Nova Direita – Os nós da questão

Por José Valle de Figueiredo

"Nova Direita" é uma designação inventada pela esquerda francesa. Mas que foi aceite, ao menos como bandeira provocadora. A realidade das ideias é mais complexa e deve ser situada com mais rigor.

Se me perguntassem sobre o que entendia como Nova Direita, diria muito simplesmente – e não há como ousar definições para a gente entender-se de uma vez para sempre – que poderemos defini-la como a Direita que avançando para um diálogo com a Ciência e incorporando novas áreas de preocupação, veio a confirmar cientificamente noções que já eram património da Direita tout-court. Ou seja: a "Nova Direita" trouxe à Direita a confirmação científica das suas principais noções. Pela atenção dada aos novos ramos de investigação, os autores que se reclamam da Nova Direita vêm dizer à Direita que as novas descobertas da Ciência confirmam os seus princípios fundamentais e que não há nada a temer – antes pelo contrário – do que se vai descobrindo no campo científico.

As noções de território, hierarquia, pessimismo sobre a natureza humana, desigualdade, totalidade, unidade orgânica, ganharam nova confirmação através dos trabalhos desenvolvidos pelas Ciências que se situam na vanguarda da investigação, desde a Etologia e a Genética das Populações, à Física Teórica e à Teoria Geral dos Sistemas.

"Diálogo com a Ciência" não quer dizer "cientismo" e é importante distinguir-se para poder responder a algumas observações que justificadamente se têm feito e a que não se tem dado a resposta pertinente.

Não se trata de culto da Ciência pela Ciência pois, a ser assim, cairíamos num reducionismo e num relativismo que levariam a erigir a descoberta de cada momento na verdade absoluta, passível, também a todo o instante, de ser revogada. Dar-se-ia o caso de haver descobertas que hoje postulam ou confirmam princípios da Direita, e amanhã logo as impugnam, porque novos dados contestariam o que hoje se tinha como certo e irrefutável.

Trata-se, tão só – ao contrário do que tem sido comum às teorias políticas tanto da esquerda como da direita – de dar atenção ao universo científico, recolhendo – por parte da Direita – a decantação que se vai fazendo e registando dos eixos fundamentais da investigação que se processa.

É sabido – ou deveria sê-lo – como a Mecânica Analítica, teorizada no século XVIII, repercutiu em todo o pensamento que se lhe seguiu, da Ciência à Política, e como a noção de substância fundou todo o conhecimento posterior. Postas em causa uma e outra, surgida a noção de campo, implementada desde a Teoria do Campo Electromagnético até à do Campo Unificado, que a Física Teórica mais avançada desenvolve, é lógico que a sua repercussão nos vários ramos do Saber terá de se sentir. E isto é verdade para uma série de outras noções que o património científico vai adquirindo e que também inevitavelmente acarretará sequências no plano doutrinário.

Divulgar e sintetizar

Quando Konrad Lorenz formulou os princípios fundamentais da Etologia partiu da recolha prévia de dados fornecidos por variados investigadores que trabalhavam, cada um, no seu campo particular de pesquisa. Um dedicava-se ao estudo dos macacos lémures. Outro a certa espécie de pássaro, aquele mais além virava-se para o estudo dos gorilas no Jardim Zoológico de Londres, e por aí adiante. A difusão destes conhecimentos, a sua divulgação feita por Lorenz, levou a criar-se uma corrente muito forte de interesse pela investigação do comportamento animal, de que nasceria uma nova síntese, pois a divulgação feita por Lorenz eclodiria necessariamente num novo enquadramento uma vez que a perspectiva com que esses trabalhos eram apresentados eram só uma e a mesma.

Como se sabe, não há divulgação atomística; há sempre uma ordenação prévia que acaba por hierarquizar os dados fornecidos dando-lhes, mais tarde ou mais cedo, nova animação.

Foi exactamente isto que sucedeu com os trabalhos de Alain de Benoist e é desde esta perspectiva que tem de ser analisada a sua "Antologia das Ideias Contemporâneas", vista desde o ponto de vista da Direita. Não quero dizer com isto que desses trabalhos saia toda uma nova ciência ou uma nova filosofia; o que eu quero dizer é que está subjacente uma visão e uma ordenação que permitem estabelecer o trânsito da simples divulgação para a teoria, para o pensamento, que vem integrar novos dados num fundo que é permanente.

É neste plano que deve ser analisada a sua obra, e não noutro. E é neste plano que a minha geração lhe deve um serviço inestimável, eliminando certos preconceitos e evitando que caíssemos na perniciosa e tradicional alergia da Direita à Ciência, provando, pelo contrário, que nada temos a ver com o campo arqueológico vastíssimo que ainda é o pensamento político institucionalizado e vigente.

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