Desconstrução da mestiçagem

Por José Javier Esparza (traduzido por Arqueofuturismo on-line)

Escreveu Vargas Llosa no jornal ABC: “Quanto mais se incremente a mestiçagem, melhor irão correr as coisas na sociedade”. Pergunta inevitável: porquê? O que tem a mestiçagem que torna “melhor” as sociedades? E o que é a “mestiçagem”? O racismo foi a superstição dos finais do século XIX e princípios do século XX, o discurso da mestiçagem é a superstição dos finais do século XX e princípios do século XXI. É um discurso incoerente, meramente retórico e intelectualmente inane.

Antes de mais, o discurso da mestiçagem apresenta-se como uma denúncia radical do discurso da raça: o bom não seria a pureza, mas sim a mistura racial. Ora bem, isso implica aceitar de antemão várias coisas. Primeiro, que as raças existem como factor de definição social e cultural, ou será que se pode falar de mistura se não há coisas para misturar? De maneira que a “miscigenação” não é um anti-racismo, mas um racismo ao contrário. Não é um discurso válido para combater o racismo, porque nasce do seu mesmo ponto de partida.

Além disso, a apologia da mestiçagem implica uma segunda convicção: que a mistura deve circular em todas as direcções. Porque não teria sentido defender a mestiçagem num caso exclusivo, por exemplo, de que o sujeito agente seja africano e o sujeito paciente seja europeu; para poder ser elevada à categoria, a mestiçagem deve ser igualmente exaltada quando o sujeito agente é branco e o sujeito paciente é africano ou americano. Posto isto, então o que carece de sentido é utilizar a retórica da mestiçagem como parte de um discurso de defesa das velhas colónias, dos povos do terceiro mundo ou dos “damnés de la terre”. Acaso o colonialismo não gerou fenómenos de mestiçagem? Por conseguinte, o discurso da mestiçagem pode perfeitamente utilizar-se para legitimar o colonialismo — na América hispânica sabem bem disso.

Por último, o discurso da mestiçagem implica uma atribuição de valor, um juízo de qualidade: defende que o resultado da mistura é qualitativamente superior ao resultado da não mistura; uma sociedade produto de mestiçagens sucessivas será superior a uma sociedade sem mistura alguma. Bom: superior, em quê? No progresso espiritual, no desenvolvimento tecnológico, no poder material, na qualidade de vida? Mas há sociedades mestiças que ascenderam ao topo civilizacional, como a Grécia helenística, e outras condenadas ao perpétuo conflito, como a Bolívia. Inversamente, nos exemplos de sociedades etnicamente uniformes que hoje persistem, existem as prósperas e as miseráveis, as doces e as amargas. Na qualificação objectiva de nível de uma sociedade, o grau de mestiçagem é um factor irrelevante, supérfluo, inválido para a análise.

Por isso, o discurso da mestiçagem é uma superstição (“crença contrária à razão”). Primeiro, porque se mantém — ainda que ao contrário — no velho padrão antropológico do século XIX, que outorgava à raça biológica um papel fundamental. Segundo, porque a promoção da mistura serve para justificar qualquer colonialismo, incluindo o neocolonialismo económico e cultural que hoje se designa como “globalização”. Por fim, porque é inviável para avaliar o grau de bondade, beleza e justiça que uma sociedade possa alcançar.

Naturalmente, não faltará quem julgue esta imposição da mestiçagem como simples racismo. Cada época tem o delírio que merece.

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