A barbárie em Berlim

Por Igor Fuser

Dia 30 de abril de 1945. No topo do Reichstag, o Parlamento alemão, um soldado agita a bandeira da União Soviética sobre Berlim em ruínas. Uma década após o fim do regime comunista, essa foto ainda é motivo de orgulho para os russos, símbolo de sua vitória sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial. Em um livro recém-publicado, o historiador inglês Antony Beevor traz à tona imagens bem menos heróicas do avanço final do Exército Vermelho. Elaborado com base em quatro anos de pesquisas nos arquivos soviéticos antes inacessíveis e em entrevistas com mais de 50 sobreviventes, russos e alemães, Berlin: The Downfall, 1945 (Berlim: A Queda, 1945) descreve as atrocidades cometidas pelas tropas vencedoras contra civis indefesos no país derrotado, principalmente contra as mulheres, vítimas de violência sexual numa escala nunca vista nos tempos modernos. De acordo com as estimativas de dois hospitais da cidade, citadas por Beevor, entre 95 mil e 130 mil mulheres foram estupradas pelos russos em Berlim – muitas delas várias vezes seguidas, por grupos que chegavam a mais de dez soldados.

O sexo forçado com as mulheres dos inimigos vencidos figura na história de todas as guerras, desde a Antiguidade, como parte do butim dos conquistadores. Na ocupação da Alemanha pelas forças soviéticas, essa prática – agora se sabe – atingiu dimensões de pura selvageria. “Nossos soldados violaram todas as alemães que acharam em seu caminho, dos 8 aos 80 anos”, relatou a jornalista russa aposentada Natalya Gesse, que acompanhou a ofensiva como correspondente de guerra. “Eram um exército de estupradores.” Berlinenses idosos, entrevistados pelo autor, ainda se lembram dos gritos das vítimas noite adentro. Era impossível não ouvi-los, pois todas as janelas da cidade estavam quebradas. Num convento nos arredores de Berlim, a fúria sexual dos soldados não poupou ninguém. Foram violentadas freiras, meninas pequenas, mulheres grávidas e até mesmo mães que tinham acabado de dar à luz. Igual destino tiveram as russas, judias e polonesas libertadas do trabalho escravo na Alemanha nazista. Beevor deixa claro que nem todas as unidades soviéticas participaram dos abusos. Houve tentativas de manter a disciplina, como a de um general que matou um tenente ao vê-lo organizar uma fila de soldados para se servirem de uma alemã deitada no chão. Mas, como regra geral, a barbárie correu solta, estimulada pelo álcool e pelo desejo de vingar os horrores praticados pelos nazistas na URSS, onde deixaram mais de 20 milhões de mortos. As notícias da orgia de estupros na Alemanha ocupada chegaram até o ditador Josef Stalin, que preferiu se omitir. “O Exército Vermelho convenceu a si mesmo de que, por ter assumido a missão moral de libertar a Europa do fascismo, poderia fazer tudo o que quisesse, tanto no campo político quanto no pessoal”, analisa o autor.

Duas semanas após o lançamento, o livro de Beevor já atingiu o primeiro lugar na lista dos mais vendidos na Inglaterra, repetindo o sucesso de sua obra anterior, de 1998 – um relato sobre a batalha de Stalingrado apontado por especialistas como o melhor trabalho sobre o assunto. Para não ser acusado de sensacionalismo, o historiador excluiu do texto os detalhes mais chocantes, deixando-os para seu site na internet (www.antonybeevor.com). Mas a denúncia dos crimes soviéticos é só uma faceta do livro, que também revela episódios inéditos da derrocada nazista. Em meados de abril de 1945, por exemplo, a Orquestra Filarmônica de Berlim deu o último concerto durante a guerra: O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner. À saída, militantes da Juventude Hitlerista distribuíam cápsulas de cianido – um veneno fulminante – para quem preferisse a morte a encarar o apocalipse iminente. Muitos, se soubessem o que os esperava, teriam aceitado a oferta.

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