Sorel e o Sindicalismo Nacional

Por Gustavo Morales

Georges Sorel (1847-1922) foi um engenheiro francês e o pai do revisionismo revolucionário superador do carácter materialista do marxismo e elemento fundamental para a génese do fascismo. O ambiente intelectual de Sorel enquadra-se no Bairro Latino de Paris, bem longe das frias escolas teoréticas de Viena.

Marxista confesso, Sorel pretende, originalmente, completar o pensamento do seu mestre. No início do século do XX o pensamento socialista enfrenta uma série de novos problemas, dificilmente explicáveis mediante a análise marxista ortodoxa. Sorel demarca-se das estruturas racionalistas e destaca que o marxismo é a construção de um mito revolucionário para entusiasmar as massas, negando o seu valor como explicação racional da realidade.

Sorel nega o valor do racionalismo, que acusa de corruptor. Antepõe Pascal e Bergson a Descartes e Sócrates. Sorel substitui os fundamentos racionalistas e hegelianos do marxismo:

1. Pela nova visão da natureza humana ensinada por Le Bon, que aconselha que "para conquistar as massas há que ter previamente em conta os sentimentos que as animam, simular que se participa deles e tentar modificá-los provocando, mediante associações rudimentares, certas imagens sugestivas; saber rectificar se necessário e, acima de tudo, adivinhar a cada instante os sentimentos que se fazem brotar". Le Bon resume: "a razão cria a ciência, os sentimentos dirigem a história".

2. Pelo anti-cartesianismo de Bergson. Os ensinamentos de Bergson permitem substituir o conteúdo racionalista, ou seja, utópico, do marxismo pelos mitos revolucionários. Sorel afirma que todo o grande movimento é motivado por mitos. O método psicológico substitui o enfoque mecanicista tradicional (1899), face ao método científico, o recurso a uma teoria dos mitos sociais. Sorel não repudia o marxismo, chega inclusivamente a defendê-lo contra alguns socialistas democráticos, mas considera que não existe nenhuma relação entre a verdade de uma doutrina e o seu valor operativo enquanto instrumento de combate. Sorel desloca o mito da esfera do intelecto e instala-o na esfera da afectividade e da actividade. Uma mentalidade religiosa contra a mentalidade racionalista. Sorel recorda que Bergson nos ensinou que a religião não ocupa a região da consciência profunda em exclusivo, ocupam-na também, pelas mesmas razões, os mitos revolucionários. Com isso, Sorel recusa o suposto carácter científico do marxismo e nega a possibilidade da explicação social em termos quase matemáticos.

3. Pela rebelião de Nietzsche. A única atitude coerente do revolucionário é a negação dos valores imperantes e a afirmação de outros novos e rebeldes. Nas "Reflexões sobre a Violência", Sorel afirma: "Os mitos não são descrições de coisas, mas expressões de vontade (…) conjuntos de imagens capazes de evocar em bloco e exclusivamente através da intuição, previamente a qualquer tipo de análise reflexiva, a massa dos sentimentos que correspondem às diversas manifestações da guerra movida pelo socialismo contra a sociedade moderna". Sorel assimila mito e convicções, entendendo estas em termos das ideias e crenças de Ortega. Sorel distingue entre a ética do guerreiro, que apoia, e a do intelectual, que condena: já não há soldados nem marinheiros, só vendedores cépticos.

Fases do pensamento soreliano

a) Socialismo marxista

Numa primeira fase, os sorelianos metamorfoseiam o marxismo, construindo uma nova ideologia revolucionária, descartando as teorias marxistas da mais-valia e de classe. Sorel esvazia o marxismo do hedonismo e do materialismo, tornando uma máquina intelectual esclerótica numa força mobilizadora ao serviço da destruição do que existe, o mundo materialista burguês. A teoria dos mitos torna-se o motor da revolução e a violência o seu instrumento: a violência proletária, pode não só garantir a revolução futura, como, além disso, parece ser o único meio de que as nações europeias, entontecidas pelo humanismo, dispõem para recuperar a sua antiga energia. Para Sorel, só os homens que vivem em estado de tensão permanente podem alcançar o sublime. Nessa via, Sorel reivindica o cristianismo primitivo e o sindicalismo de combate do seu tempo. Não nos aborreceremos em demonstrar que a ideia de violência revolucionária não se cinge ao derramamento de sangue nem à brutalidade, que são inerentes à exploração do trabalhador, camuflada sob a cortina de fumo do sufrágio partidocrático. Por essa via, também a crítica do sociólogo Pareto ao marxismo, base da sua teoria das elites, se aproxima da de Sorel.

