De quando quase matei Vasco Gonçalves

Por Walter Ventura (in «O Diabo», 21.06.2005., págs. 20/21)

Num curto espaço de dois dias, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal foram a enterrar. Daí para cá, as redacções perderam a cabeça (as televisões só não a perderam porque já não a têm), e o festival de disparates excedeu largamente as minhas melhores expectativas. Acho da maior justiça sublinhar neste ponto a prestação esfuziante do jornal “Público” que o senhor Belmiro um dia deu à luz, não sei se para tão nobres missões.

Os senhores sabem que nenhum dos dois falecidos era santinho da minha devoção e que, não embarcando na onda – no “arrastão” – de louvar na morte quem nunca considerei durante a vida, só me restaria agora repetir, acerca de ambos, o que me cansei de escrever enquanto andaram por este vale de lágrimas – muitas delas derramadas por culpa deles. As árvores conhecem-se pelos seus frutos e o resto é cantiga.

Vai daí, resolvi nem sequer tocar no assunto.

Acontece que, em conversa com amigos, veio à baila a história do MAP – Movimento de Acção Portuguesa – que nem chegou a ver a luz do dia por, mui democraticamente, ter sido assaltado por uma espécie de militares mal arrumados, às tantas da madrugada que antecedeu a data da magnifica Manifestação da Maioria Silenciosa, cozinhada expressamente para consolidar esse admirável cabo de guerra e mimoso patriota que foi o general Spínola – a quem, por via disso e outras que tais, o saudoso Eduardo Freitas da Costa chamaria o “traidor traído”.

Adiante.

O MAP nascera para defesa do que ainda se poderia salvar da abrilada e, visto de agora, pode dizer-se que constituído por génios, já que recusávamos o que, embora então (e ainda), tão incensado pelos “revolucionários”, veio a revelar-se totalmente funesto para Portugal. Tinha muito boa gente nas suas fileiras. Gente que recusara a “direita” do Partido do Progresso, onde o “spinolismo” era mais ou menos palavra de ordem e que jamais se acoitaria “rigorosamente ao centro”. (Houve, dessas “direitas” quem o fizesse e ainda por lá more, mas não os do MAP, Deus seja louvado).

Exactamente por isso, ao fim dessa tarde de 27 de Setembro, alguns de nós tinham feito questão de rumar à Quinta da Marinha onde se faziam os derradeiros preparativos para a manifestação que o MFA, ou o povo, ou todos juntos, haveriam de abortar do dia seguinte. Fomos lá para pôr os pontos nos ii e avisar que não contassem com a nossa modesta presença no arraial da tal Maioria Silenciosa.

Marcada a posição, alguns de nós voltámos à sede, no edifício da Rua Borges Carneiro que faz esquina com a Calçada da Estrela, ali mesmo frente ao muro do jardim da residência oficial do primeiro-ministro.

Durante horas, como se fazia um pouco por toda a parte, à direita e à esquerda, debatemos a situação pátria, misturámos informações e boatos e esprememos os miolos à procura de uma forma de salvar a Nação. Telefonemas em formação cerrada, ajudaram a subverter as nossas pobres meninges.

De repente, alguém bateu à porta com fortes golpes, como o Cavaleiro Andante do Antero. Não bradou e, de resto, não era um Cavaleiro nem um cavalheiro. Era um desses bandos semi-fardados e armados a esmo que incarnavam o bravo MFA. O Goulart Nogueira, que fora abrir, foi mimoseado com um encontrão e atirado para o meio do corredor. Com o excelente tenente Gameiro, que eu conhecia de outras andanças, de pistola-metrelhadora em punho, encabeçando a hoste, a maltosa invadiu-nos a casa.

Depois, alinharam-nos ao longo da parede das escadas e enquanto alguns heróis nos mantinham de mãos e nariz encostados à parede, “passaram busca”, partindo o que lhe aprouve e não encontrando nada a que se pudesse chamar comprometedor.

Minto!

Às tantas fomos todos chamados para assinar um papel – uma folha A4 elaborada por eles – onde constava a lista do “material apreendido”. Entre várias ridicularias, havia uma pistola FN e uma caixa de cartão de uma mira telescópica.

Calhou eu ser o primeiro convocado para a assinatura e recusei, argumentando tratar-se de uma busca ilegal, feita sem a nossa presença e não saber se aquele material estava realmente no MAP ou se lá fora “implantado” pelos briosos militares assaltantes. Depois de ter levado uma violenta pisadela de um energúmeno de quase dois metros de altura que envergava um dólman camuflado e boina dos fuzileiros e à qual tive o gosto de retribuir com uma canelada que partiria o artelho a um boi e ressoou por toda a sala, um sujeito muito aprumado no seu fatinho castanho – disseram-me depois ser um tal capitão Rosa, na altura vedeta do MFA – desentalou do cinto um revólver que me apontou à cabeça, exigindo a minha assinatura, pelo que tive de lhe explicar que se me disparasse o trabuco nos miolos eu jamais assinaria fosse o que fosse, chegámos a consenso – o MFA era dado a consensos, como se viu.

