Em volta do “pensamento único”

Por Pedro Guedes (Último Reduto)

Em “La Nouvelle Inquisition – Ses acteurs, ses méthodes, ses victimes”, David Barney trata de desmontar com minúcia e notável clareza o “reductio ad hitlerum”, conceito usado por Leo Strauss para denunciar o procedimento consistente (e eu diria constante) de colar alguém ao “nazismo” com o intuito de o desacreditar publicamente e com efeitos de longa duração. Em Portugal, talvez porque o “nazismo” tenha andado lá mais por longe, é mais corrente a utilização do vocábulo “fascista/fascismo”, visto que a memória colectiva menos estupidificada, ao invés do texto constitucional, dificilmente embarcaria em associar Salazar e o Estado Novo à experiência alemã. É exactamente com base nesta “reductio ad hitlerum” que foi moldando os cérebros ao longo dos tempos que o povão – que nunca leu cinco páginas que fossem de História das Ideias Políticas – acompanha, meio frenético, a diabolização do “Nacionalismo”. O procedimento de que falava Strauss, beneficiando do avançar dos anos face aos conceitos iniciais (e aproveitando da progressiva deseducação das gentes), torna possível que sejam dadas às palavras uma elasticidade proporcional ao seu não-significado. Associa-se o nazismo ao anti-semitismo, daí se salta ao fascismo e a Pétain, tempera-se com franquismo e salazarismo, e, de caminho, vai no pacote meia América do Sul, a “extrema-direita” e o tal “nacionalismo”. Como a cereja, vem o “racismo” no topo do bolo. Os termos tornam-se assim sinónimos, não designando em si mesmos nada de concreto, mas antes servindo para denegrir o(s) visado(s). A ausência de rigor dos media e a disposição dos consumidores do papel em tomar como verdade incontestada o que neles se escreve faz o resto – como se verifica actualmente na utilização de expressões como “fascismo higiénico” para catalogar proibições de fumar.

Se o princípio é tão simples, o método não é mais complicado. Segundo Barney, aplica-se a técnica do “chef de gare”: une-se a locomotiva “direita” à carruagem “extrema-direita”; esta à do “fascismo”; segue-se a do “nazismo” e termina tudo na carruagem de “Auschwitz”. Isto feito, basta meter o comboio a circular…

O grande inconveniente do esquema é que esta legitimação da desinformação só funciona por referência ao passado, o que obriga o sistema mediático a fazer crer que o tal “fascismo” está sempre aí à porta, pronto para as curvas, sob pena da gravidade da ameaça parecer ridícula aos olhos dos destinatários. Neste quadro, é sempre útil ao sistema montado que existam uns quantos aniversários e haja quem os comemore ou que algum velhote que tenha andado aos tiros na segunda guerra seja capturado para que a opinião pública, absolutamente indiferente a quase tudo que não cheire a IRS, sinta que vivemos ainda num sombrio período. Como é evidente, para que a denúncia do “fascismo” mantenha toda a sua força psicológica, é necessário representá-lo como um fenómeno único na história da humanidade – o mal absoluto. Ora, isto ajuda a explicar a relativa indiferença com que se olha o comunismo, responsável por mais de cem milhões de mortos – “and still counting”…

Sucede que o mecanismo montado necessita deste pacto com o diabo, visto que de outra forma, em concebendo algo que lhe fosse comparável, relativizaria o tal mal absoluto, banalizando-o. É então impossível à construção mediática comparar Hitler e Estaline, ou imaginá-los sequer em plano idêntico. A tradução prática do mecanismo leva a que a um fascista seja um filho da mãe para toda a vida, ao invés de qualquer comunista que tenha decorado folhas e folhas de delirantes discursos soviéticos, que será sempre bem acolhido no mundo dos jornais, na edição ou na carreira universitária. Logicamente – segundo Barney – a construção do sistema beneficia de um facto histórico determinante: a aliança das democracias liberais com o simpático Estaline por alturas da guerra, ou seja, a aliança das democracias com um totalitarismo, tendo em vista abater um outro. Isto resulta em que é forçoso não colocar os dois totalitarismos em pé de igualdade, sob pena de se afundar a credibilidade da coisa, marosca que é inclusivamente assumida de quando em vez pelos seus executores. A este respeito, Jean Daniel lembra que se Hitler é igual a Estaline – se o "monstro" não é único – ele surgirá aos olhos da opinião pública um nadinha menos monstruoso, podendo mesmo levar algumas mentes a pensar como segue: se estamos em presença de dois “monstros” idênticos, porque razão se escolheu para parceiro de jogo um e não outro? E assim se torna a discussão em tema tabu: “il ne faut pas céder un pouce sur ce terrain, sinon ce sont toutes nos valeurs, toutes nos fidelités, toute notre memóire qui s’écroulent”, lembrava Daniel em artigo publicado no Nouvel Observateur. A tese, basicamente, é a velha e estafada teoria de que o comunismo é uma doutrina bonita pervertida apenas pela sua aplicação, o que podia colher não fosse o facto de se tratar de um mero juízo de valor.