b) Sindicalismo nacional

Numa segunda fase, depois de Sorel abandonar o socialismo (1909), o mito nacional substitui o mito exclusivamente proletário, já desgastado na luta contra a decadência democrática e racionalista. O ensino obrigatório, a alfabetização das zonas rurais, o acesso lento mas contínuo da classe operária à cultura, não favorecem a consciência de classe do proletariado, mas sim uma nova tomada de consciência da identidade nacional. Os sorelianos vêem a organização da sociedade em termos sindicalistas. Sorel crê que o sindicalismo, na sua luta contra a ditadura da burguesia e a ditadura do proletariado, ambas materialistas, possui um alto valor civilizacional. A influência de Sorel reflecte-se no parlamento de produtores defendido por José António, assim como na afirmação: "Concebemos Espanha como um gigantesco sindicato de produtores". Ledesma assumirá, além disso, o termo sindicalismo nacional que se expande entre os sorelianos franceses e italianos. Finalmente, o nacional vira-se para formas de sindicalismo do mesmo modo que os sindicalistas se viram para diferentes escolas do nacionalismo. Tomam também de Sorel a ideia de que a disciplina, a autoridade, a solidariedade social, o sentido de dever e de sacrifício, os valores heróicos, são outras tantas condições necessárias para a sobrevivência da nação. O mito nacional releva o mito meramente social como motor revolucionário. Para isso, é necessário que a convicção se apodere absolutamente da consciência e actue antes dos cálculos da reflexão terem tempo de aparecer no espírito. O mesmo é dizer que se opta por uma nova civilização que nasce da acção directa antes da reflexão teórica. Aqui Ledesma recebe uma maior influência soreliana que José António, que apesar da sua recusa da torre de marfim dos intelectuais sente uma certa nostalgia por ela, visível no seu "Homenagem e Censura a Ortega y Gasset".

A vanguarda cultural da primeira década do século XX, os futuristas, recebem com entusiasmo as ideias sorelianas pré-fascistas: "Os elementos essenciais da nossa poesia serão a coragem, a audácia e a rebelião. Queremos derrubar os museus, as bibliotecas, atacar o moralismo (…) Exaltamos as marés multicores e polifónicas das revoluções. Em pé no topo do mundo, lançamos uma vez mais o desafio às estrelas" (Marinetti, 1909).

Em 1920 ocorre um facto crucial para a opinião pública ocidental. Apoiados por numerosas greves parciais e ocupações de fábricas no norte de Itália, os nacional-sindicalistas italianos apresentam a sua proposta de auto-gestão da indústria ao Ministro do Trabalho, Arturo Labriola. O Primeiro-Ministro Giolitti reconhece o direito de participação dos trabalhadores nas empresas. O nacional-sindicalismo italiano obtém assim uma vitória épica.

Os sorelianos abrem assim a terceira via entre as duas concepções totais do homem e da sociedade que são o liberalismo e o marxismo, ideologias vítimas do racionalismo onde se prescinde da intuição e do sentimento a favor de uma impossível concepção matemática das ciências sociais. O discurso de Sorel torna-se transversal, baseado fundamentalmente no poder dos sindicatos mas repudiando o carácter meramente reivindicativo destes, ou seja, a sua domesticação pelo socialismo parlamentar. Sorel repudia os pactos e acordos com a burguesia, assim como o sistema de domínio do liberalismo democratizado: o parlamentarismo. Sorel odeia tanto a burguesia e a democracia liberal que recebeu com júbilo a revolução russa, apesar de ter criticado energicamente o leninismo dos revolucionários profissionais. Sorel vê em Lenine a vingança do génio criador do chefe contra a vulgaridade democrática. Aconselhava os sindicatos a alhearem-se do mundo corrupto dos políticos e dos intelectuais burgueses, distinguindo entre conspiração e revolução. Só a segunda dá vida a uma nova moral. Só os trabalhadores mais militantes – diz Sorel – são sindicalistas: "O operário da grande indústria substituirá o guerreiro da cidade heróica". Portanto, os valores de ambos são comuns e o ascetismo e a eliminação do individualismo implicam características compartilhadas pelo soldado-monge e pelo operário-combatente. Podemos encontrar coincidências entre o desenvolvimento de Sorel e de Spengler.

c) Fascismo

Sorel não desacreditou o uso que os fascistas faziam do seu nome. De facto, o fascismo nasce da crítica sindicalista, com uma forte componente soreliana, ao marxismo racionalista ortodoxo. O fascismo assume-se contra a desumanização introduzida pela modernização nas relações humanas, mas, ao contrário do tradicionalismo, deseja conservar zelosamente as conquistas do progresso. A revolução fascista procura transformar a natureza das relações entre o indivíduo e a comunidade mas sem desbaratar o motor da actividade económica moderna. Os sorelianos são os primeiros revolucionários surgidos da esquerda que se negam a questionar a propriedade privada. Consideram que atacá-la leva a confundir o inimigo real: a concepção burguesa e materialista da existência, também encarnada pelo jacobino e pelo social-democrata.

