Kristallnacht

Por A. Rangel

Pontualmente, em cada dia 8 de Novembro, os chamados meios de "informação", a par de outras brilhantes sumidades deste pobre país transformado em bairro de lata, repetem-nos — para que não o esqueçamos, que a memória dos homens é curta e passageira — uma série de refrões e de slogans pré-fabricados sobre os acontecimentos ocorridos na Alemanha na noite de 8 para 9 de Novembro de 1938. Garantem-nos que são factos históricos incontestáveis, pelo menos, é o que dão a entender. Como se o episódio constituísse uma grandiosa tragédia que, pela sua gravidade e enorme transcendência, devesse interessar a todos em geral e a cada um em particular, diz-se lacrimogeneamente que a "Noite de Cristal" foi o prelúdio — mais coisa, menos coisa — do pesadelo que haveria de seguir-se, e que os judeus visados nessa noite foram as primeiras vítimas do famoso "holocausto" que, como afirmam "ex catedra" e com toda a desenvoltura o locutor de turno ou o escriba de serviço, serviu para mandar "ad patres" nada mais nada menos que seis milhões de pacíficos e adoráveis judeus…

Dizem-nos e repetem-nos tudo isso, mas, já não falando das especulações levadas até ao absurdo e das falsidades e exageros impostos pelos interesses da causa, não nos contam tudo, nem metade, nem sequer uma quarta parte sobre os antecedentes que deram origem à famosa Kristallnacht. Na verdade, não nos contam praticamente nada! Limitam-se a repetir como papagaios amestrados que resultou ser uma maldosa perseguição desencadeada pelo governo nacional-socialista alemão, que, ao mesmo tempo, incitava a população a exercer represálias anti-semitas.

No entanto, como os factos históricos não mentem e têm uma só interpretação, temos de concluir que esses ilustres plumitivos não têm a menor ideia do que estão a dizer, não sabem o que realmente sucedeu e que a única coisa que conhecem é a linguagem retirada do arsenal de propaganda dos vencedores da guerra. Bem, também pode suceder que as ordens vindas de quem paga (e quem paga, manda, já se sabe!) sejam suficientemente claras e inequívocas para permitirem veleidades ao jornalista que, por defender uma versão diferente da que lhe é imposta ou sugerida por quem lhe paga o ordenado, não deseja perder o emprego para andar à procura de outro. De facto, fica sempre alguma coisa de fora, alguma coisa "esquecida" que não se diz, que se remete ao silêncio e ao esquecimento. Em suma, que interessa não dar a conhecer!…

Ainda antes da chegada ao poder do Nacional-Socialismo, a "grande imprensa" mundial já esganiçava os mais estrepitosos clamores e afirmava aos gritos que os judeus eram objecto de perseguição na Alemanha, quando, de facto, nem sequer tinham começado "perseguições". De facto, a proibição do exercício de determinadas actividades a uma comunidade que acumulava, ela só, a quarta parte da renda nacional e representava numericamente 0,9% da população do país, era apresentada pelas grandes agências informativas como a pior e a mais cruel das perseguições. Ao coro geral, juntaram-se o talmúdico New York Times e o arcebispo Mundelein de Chicago, embora mantendo-se ambos cuidadosamente calados a propósito da descriminação racial dos negros e índios americanos…

A circunstância de um Estado soberano da Europa, a sete mil quilómetros de distância, ditar medidas internas que afectavam os membros de uma comunidade rica e abastada, era uma "cruel perseguição". Na democrática América, na cristã América dos arcebispos Mundelein e Spellman, o facto dos índios espoliados, sobreviventes do maior genocídio da história universal, serem amontoados em "reservas", isto é, em campos de concentração, e quinze milhões de negros não poderem mandar os filhos para as universidades, não votarem nem serem eleitos, era perfeitamente decente e moral…