Concordou-se então que eu escrevesse ter-me sido ali apresentado o material constante da lista acima, material esse que eu não sabia existir na nossa sede e que a busca fora efectuada sem a nossa presença. Assinei e o mesmo fizeram os meus parceiros, chamados um a um, depois de mim.

Mais tarde, a pistola deu confusão. Um dia, preso em Caxias, fui chamado ante um desses argutos oficiais inquisidores que detestavam os métodos da PIDE mas tentavam dar-lhe um jeito. Exibiu-me a pistola e declarou ter provas de que me pertencia. Junto, apresentou-me a tal lista elaborada na noite fatídica e que as nossas assinaturas desmentiam.

Mas, para maior azar, na lista estava escrito tratar-se de uma FN, calibre 7,65mm. O mesmo acontecia na etiqueta entretanto amarrada ao guarda-mato da arma que o inquisidor agitava frente ao meu nariz. Ri-me e convidei-o a sacar uma munição do carregador e ler o que lá dizia do seu calibre. Na verdade, a pistola era de calibre 9mm curto, coisa pouco conhecida em Portugal e totalmente desconhecida dos bravos militares que não iam além do que a tropa lhes tinha ensinado. Poucochinho.

Pior foi o raio da caixinha da mira telescópica. A coisa excitou a imaginação daquela pobre gente e daí se gerou um romance que acabou na acusação de querermos ferrar um tiro no Companheiro Vasco que, apesar de ser uma Muralha de Aço, parecia não ser imune aos disparos.

De repente, fui a um “interrogatório” onde me garantiram saberem de toda a conjura: nós só ocupávamos aquela sede da Borges Carneiro com o intuito de perpetrar o horrível crime. De uma janela que dava para a Calçada da Estrela e a que tivéramos o cuidado de previamente quebrar uma vidraça, alvejaríamos a residência oficial, apanhando o ilustre político-militar, provavelmente quando esse assomasse à porta. No atentado usaríamos uma “espingarda tipo Dalas”, como provava a caixinha da tal mira telescópica. Tal e qual assim e assim o li, dias mais tarde, em jornais, alguns dos quais são hoje de referência.

Juro que fiquei sem pinga de sangue e incapacitado de articular palavra o que em mim é raro. Não por medo, palavra de honra e ainda menos por terem descoberto a nossa trama secreta.

O que pensei é que os gajos estavam a gozar comigo.

Primeiro, a tal janela virada não para o mar, como na canção, mas para a residência de São Bento não era nossa. Ficava no andar acima e do outro lado do edifício: as nossas só davam para a Rua Borges Carneiro. Aliás, nem dela nem do telhado se conseguia ângulo de tiro que proveito tivesse para o fim em vista. Depois, não percebia quem raio se lembraria de partir a vidraça com antecedência denunciadora.

Fiquei também ferido nos meus brios. Na época eu pensava saber tudo o que havia para saber de armamento ligeiro e raios me partam se uma “espingarda tipo Dalas” me dizia fosse o que fosse. Depois de acesa discussão, descobri que nas cabecinhas brilhantes que haviam congeminado a acusação, a coisa queria dizer “espingarda do tipo da que, em Dalas, matara o presidente Kennedy”, como se o raio da carabina apresentada pela polícia americana e cuja ineficácia ainda hoje se discute, pertencesse a um qualquer “tipo” específico.

Finalmente, quanto à caixinha da mira o gozo não era menor. Para qualquer analfabeto que não fosse do MFA, bastaria olhar a coisa durante três segundos para verificar tratar-se de um brinquedo. Estava tudo dito na embalagem que de resto provava tratar-se de uma mira com uns quinze centímetros de comprimento e diâmetro a condizer. Um brinquedo comprado um dia antes pelo meu parceiro Vasco – outro Vasco mas este do lado bom – para aplicar numa pressão de ar do seu filho mais velho. Passara na Praça da Figueira, vira-a numa montra, achara graça e comprara-a por umas dezenas de escudos (bons tempos!). Depois descobrira não ser capaz de a alcear e levara-a com a carabina para a sede do MAP para eu o fazer. Foi sentado numa cadeira que tratara do assunto, servindo-me de alvo um interruptor eléctrico no outro extremo do corredor.

Ora bem! Sabem os senhores como acabou a história?

Dias depois, com o mesmo afã e a mesma imparcialidade com que há dias nos contaram os horrores do arrastão e, mais recentemente, as peripécias terríficas da manifestação nazi – acho “nazi” um termo demasiadamente brando para o caso – os jornais contaram todos os pormenores do atentado. E logo um senhor, arquitecto por sinal, desatou a escrever desmentidos e a apresentar provas do seu impoluto passado antifascista. Era, imagine-se o dono da fatídica janela virada a São Bento, onde tinha o seu gabinete de arquitectura e onde, segundo declarou, há longos anos mantinha uma “célula comunista” que arquitectava, ela também, contra o já velho Estado Novo.

E foi assim que nunca mais ouvi falar da acusação e os meus interrogatórios derivaram para outros temas igualmente sérios e comprometedores.

Mas o bom do Companheiro Vasco deve ter sentido o seu arrepiozito pela coluna abaixo quando se soube alvo putativo de um atentado perpetrado por um grupo de fascistas.

Que a terra lhe seja mais leve do que os erros que acumulou.

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