Os sorelianos mantêm-se fiéis à ideia de que todo o progresso depende, e dependerá, duma economia de mercado, tal como defende hoje o economista joseantoniano Velarde Fuertes, ao contrário dos projectos estatistas de Dionísio Ridruejo. Neste ponto do debate, os nacional-sindicalistas dividem-se, a maioria passa a apoiar directamente o fascismo, inclusivamente quando este modera o seu aspecto de transformação económica da sociedade. Outro pequeno sector, a ala esquerda, rompe com o fascismo e recupera o velho axioma do sindicalismo revolucionário: a sociedade de trabalhadores livres.

A passagem de um ao outro é visível em José António comparando o Discurso da Comédia em 1933 e o Discurso da Revolução Espanhola de 1935, no qual enumera quatro tipos de propriedade: a pessoal, a familiar, a comunal e a sindical. Estão ausentes a estatal e a correspondente às sociedades anónimas.

Em qualquer caso, com a síntese fascista, a estética revolucionária e heróica converte-se em parte integrante da política e da economia.

Conclusão

Sorel, nos artigos reunidos em "As Ilusões do Progresso", denuncia Descartes, dado que as suas ideias são as da classe dominante. Recusa o racionalismo que se torna optimismo ao entender o mundo como um imenso armazém onde todos podem satisfazer as suas necessidades materiais. Sorel pede que o socialismo se transforme numa filosofia de comportamento moral, onde as relações dos trabalhadores gerem uma nova ética, absolutamente distinta da moral burguesa, o real inimigo de Sorel.

Sorel abandona o proletarismo quando comprova que a violência operária, sustentada nas reivindicações materiais, não eleva o proletariado ao nível de uma força histórica susceptível de engendrar uma nova civilização. Sorel anuncia que o sindicalismo se separa do socialismo racionalista e repudia, finalmente, Marx e Hegel. Sorel assume a frase de Croce e afirma: "O socialismo morre, quando descobre, com amargura, que as ideias, preocupações, fins e comportamentos do trabalhador não diferem das dos burgueses". O carácter compromissório do parlamentarismo liberal seduziu os partidos socialistas europeus ocidentais e os sindicatos, animados pela acção directa e o mito da greve revolucionária, ou se acomodam ou se separam radicalmente do socialismo parlamentar.

Sorel desliga-se das construções teóricas que antecedem a acção. É um apaixonado do feito revolucionário, o que ajuda a compreender a sua passagem do marxismo de combate, que abandona quando a social-democracia se domestica nos parlamentos, à sua posterior adesão aos processos de revolução nacional que sacodem a Europa.

Quando em 23 de Março de 1919, na praça de San Sepolcro de Milão, Mussolini funda o fascismo italiano, entre os presentes encontram-se muitos sindicalistas sorelianos, fartos da conivência da burguesia com o Partido Socialista Italiano do qual também procede o futuro Duce.

Em resumo, o fascismo não nasce da burguesia mas sim de uma cisão da esquerda socialista, a fracção daqueles que abominam o liberalismo parlamentar e consideram que a missão histórica do proletariado não é impor uma ditadura mas sim criar uma nova civilização.

Finalmente o fascismo perde o seu ímpeto revolucionário, quando inicia a sua política de pactos com a burguesia industrial, e os partidos nacionais do resto da Europa rompem com ele e buscam um novo encaixe da revolução nacional com o brio puro e anti-político das massas anarco-sindicalistas. O melhor exemplo temo-lo em Ramiro Ledesma e a "Conquista do Estado". Ledesma não opta pelo fascismo, apesar do seu "viva a Itália de Mussolini" ou "viva a Alemanha de Hitler", nem pelo bolchevismo, também apesar do seu "viva a Rússia de Estaline", mas sim por algo consubstancial a todos eles, o fim da democracia liberal, esse regime baseado nas palavras do soreliano Berth, no voto secreto… o símbolo perfeito da democracia. Vejam o cidadão, esse membro do soberano, que medrosamente vai exercer a sua soberania, esconde-se, evita os olhares, nenhum papel será suficientemente opaco para ocultar aos olhares indiscretos o seu pensamento…

Ledesma, como Sorel e José António, entendem que o trabalhador tem por missão recuperar o sentimento heróico da existência, antigamente nas mãos do guerreiro.

Sorel é a superação do mecanicismo marxista. José António dá um passo mais, superando o fascismo corporativista e unindo a questão social e a nacional com o compromisso humano e utópico.

Em resumo, o fascismo é uma revisão do socialismo. O nacional-sindicalismo, ao fim e ao cabo, implica uma superação do carácter material e compromissório de ambos, entroncando com o sindicalismo revolucionário e a nacionalização do proletariado, construindo uma sociedade vertebrada sem estatismo.

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