Quem tem medo da democracia?

Por Rodrigo Nunes (Fonte: Batalha Final)

A democracia não é em si uma ideologia; é um processo, uma estrutura que deveria permitir a convivência das diversas correntes ideológicas, das diferentes visões do mundo, e permitir aos cidadãos decidir sobre um sistema de governo ou uma concepção política. Na sua base, na sua justificação, está a possibilidade de todos intervirem no destino colectivo da nação com liberdade de escolha. Sem essa possibilidade a democracia é um processo sem fundamentação, é a sua própria negação. Independentemente das discussões sobre a bondade da democracia ou do melhor ou pior funcionamento de democracias representativas ou directas, esta, generalizadamente, radica a sua existência na faculdade de todos os cidadãos poderem influir sobre o destino da colectividade. Mas não só, também está subjacente à sua teoria funcional a liberdade de pensamento e expressão, são estas características que pretensamente a distinguem de outros sistemas organizacionais.

No entanto, o que verdadeiramente aqui importa é que a democracia, que deveria ser um quadro funcional que permitisse a existência de conteúdos ideológicos distintos, um sistema funcional neutro perante as opções políticas, foi manietada ou transformada em algo que já não sustenta os seus propósitos originais. Por um lado porque deixou de representar um processo de decisão sobre princípios políticos para se transfigurar em algo que, usando o mesmo nome, é apenas um meio de eternização e suporte do poder dominante, que se define por uma visão materialista, técnica e económica da sociedade; por outro lado não há hoje real possibilidade do cidadão mudar o que seja; o poder verdadeiro há muito saiu da esfera do mundo considerado político para o mundo financeiro e as forças capazes de se oporem a isto foram silenciadas.

O processo que enviesou a democracia desde o início foi, e continua a ser, o controlo da informação, que é aliás cada vez mais feroz. A informação é o cerne do problema. Para que uma democracia verdadeira pudesse existir teria necessariamente de existir conjuntamente uma opinião pública livre, só assim seria possível uma real participação dos cidadãos no exercício do poder. Uma opinião pública livre só pode ser formada com verdadeira liberdade de pensamento e isto implica uma pluralidade informativa. Para que a consciência política dos indivíduos possa ser formada estes devem poder ter acesso a todas as correntes de pensamento, a todos os conteúdos ideológicos, devem poder analisar os acontecimentos dispondo de uma miríade de visões, conhecer todos os lados das questões históricas e presentes. Não é isso que sucede, a informação está controlada, está controlada nas universidades (onde não se estimula a capacidade de pensar mas antes se impingem verdades fabricadas), está controlada nos meios editoriais (com livros que estão banidos de edição) e sobretudo está controlada nos órgãos de comunicação social, com especial destaque, pelo seu impacto, para as televisões.

Isto é de uma importância extrema, é o ponto fulcral da deturpação democrática. Numa época em que os média assumem um papel central, porque chegam a todo o lado, e onde a televisão tem particular peso na vida do cidadão comum (vivemos a era da imagem, do audiovisual) a exclusão de determinadas opiniões ou correntes ideológicas dos órgãos de comunicação social de maior disseminação, ou ditos de referência, significa a sua morte efectiva e constitui um condicionamento decisivo na formação da consciência cívica e política dos homens, que por isso mesmo dificilmente se podem considerar livres na decisão. Não se formam gerações com capacidade de raciocínio crítico mas antes criam-se gerações de condicionados ou alienados, que ou tomam o actual sistema como o único possível (também porque não conhecem outros ou nem se interessam por conhecer) ou acham que a rebelião contra o estado das coisas se encontra na verborreia e comportamento circense de certa esquerda de inspiração marxista.

Tomando a realidade portuguesa como exemplo e olhando para os jornais e para os debates televisivos, encontramo-los lá a todos, os “moderados” da esquerda liberal à direita liberal (juntamente com os seus derivados de menor expressão), os estalinistas e os trotskistas; e aqui cabe fazer uma distinção, porque a estes grupos correspondem papéis diferentes no sistema vigente. Os liberais, afirmem-se de esquerda ou de direita, são os verdadeiros propagadores do regime, são eles quem faz a verdadeira defesa do actual modelo de sociedade e garantem a manutenção dos interesses dominantes na actualidade; aos marxistas, com especial destaque para os trotskistas, cabe fazerem o papel de rebeldes contestatários, dando assim a ideia de debate e variedade ideológica. Sucede que estes rebeldes, que se pretendem “politicamente incorrectos”, não são nem rebeldes nem têm causa, ou melhor, serão rebeldes das más causas. Não é por acaso que esta gente escreve em todos os jornais e aparece em todos os debates, eles servem um propósito bem definido, têm a sua utilidade e não causam dano algum ao poder estabelecido.

