Reflexões sobre a televisão

Por Bruno Oliveira Santos (Fonte: Nova Frente)

1. O aparelho de televisão deve ser o electrodoméstico mais conhecido no mundo inteiro. Em qualquer sala de jantar ocupa o lugar principal. Na liturgia da família moderna, a caixa mágica — como lhe chamam — é o altar em que se fixa a atenção da assembleia de devotos. Os sofás são arrumados em função do televisor e não de desusadas regras de convívio social. Os monólogos dos «pivots» de telejornal ou os diálogos das telenovelas substituíram as conversas em família (salvo seja). Trata-se de um ritual inculcado desde tenra idade: antes mesmo de saber ler e escrever, uma criança assiste a milhares de horas de emissão.

A célere propagação do aparelho e o rápido desenvolvimento tecnológico (vídeo, câmaras portáteis, transmissão por satélite) transformaram a televisão num media omnipotente, omnipresente e omnisciente. Ao dominar o espectro mediático, a televisão influencia os outros meios, sobretudo os jornais. Nestes, algumas edições parecem programas de televisão em suporte de papel. De facto, é curioso verificar que a imprensa escrita segue despudoradamente a cartilha televisiva: a utilização crescente de imagens, o tom humorístico dos títulos, a superficialidade das notícias, o recurso à emoção.

Para sobreviverem, todos os media adoptam as normas do pequeno ecrã. O número de crónicas, páginas e suplementos sobre TV não cessa de aumentar nos periódicos. Os jornalistas destes só conquistam notoriedade se aparecerem na televisão: qualquer director de jornal dito de referência mendiga dois minutos de antena para comentar a "Casa Pia" ou a "GNR no Iraque"; nenhum jornalista da TV precisa de escrever nos jornais para ser conhecido. O "jet-seis" nacional é constituído, ou por jornalistas de televisão, ou por gente que frequenta assiduamente os diversos canais.

Não se percebe, por isso, a gritaria histérica provocada em diversos meios (blogosfera incluída) pela nomeação de Fernando Lima para director do «Diário de Notícias». Só 150.000 portugueses têm o arcaico hábito de ler jornais. Ficou chocado, caro leitor? Não fique. O número de consumidores de jornais não se obtém pela soma de vendas dos distintos títulos: quem compra um, compra os outros. Os leitores do «Expresso» são os do «Público» e do «Diário de Notícias». Ora, ninguém ganha escrutínios por catequizar tão poucos eleitores: 150.000 votos valem dois ou três deputados. Dois ou três deputados! — eis o poder da imprensa escrita.

2. A TV tornou-se assim o palco central da vida política. É por isso que qualquer actor pode ambicionar ser presidente de Câmara, deputado ou ministro, posto que não tenha o charme do sr. Reagan nem a musculatura do sr. Schwarzenegger. O carisma (palavra bonita) mede-se hoje em dia pela quantidade de vezes em que o marmanjo mostra as ventas na televisão. As virtudes de honra, honestidade, inteligência, sentido de Estado, não valem um chavo na hora de ir a votos, substituídas que foram pela telegenia, capacidade de comunicação — uma carinha laroca e bem maquilhada, uma gravata a condizer com as cores do cenário. Os políticos, para se achegarem ao poder, têm de saber «comunicar», convocar conferências de imprensa à hora do telejornal e «passar a mensagem» em pequenas frases, duas ou três palavras que ressoam, dois ou três tiros certeiros que rendem maiorias. Vivem, também eles, em função da televisão: só há casa cheia no hemiciclo nos dias em que os debates parlamentares são filmados.

Considerar a televisão um media como os outros e julgá-la um «quarto poder» faz-nos incorrer no vício do anacronismo. O «quarto poder» converteu-se no primeiro e, aparentemente, não há contra-poder que o detenha.

3. A SIC emite semanalmente um programa assaz degradante, «O Sono da Verdade», em que um charlatão desassisado "cura" por hipnose as taras, complexos ou enfermidades dos pobres bonifrates que se submetem ao mediático tratamento. Já ouvi respeitáveis telespectadores tecerem sólidas críticas à farsa. Mas parece que nenhum deles se apercebe que, em qualquer programa de qualquer estação, os laços que prendem o telespectador ao ecrã são — todos eles — de natureza hipnótica. Apenas chega a casa, liga instintivamente o televisor. Se o programa que elege frustra as suas expectativas, em vez de desligar o aparelho, faz «zapping» por mais de 40 canais e fica prostrado diante de um programa que não pensara ver, mas que o parece satisfazer momentaneamente. Alguns acabam por adormecer — como em qualquer hipnose que se preze.

No fundo, não vemos televisão; é a televisão que nos vê: estuda os nossos hábitos, as nossas tendências, os segmentos que pretende atingir — e ao depois bombardeia-nos com um «pronto-a-pensar» igualitário, nivelado por baixo: uma estética da fealdade que cada telespectador, hipnotizado, tende a repercutir nos seus costumes diários.

4. Podemos analisar o poder televisivo em três pontos fundamentais:

a) meio de propaganda e desinformação, isto é, via através da qual se impõem as ideias «certas», escamoteando as outras;

b) instrumento de controlo social, ou seja, meio a partir do qual o sistema vigente assegura o comportamento «correcto» dos membros da sociedade, instituindo padrões e normas — e ajuntando-lhes umas larachas, com vista a mitigar o tédio da vida quotidiana;

c) por último, o sistema mediático como sistema em si. Deixa de ser um meio e passa a representar um fim em si mesmo. Os media não são mais os intermediários entre os autores da mensagem e os destinatários da mesma. Como viu Marshall MacLuhan com meridiana clareza, são a própria mensagem.

5. Apesar disto — por paradoxal que pareça — não é possível explicar este poder com recurso a engenhosas teorias da conspiração, que descobrem sempre a "mão invisível" que comanda o mundo. É certo que os media adoptam um modelo «politicamente correcto», em que a razão, coitada, sofre de hemiplegia: vai só do centro à extrema-esquerda. É igualmente certo que a censura, essa, permanece: deixou de estribar-se na proibição de divulgar as outras ideias (embora tal ainda se pratique) e passou a consistir no silenciamento ou ridicularização das mesmas. Mas tal estado de coisas não se deve a qualquer "mão invisível", o que torna o poder mediático ainda mais perigoso. Os desgraçados que nos (des)governam mandam tanto na TV como eu e os meus leitores. A televisão é «politicamente correcta» porque sim. Levantando o véu: entre outras coisas, porque a informação regula-se hoje pelas leis de mercado. É despiciendo curar de saber se uma notícia é verdadeira ou falsa. Creio que nenhuma redacção se preocupa com tal minudência. Preciso é haver mercado para as notícias. A informação é uma mercadoria como outra qualquer. Efectivamente, os mecanismos do mercado apresentam aqui um efeito perverso. Os liberais costumam dizer que a livre concorrência gera qualidade. Basta passar os olhos pelos canais de televisão que temos, meus senhores, para se concluir precisamente o contrário. A mediocridade é confrangedora e a apregoada "pluralidade" não passa de farsa mal montada: por rivalidade mimética, os diferentes canais dão as mesmíssimas notícias, passam as mesmíssimas fitas, plagiam-se nos mesmíssimos concursos.

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