Na Inglaterra, o panorama não era diferente. O londrino The Times protestava bravamente contra as medidas tomadas pelo governo alemão contra os judeus alemães, mas mantinha um silêncio distraído acerca de certas medidas discriminatórias tomadas pela bem ponderada democracia britânica que, como se sabe, é o "non plus ultra" das democracias havidas e por haver. Não é estranho que, em lugar de se preocupar tanto com as medidas tomadas por um país estrangeiro contra uma parte dos seus cidadãos, o jornal não dedicasse ao menos um editorial a criticar a discriminação religiosa existente em tão qualificada democracia, onde um católico não pode ser coroado rei nem investido do cargo de primeiro-ministro?…

A maquinaria propagandística mundial apresentou as medidas "anti-semitas" da Alemanha nacional-socialista como uma bestialidade fanática dos seus dirigentes, mas "esqueceu-se" sempre (tipo de amnésia que parece ser um mal endémico nas miríficas vestais democráticas) de explicar que o chamado "anti-semitismo" existe há mais de cinco mil anos no planeta que habitamos, ou seja, desde que o povo judeu surgiu pela primeira vez na história. Também não chegou a explicar que a causa desse "anti-semitismo" é a idiossincrasia especial dos judeus e a sua conduta relativamente aos outros povos…

No entanto, o pai do sionismo moderno, Theodor Herzl, não hesitou em reconhecê-lo abertamente na sua obra The Jewish State: "A questão judaica continua de pé, seria néscio negá-lo. Existe praticamente onde quer que haja judeus em quantidade perceptível. Onde não existe, é imposta pelos próprios judeus e pelas suas actividades peculiares. Naturalmente, mudam-se sempre para lugares onde não são perseguidos, mas, uma vez aí instalados, a sua presença provoca imediatamente novas perseguições. O infausto judaísmo introduz agora o anti-semitismo na Inglaterra e nos Estados Unidos"…

Disraeli, o judaico "Premier" britânico, não teve dúvidas em confirmá-lo(1): "A influência dos judeus pode ser encontrada no último aparecimento dos princípios dissolventes que estão a abalar a Europa. Desenvolve-se uma insurreição contra a tradição e contra a aristocracia… A igualdade natural dos homens e a derrogação do princípio de propriedade são proclamadas pelas sociedades secretas que fazem parte dos governos provisórios, e homens de raça judaica encontram-se à frente de cada um deles. O povo eleito de Deus coopera com os ateus; os maiores acumuladores de propriedade aliam-se aos comunistas; a raça eleita dá a mão às castas mais baixas da Europa; tudo isso porque desejamos destruir essa cristandade ingrata que nos deve o próprio nome e cuja tirania não podemos suportar por mais tempo".

Recuando no tempo e na história, qualquer pessoa verificará com alguma facilidade e sem demasiado esforço que medidas tanto ou mais drásticas que as adoptadas por Hitler contra os judeus foram tomadas por S. Luís e por Napoleão Bonaparte na França, pelos reis católicos na Espanha, por D. Manuel I em Portugal e pelo rei Edward na Inglaterra e que homens de todas as raças e religiões tomaram medidas idênticas. Os exemplos abundam. Se abrirmos a Bíblia, comprovamos que os judeus começaram a ser "perseguidos" nos primeiros alvores da história — ou, melhor, todos os povos se viram obrigados a tomar medidas de defesa contra eles.

Os papas não foram excepção à regra, pelo contrário. Vinte e oito soberanos pontífices ditaram cinquenta e sete bulas e éditos(2) que a "consciência universal" qualificaria hoje como racistas, anti-semitas e neo-nazis. Algumas dessas bulas obrigavam os judeus residentes em países cristãos a usarem um distintivo especial para se distinguirem(3) outras, proibiam-lhes o exercício de cargos públicos(4), o acesso à indústria, de viverem perto de cristãos(5), de possuírem terras(6), ou de se dedicarem à venda de objectos novos(7). O papa Pio V, por sua vez, ordenou a expulsão dos judeus dos Estados pontifícios(8).