Primeiro não partem de uma concepção da sociedade e do homem verdadeiramente diferente da traduzida pela burguesia liberal; também eles têm no centro do seu pensamento uma visão marcadamente economicista e materialista do homem, o indivíduo é encarado sobretudo em função do seu papel produtivo, da sua posição social, a luta de classes é a constante no seu pensamento e o objectivo é a substituição do papel dominante da burguesia pelo proletariado numa primeira fase, passando a um estádio sem Estado em última fase (estádio que obviamente nunca chega). A forma como o marxismo pretende demolir a ordem social pré estabelecida, indicando minuciosamente a necessidade e os processos de destruição do passado, tem a sua mais fiel transposição para a nossa realidade na esquerda trotskista, é sobretudo essa que faz sistematicamente a defesa de tudo o que é mais doentio, de tudo o que é destrutivo e desagregador, o ataque a tudo o que dá ao homem um sentido de identidade. É por isso daí que vêm os ataques constantes à nação, ao orgulho patriótico, à família tradicional, à religião, à propriedade, à moral… é esse o seu objectivo último, a destruição de todos os laços que dão ao homem um sentido de pertença, de herança histórica, só assim, pela destruição e pela vileza, pela redução da sociedade e do homem a escombros se pode realizar a “revolução”, não uma revolução autêntica, espiritual e moral, mas a imposição de uma nova ordem material, com um homem despojado de qualquer sentido de identidade, de força interior, pronto a servir a burocracia omnipresente e desumana do marxismo, nivelando o homem pela mediocridade em nome da abolição das classes sociais.

Ora isto serve na perfeição o poder, aquele que é representado pelas forças do chamado "centrão", que não podendo ser ideológico, porque necessariamente pragmático, maleável e economicista, consegue com a presença desta extrema-esquerda passar a ideia de pluralidade, oposição de pensamento e consegue ainda perante aquela o prémio do bom-senso. Mas esta é uma pluralidade perfeitamente controlada por duas simples razões: Primeiramente o marxismo - na generalidade - não tem qualquer capacidade de se impor a partir do momento em que as sociedades possuem uma classe média maioritária e isto é um fenómeno historicamente estudado, assim, basta existir um nível mínimo de rendimento assegurado à população para deitar por terra qualquer possibilidade realista de fazer triunfar uma revolução do proletariado (que por implicação deixa de ser uma maioria ou sequer de se considerar como classe proletária); em segundo lugar, o caso particular dos trotskistas não representa qualquer projecto; a força de voto daquela gente está concentrada em causas desconexas, apoiadas por pequenos grupelhos marginais da sociedade ou em criaturas imberbes que acham piada e sentem empatia pelo tipo de "política-espectáculo", ao estilo mata-esfola, dos trotskistas.

Obviamente, sendo todas estas ideologias marcadas pelo determinismo económico, a comparação é claramente favorável às forças liberais, que asseguram um nível de riqueza e bem-estar social superior e que, apesar de tudo, garantem uma maior liberdade e um sentido de dignidade humana inexistentes no marxismo, cuja doutrina, assente na dialéctica da luta de classes e na destruição da ordem estabelecida, não só não oferece quaisquer soluções válidas para a reconstrução de uma sociedade que pretende derrubar, como está intrinsecamente dependente das desventuras causadas pelo sistema que pretende combater. Dir-se-ia que o marxismo não faz sentido nem pode existir sem o capitalismo, pois a sua função é a destruição do primeiro e necessita por isso de partir da mesma concepção de “homo-economicus”, fazem por isso parte de um mesmo espaço.

Olhando para os “média”, facilmente constatamos a presença de todas as correntes de opinião que vão da extrema-esquerda à direita liberal. Os liberais, moderados, ou centristas (mais para a esquerda ou para a direita) chamem-lhes o que quiserem, porque são os detentores e fiel representação do poder vigorante, e os da extrema-esquerda são tolerados pelas razões anteriormente descritas e pelo espaço que foram conquistando e sedimentando em alguns círculos culturais. Mas não estamos em presença de uma verdadeira pluralidade opinativa, não só porque as ideias políticas com acesso à informação assentam em pressupostos comuns, mas porque essa pluralidade de informação, que seria o pilar de uma verdadeira democracia, não permite a livre divulgação dos ideais nacionalistas, únicas correntes excluídas e silenciadas pelos “média”. Apenas o discurso nacionalista é calado, apenas os movimentos nacionalistas são difamados constantemente, são os autores nacionalistas que são marginalizados, que são impedidos de escrever nos jornais de grande tiragem (não vale sequer a pena referenciar o caso do “Le Monde”, já que o fenómeno é generalizado), na realidade é o nacionalismo a única força política sem acesso permitido ao grande público, o que obviamente constitui uma desvirtuação das regras do jogo democrático. A relação é simples e inequívoca, sem acesso à divulgação não faz qualquer sentido falar em democracia com honestidade e isso é cada vez mais notório num mundo crescentemente mediatizado.

Porque será que só ao nacionalismo é vedado o direito à exposição livre das suas ideias? A resposta encontra-se na natureza do próprio nacionalismo; ao contrário do que sucede com as outras linhas de pensamento, o nacionalismo não parte de uma racionalização ideológica prévia, antes disso existe já no homem a consciência e o sentimento de pertença à nação, uma ligação natural e saudável à história, à comunidade e à tradição, e é daí que emana a sua energia, é antes de ser ideologia uma forma de sentir a vida, uma forma de olhar o mundo, uma força espiritual que transcende a posição do homem na sociedade ou no mercado, situa-se para além da oposição mecanicista entre marxismo e capitalismo, está num outro plano; e o poder que manietou a democracia tem plena consciência disto, sabe por isso que com as mesmas armas, o mesmo acesso à informação, com a completa liberdade de expressão, o poder apelativo do nacionalismo seria um adversário difícil de abater e de controlar. Quem tem medo da democracia verdadeira, autêntica, com regras iguais para todos, ao contrário do que se pretende fazer passar, não são os nacionalistas; são precisamente aqueles que se afirmam democratas mas que, inconscientemente ou hipocritamente, impedem a realização plena da democracia.

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