sombra do seu claustro, a chama da fé e a lembrança dos francos, seus irmãos do Ocidente» – escreve Mons. Dib, bispo maronita do Cairo.

Sob o pontificado do Papa Eugénio IV (século XV), muito interessado nos Cristãos orientais, retomam-se os contactos com os maronitas por intermédio dos franciscanos, enviados à Síria como missionários, e tolerados pelos mamelucos, que sabem que o perigo franco havia passado. Dentro em pouco, alguns jovens maronitas entram na Ordem Franciscana e são enviados a Veneza ou Roma, para ali completarem os seus estudos.

Período otomano

Em 1516, os otomanos conquistam a Síria. O Padre Lammens, especialista do Líbano, diz que esse período, que durou até 1914, pode resumir-se assim: anarquia administrativa, intrigas em série, vexações e matanças. Os maronitas gozam de uma certa autonomia graças à sua aliança com os emires druzos, aos quais os turcos confiaram a administração do Monte Líbano. Estes são favoráveis aos Cristãos, e os últimos deles, os emires Chehab, convertem-se ao Cristianismo.

Mas, em 1840, o sultão de Constantinopla põe termo a esta autonomia do Líbano e aviva a oposição entre druzos e Cristãos, o que resulta nos massacres de 1860 no Chufe (região de maioria druza, mas onde vive uma forte minoria Cristã): 8.000 pessoas degoladas no espaço de 3 semanas! Napoleão III decide então a intervenção da França, que outorga ao Líbano um novo estatuto procurando um regime de concórdia entre os diversos elementos da população.

A relativa autonomia do Líbano no seio do império otomano, e o estatuto especial que a seguir lhe foi dado fez com que o Líbano se tornasse, no decorrer dos tempos, refúgio de comunidades Cristãs minoritárias perseguidas nos seus países: assírios e caldeus, melequitas, siríacos Católicos e ortodoxos vindos da Síria, do Iraque e da Turquia, e arménios fugidos do genocídio do princípio do século XX, todos encontraram no Líbano um país de acolhimento, em que as suas comunidades se reconstituíram e foram juridicamente reconhecidas.

Mandato francês e independência

No início da Primeira Guerra Mundial, a Turquia coloca-se ao lado da Alemanha e anula a Carta do Líbano. Conhecendo as simpatias dos Cristãos libaneses pela França, o Paxá Djemal, à cabeça do Quarto Exército turco, que devia assegurar a conquista do Egipto, decidiu submeter o Líbano. Quatro anos de repressão e de fome organizada provocaram a morte no Líbano, segundo estimativas da Cruz Vermelha, de duzentas mil pessoas entre 1915 e 1918. Mas a vitória traz a França ao Líbano.

Enquanto os árabes, conduzidos por Faisal, filho do xerife de Meca, ao qual os ingleses fizeram promessas, queriam englobar o Líbano num vasto império árabe, em que os Cristãos perderiam a sua identidade, sucediam-se em Paris as delegações libanesas.

Em Julho de 1920, Georges Clemenceau, o radical Presidente do Conselho, aceita receber o patriarca Hoyek, chefe da Igreja maronita, e a sua delegação de bispos. Apenas anulou a sessão de fotografias. No longo memorando que lhe entregou o patriarca, leu estas palavras: «O Líbano merece ser hoje um Estado soberano, contudo, e mantendo os seus direitos a essa soberania, o Líbano inclina-se tanto mais voluntariamente quanto na dupla crise política e económica que o mundo atravessa tem necessidade do concurso e da ajuda de uma grande potência Ocidental. Essa potência já o Líbano escolheu com entusiasmo. É a França.»

Em 1 de Setembro de 1920, o General Gouraud proclama o Grande Líbano, constituído para se tornar a República Libanesa. «Sob os auspícios da França, potência mandatária, os libaneses unidos num mútuo sentimento de concórdia nacional, sem distinção de raça ou de religião, poderão trabalhar livremente para a prosperidade do país», escreve em 1927 Mons. Dib. Mas a política francesa não satisfaz os nacionalistas libaneses, que reclamam a rápida adopção da independência total.

