O Fascismo em Portugal

Por Jaime Nogueira Pinto

Em 1926, o Exército português toma conta do poder, pondo termo ao período do "Liberalismo convulsivo" republicano. As histórias oficiais dos quarenta anos seguintes hão-de enaltecer o gesto, salientando a unidade da Força Armada no movimento, o seu carácter apartidário, a figura do seu efémero Caudilho – Gomes da Costa, um militarão rude e corajoso, encanecido, quanto o permitiram o tempo e o lugar, nas lides da Guerra – bem depressa arrumado na prateleira.

A verdade não foi bem esta, embora não andasse por muito longe. Gomes da Costa fora estimulado e industriado por um núcleo de "conselheiros" civis; os militares partidários do Regime vencido intentariam ainda o regresso aos velhos tempos e se a "indefinição" ideológica ajudou a achar apoios e neutralizar resistências é certo que os comités de jovens oficiais nacionalistas tinham a teia bem montada nas fileiras e a nota dominante das proclamações deixava já adivinhar as linhas mestras do futuro.

Depois, se a História é feita de acção e reacção mesmo que qualquer dos termos implique carga positiva ou negativa – não é de estranhar que, tendo sido característica essencial da Primeira República o anticlericalismo maçonizante, a sua queda trouxesse, pelo menos, o dado da Igreja ou do seu braço político secular. Nesta Sociedade pré-industrial em arranque para o desenvolvimento, vencido o radicalismo jacobino pela força da sua inépcia e contradições, não é muito estranho que ficasse de pé, como corpo de doutrina e instituição, o Catolicismo que, além de ter representado, até por legítima defesa, um papel fundamental no combate político contra o Regime, tinha a força que lhe advinha duma concepção geral do mundo – aliás reforçada pelas encíclicas leoninas e pela ressurreição tomista – e, também, de ser, apesar de tudo, uma organização supranacional.

Deste modo, tudo concorre para que Oliveira Salazar, um homem de formação e militância católica (como prova a exaustiva biografia de Alberto Franco Nogueira agora aparecida) venha a ser, como entendido máximo no problema crucial do país – o financeiro – a média unificadora das tendências sociopolíticas e blocos de pressão que apoiavam a Ditadura Militar, o "recuperador" do movimento "apolítico" do 28 de Maio.

Mas se é um católico está longe de ser um clerical, uma eminência de sacristia e beatério, um produto, mesmo de primeira ordem, da internacional vaticana, como o querem fazer crer alguns jarrões da Outra Senhora, literatos mesclados de boticário jacobino, que o 25 de Abril e seus serôdios cravos desenterraram para a farsa-tragédia que nos trouxeram alguns capitães equivocados na vocação, vai para três anos.

Salazar é pois um católico nacionalista, que se permite, com a autoridade de conhecer, estabelecer os limites da Igreja e do Estado, do mesmo modo lúcido e metódico como equilibra as Finanças e assume, pelo controlo das despesas, os cordéis da Administração.

Mas levar as coisas mais longe, caracterizar, a partir de certos paralelos e dum aparato formal que a época e as circunstâncias impunham, o pensar e construir do Estado Novo como subespécie da Revolução Romano-Fascista é desconhecer, pelo menos, os mais elementares fundamentos e realizações dos regimes, ou mera simplificação propagandística da alegre demagogia rectangular, que intenções e efeitos não salvam da asneira.

Havia, é certo, os ventos da História: na Itália, um condottieri revolucionário, lido em Sorel e nos sindicalistas heterodoxos, com uma costela em Nietzsche outra em Maquiavel, aliados a um background socialista e um sentido excepcional da agitprop, bate-se nas trincheiras e nas ruas, conquista o Poder num golpe de audácia, reconcilia a Nação e os Trabalhadores, reinventa Roma, trata de grandeza e de Obras Públicas, põe um País a cantar e a secar pântanos, ensina que as classes se devem fundir em milícias negras, tendo por insígnia o feixe de varas, que acompanhava os Antigos, a Autoridade e a Justiça. Na Alemanha – leia-se, numa sociedade tecnologicamente avançada, industrial – um ex-comandante duma guerra perdida, rodeado por intelectuais, por barões do Ostland e proletários de verdade – os tais "castanhos" por fora e "vermelhos" por dentro – ressuscita as insígnias dos Árias, vence uma longa batalha nas ruas e nas urnas, e recebe a investidura na cadeira de Bismark, das mãos de um velho marechal prussiano, contemporâneo de Sédan e das glórias do II Reich, último presidente do primeiro modelo social-democrata europeu, que não deixava saudades.

Talvez porque as mesmas causas provocam efeitos semelhantes, a crise das democracias parlamentares, do sonho maçónico de Genebra, da primeira Europa do Capital, agonizantes entre um sindicalismo abandeirado a Moscovo e a resistência nacional aos projectos mundialistas, cujo sinal partira de Roma, conduzia, por toda a parte, nessa década de trinta em que Salazar lançava os pilares do novo regime, à eclosão de movimentos nacionalistas e autoritários, que, contudo, se alinhavam em dois ramos bem distintos: o fascista, onde o nacionalismo extremo ia acompanhado de claro progressismo e revolução social; o conservador, onde, quase sempre sob os auspícios da Igreja (da outra Roma, não a do Fórum Mussolini, mas do Vaticano), o paternalismo e tradicionalismo económicos – mesmo acompanhados duma estratégia de fomento modernizante – significavam, eticamente, mais um regresso ao Antigo Regime que uma criação do novo.

Comentários

Sem comentários

Adicionar Comentários

Este post não permite comentários