Embora seja historicamente irrefutável que o povo judeu só não foi literalmente varrido da face da terra graças à protecção especial dos papas, não é menos certo que a Igreja católica sempre considerou os hebreus indivíduos especiais, estabelecendo em sua intenção medidas discriminatórias que, naturalmente, nos abstemos de qualificar. Por exemplo, a tão criticada medida hitleriana que proibia os alemães de servirem como empregados domésticos em casas de judeus, teve o seu precedente na encíclica "Impia judaeorum perfídia" do papa Inocêncio IV. Vários papas recordaram aos cristãos essa proibição e Eugénio IV foi particularmente severo nesse aspecto(9). Várias dessas medidas foram adoptadas posteriormente por diversos estadistas, entre eles, Hitler (referimo-nos às medidas tomadas em tempo de paz, entre 1933 e 1939). Assim, pois, e em conclusão, o mal chamado "anti-semitismo" não é uma criação hitleriana, mas judaica.

Como continua a suceder hoje em dia, a "grande imprensa" mundial não se contentou em denegrir sistematicamente a Alemanha e o seu regime político, silenciou deliberada e cuidadosamente uma série de factos que, a serem divulgados, teriam permitido aos povos europeus uma melhor compreensão do problema. Por exemplo, quando em 4 de Fevereiro de 1936 o hebreu David Frankfurter assassinou Wilhelm Gustloff, chefe do grupo nacional-socialista de alemães residentes na Suiça, só dois dos dezassete diários parisienses publicaram a notícia e, mesmo assim, sem mencionarem o extracto racial do autor do crime. O assassino de Gustloff classificou o seu próprio acto como um protesto ritual contra a política judaica nazi, mas, segundo o escritor hebreu Israel Shahak, as leis raciais de Nuremberga eram "infinitamente mais moderadas que os regulamentos da lei talmúdica sobre os gentios (não-judeus)"…

Mencione-se também "pour mémoire" o assassinato do legendário herói alemão das SA, Horst Wessel, perpetrado por um judeu do partido comunista alemão, o assassinato do coronel Konovaletz, líder dos nacionalistas ucranianos e protegido do Reich, perpetrado pelo judeu Wallach, membro da GPU, semanas antes do assassinato do adido da Embaixada alemã em Paris, Von Rath, e do de Simon Petliura, igualmente ucraniano, pelo hebreu Schwartz-Bart…

Em 7 de Novembro de 1938, um incidente aparentemente inesperado mas, de facto, cuidadosamente preparado de antemão, agitou ainda mais a reacção popular alemã e veio a precipitar os acontecimentos: o assassinato do secretário da Embaixada alemã em Paris, Von Rath, levado a cabo pelo hebreu polaco, Herschel Grynzspan. A indignação que se seguiu explodiu em todo o Reich. Alguns chefes mais exaltados das unidades de combate do Partido nacional-socialista organizaram de 8 para 9 de Novembro uma verdadeira vaga de anti-semitismo que veio a ser conhecida com o nome de Kristallnacht (Noite de Cristal): montras e escaparates de estabelecimentos judaicos apedrejados, pilhagem de armazéns e de casas, incêndio de sinagogas, agressões de todo o tipo…

Apesar de logo a seguir se verificar ter-se tratado de uma provocação para envenenar as relações entre a Alemanha e os seus vizinhos ocidentais, a versão oficial sustenta que o assassino era um louco, ou seja, que agiu por iniciativa própria. Também se disse o mesmo de Prinzip e Cabrinovic, os que em 1914 assassinaram em Sarajevo o herdeiro do trono da Áustria, Arquiduque Francisco-Fernando: agiram por iniciativa própria. Durante muito tempo acreditou-se nisso, hoje sabe-se que o principal implicado no assunto foi o governo sérvio.

O assassino de Von Rath, Herschel Grynzspan, afirmou que o atentado foi motivado pelo ressentimento causado pela expulsão para a Polónia dos seus pais (entrados ilegalmente no Reich). Se a lógica serve para alguma coisa, a afirmação de Grynzspan não sugere que a Polónia era bastante menos hospitaleira para os judeus que a Alemanha de 1938?…

Os principais dirigentes do III Reich negaram sempre a sua autoria moral ou material na organização dos distúrbios da Kristallnacht, embora se admita geralmente que Goebbels teve nela algum protagonismo. Não obstante, tudo leva a crer que falaram verdade. De resto, não se pode mover-lhes outro "processo por intenção", que processos desses houve demais no "tribunal" internacional de Nuremberga depois de 1945…