Ora, vítima de tudo isto é qualquer grupo ou pessoa que pense para além do que, de forma simplista, poderíamos chamar a “direita permitida”. Aí chegados, entra o sistema em funcionamento atirando de imediato à cara as tais palavras-chave mencionadas, sistema que é auxiliado por um círculo vicioso. Se, como atrás se escreveu, qualquer estalinista de tempos que já lá vão tem lugar para fazer de opinion maker na comunicação social, não é menos verdade que é esta gente a principal interessada em branquear aquilo em que esteve envolvida, parindo assim implacáveis comités de vigilância da liberdade autorizada. Pegam nos textos e nas ideias e descontextualizam, primeiro passo para erguer processos de intenção que permitem lançar dúvidas e condenar na praça pública em função de presunções e do que não se disse, atingindo assim o efeito de contaminação desejado, por forma a determinar se o cidadão X é ou não “requentável”.

Em França, por exemplo, a Nova Direita (ND) foi durante muito tempo cliente habitual destas técnicas. Muito poucos cuidavam de saber que a redacção da revista Elements condenava o totalitarismo e não era adepta de uma leitura biológica da história; pelo contrário, a “intelectualidade” francesa – uma espécie de amigos do Eduardo PC ou do filósofo Carrilho – de imediato levantou as chapas obrigatórias para a ocasião: tratava-se de um grupo nazi! Em paralelo, as sucessivas posições da ND em favor do terceiro mundo e contrárias ao extermínio e uniformização das identidades dos povos do hemisfério Sul não mereceram bom acolhimento do complexo mediático-intelectual. Os tipos são racistas – exclamaram! A coisa tem explicação fácil. A polícia do pensamento – defensora acérrima da moral da moda e das ideologias dominantes – preocupa-se pouco com a imparcialidade e muito com a eficácia. Assim nasceu o agora tão falado “jornalismo de causas”, com intérpretes de usar e deitar fora, uns pobres diabos detentores da caneta enquanto não chatearem os donos dos pasquins respectivos. Estão assim as redacções carregadas de “desiludidos”, cenário que piorou com a queda do muro a que se sentiam ligados. São os desiludidos do comunismo, em crise de orfandade e amparo; os do trotskismo, arautos das causas “anti-discriminação” em favor dos seus interesses particulares; os desiludidos do Maio de 68 e de experiências revolucionárias de que se sentem actores ou herdeiros. É esta gente que marca as agendas e que realmente determina o que é lícito defender.

E não seria mau que todos pensassem um pouco no assunto. Uns porque andam – talvez inconscientemente, admito – de braço dado com a pólvora que um dia lhes pode rebentar nas mãos. Outros na medida em que, face ao quadro existente, dificilmente será possível erguer, com êxito, bandeiras de pensamento crítico sem consolidar posições no domínio da batalha das ideias e do combate cultural, recuperando, em boa parte, o velho conceito de “gramscismo de direita”.

Porque isto é para os nossos filhos e já não para nós, importa – mais do que nunca – ler, reflectir, escrever e divulgar, para que se torne verdadeiro o dito de Charles Champetier: “les grandes mutations idéologiques sont toujours fatales aux dinosaures de l’esprit: les ultimes crispations de leur vindicte sont aussi les dernières convulsions de leur agonie”.

Para quem não escrevia mais do que dez linhas há uma data de tempo, peço aos meus amigos desculpa por esta enorme maçada. Ora tenham um excelente fim-de-semana.

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