Em 1943, a França está enfraquecida pela ocupação, e os ingleses, militarmente presentes no Líbano, estão prontos a apoiar qualquer fórmula conducente à independência. Para atingir o seu fim, os nacionalistas usam a velha rivalidade franco-britânica. Béchara El Khoury, primeiro Presidente da República do Líbano independente, tenta a fórmula do Líbano de rosto árabe: os muçulmanos renunciam a reclamar a fusão com os outros países árabes e os Cristãos renunciam aos apelos ao Ocidente. O futuro ia testar a solidez deste pacto nacional.

A guerra do Líbano (1975-1991)

A fundação do Estado de Israel leva ao exílio numerosos palestinos, em grande maioria muçulmanos, que procuram refúgio no Líbano, onde são acolhidos fraternalmente. Mas em breve constituem um Estado dentro do Estado e se consideram como o braço armado do Islão.

A tensão sobe entre palestinos e libaneses, e um tiroteio que estala diante da igreja de Ain-el-Remané, bairro de Beirute, em Abril de 1975, será o detonador de uma guerra civil que durará dezasseis anos. Béchir Gemael escreverá: «Fomos atacados como Cristãos e defendemo-nos como libaneses.» Não pode ser dita a mesma coisa dos muçulmanos que se alistam nas milícias muçulmanas, não para defender o seu país invadido pela Síria, mas para combater como membros da Oumma – a comunidade muçulmana – contra os judeus ou os Cristãos, a fim de os submeter à lei do Islão.

Após dez anos de guerra formou-se um reduto Cristão, onde a autoridade do Estado é reconhecida, mas que está em grande parte militarmente controlado pela Milícia Cristã das Forças Libanesas, enquanto o Sul do país está ocupado pelo exército israelita, o Norte, o Leste e Beirute Oeste pelo exército sírio e milícias muçulmana, xiita, sunita e druza.

No seguimento da guerra de libertação travada pelo General Aoun, os Cristãos vão para a mesa de negociações enfraquecidos e divididos politicamente. Os acordos de Taef espoliam-nos das garantias que lhes tinham sido outorgadas: o Presidente da República continua a ser um Cristão maronita, mas as suas prerrogativas são diminuídas em proveito do Primeiro-Ministro sunita, e a Câmara conta, a partir dessa data, número igual de deputados Cristãos e muçulmanos, tendo-se estes últimos tornado maioritários no país.

Desde então, a Síria mantém a sua autoridade política sobre o Líbano, e o Primeiro-Ministro, que também tem a nacionalidade saudita, favorece a islamização do país. Não podendo islamizar a população Cristã, procura-se islamizar a terra. Assim, árabes ricos vindos dos países do golfo constroem palácios na região Cristã e constroem ali uma mesquita, da qual não se ouvirá, para começar, a canto do muezim.

Mas quem conhece o Islão sabe que ninguém se pode fiar nas promessas dos muçulmanos, os quais, persuadidos pelo Corão, de que são a “melhor comunidade”, aspiram à dominação política, que entre eles se confunde com a dominação religiosa. Igualmente, perante a crise económica que persiste e a insegurança política, muitos Cristãos são tentados a abandonar o Líbano. Outros tentam reorganizar-se para resistir politicamente e culturalmente, a fim de que o seu país conserve a identidade de terra Cristã no mundo árabe. É neste contexto que, há já vinte anos, padres da Fraternidade se dirigem anualmente ao Líbano, a fim de ajudar os Cristãos a manter a coragem que os fez resistir, durante catorze séculos, num ambiente muçulmano. Valha-nos Deus! Também ali começam a ensinar, nos seminários e universidades Católicas, o ecumenismo e o diálogo das religiões. Como escreve do Líbano um estudante de teologia (carta de 7 de Janeiro de 2005): «“Roma” está, por vezes, pronta a não ser já fiel à Cristandade e aos Cristãos, para melhor poder aproximar-se dos muçulmanos.»

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