Seja como for e sejam quais forem os responsáveis pelo desencadear das violências, ninguém considerará louváveis os excessos da Kristallnacht, mas as constantes provocações judaicas também não podem ser votadas ao esquecimento, como se nada se tivesse passado. Depois da campanha propagandística mundial, do boicote económico e da guerra da fome movida contra a Alemanha, começava o assassinato de funcionários alemães no estrangeiro: foi a gota de água que fez derramar o copo…

Se a situação dos judeus alemães piorou em Novembro de 1938, a campanha anti-alemã que se seguiu em toda a Europa e na América, tornou-a ainda mais aguda e difícil. Em muitas cidades europeias, sobretudo na França, foram organizadas manifestações anti-alemãs que, naturalmente, só a podiam agravar. Se, noutros casos, a imprensa mundial se limitava a referir incidentes, agora carregava de tal maneira nas tintas, que o leitor de jornais mais imparcial tinha de admitir que uma coisa é exercer represálias contra italianos, espanhóis, turcos, portugueses, alemães ou chineses e outra, muito diferente, é apedrejar a montra do estabelecimento de um judeu.

O caso é que, em consequência ou a pretexto da Kristallnacht, as relações anglo-alemãs pioraram ostensivamente. O embaixador britânico em Berlim foi chamado a Londres para "informar sobre os acontecimentos de 8 de Novembro". O presidente Roosevelt, por seu turno, cortou relações diplomáticas com a Alemanha. Dias depois, a sinistra personagem declarava num discurso difundido em todo o país "…que mal podia crer que tais coisas — ou seja, apedrejar montras e queimar umas tantas sinagogas — pudessem suceder em pleno século XX".

Coisas mais graves estavam a acontecer em pleno século XX na Espanha, onde também se queimavam templos, se apedrejavam montras e onde um milhão de pessoas perecia. Também na Rússia, em pleno século XX, o camarada Estaline se entregava a uma carnificina humana perpetrada com requintes de asiática crueldade da qual eram vítimas, não apenas muitos russos decentes e honestos, mas até a flor e a nata da velha guarda revolucionária bolchevista!

Tudo isso sucedia em pleno século XX, mas nem a Grã-Bretanha chamou a Londres os seus embaixadores em Madrid ou em Moscovo para "informar sobre os acontecimentos", nem Roosevelt cortou relações diplomáticas com a Espanha ou com a URSS. Para Roosevelt, para Churchill e para todo o clã belicista, era muito mais grave destruir as lojas de uns tantos judeus de Berlim que assassinar funcionários alemães, centenas de milhares de espanhóis e um número incontável de russos!

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Notas:

1. Benjamin Disraeli, "Life of Lord George Bentick".
2. Desde a "Sicut Judacis non esset licentia" de Honório III (1217) até à "Beatus Andreas" de Benedito XIV (1755). Os soberanos pontífices que ditaram bulas contra o judaísmo foram Honório III, Gregório IX, Inocêncio IV, Clemente IV, Gregório X, Nicolau III, Nicolau IV, João XXII, Urbano V, Martinho V, Eugénio IV, Calisto III, Paulo III, Júlio III, Paulo IV, Pio V, Gregório XIII, Sisto V, Clemente VIII, Paulo V, Urbano VIII, Alexandre VII, Alexandre VIII, Inocêncio XII, Clemente XI, Inocêncio XIII, Benedito XIII e Benedito XIV.
3. Honório III, "Ad nostram noveritis audientiam", e Martinho V, "Sedaes Apostolica".
4. Eugénio IV, "Dudum ad nostram audientiam", e Calisto III, "Si ad reprimendos".
5. Paulo IV, "Cum nimis absardum", e Calisto III, "Si ad reprimendos".
6. Paulo IV, "Cum nimis absardum", e Pio V, "Cum nos nuper".
7. Clemente VIII, "Cum saepe accidere".
8. Pio V, "Hebraeorum Gens", e Clemente VIII, "Caeca et obdurata".
9. "Dudum ad nostram audientiam".

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