Intoxicação do Povo

Por António José de Brito (in «Agora», n.º 320, ano VII, 02.09.1967)

O número de livros, opúsculos, artigos sobre os acontecimentos do nosso tempo é, praticamente, incontável. E, salvo raras excepções, impera nesses trabalhos a maior falta de escrúpulos unida ao consabido princípio de que em relação à memória dos vencidos tudo é permitido e lícito.

Uma editorial, sempre preocupada em trazer o público português a par das calúnias despejadas no estrangeiro sobre o Nacional-Socialismo, fez traduzir e publicou, recentissimamente, um curioso volume intitulado "A Segunda Guerra Mundial", da autoria de um professor da Universidade de Lyon, o Sr. André Latreille. Este historiador, com todas as suas responsabilidades docentes, não hesita em escrever, por exemplo, isto: «Conhecemos, hoje, o plano de acção de Hitler pelo acordo secreto firmado com os chefes de Estado-Maior na Chancelaria do Reich a 10 de Novembro de 1937.» É simplesmente prodigioso! Foi em 5 de Novembro de 1937 que se celebrou na Chancelaria uma reunião, presidida pelo Führer, de altas personalidades militares e também civis (von Neurath, v.g.). Durante o processo de Nuremberga, a acusação exibiu um documento, datado de 10 de Novembro, que pretendia fosse a acta daquela reunião e que constava de um discurso de Adolf Hitler, seguido de um ou outro comentário dos circunstantes. Essa pretensa acta exibia a assinatura de um dos oficiais presentes, o coronel Hossbach, e daí que passasse a ser conhecida pela denominação de “protocolo de Hossbach”. Nunca representou um acordo de espécie nenhuma, a não ser na imaginação delirante do Sr. André Latreille. É assim que se ensina e escreve a História, em França, na Universidade de Lyon. Não vão nada mal!

Seja-nos permitida uma observação marginal acerca do citado protocolo de Hossbach. Que, em Nuremberga, um Tribunal, composto por representantes das potências vitoriosas e destinado a julgar os inimigos da véspera, o tenha dado por autêntico, não nos admira nem espanta. O que nos admira e espanta é que lhe dê crédito um escritor de boa fé, como Benoist-Méchin, na sua "Histoire de l’Armée Allemande", e, ainda para mais, socorrendo-se de argumentos assaz estranhos.

Em "As grandes controvérsias da História Contemporânea", do insuspeito anti-fascista, Sr. Jacques de Launay, deparamos com esta esclarecedora passagem: «Interrogámos o coronel Hossbach..., que nos deu as indicações seguintes: Não redigi nenhum processo verbal durante a entrevista que se realizou na Chancelaria do Reich em 5 de Novembro de 1937, mas fiz posteriormente um relato dessa entrevista num exemplar manuscrito datado de 10 de Novembro de 1937... O meu relato manuscrito original que nunca mais vi... não era... um relato literal das declarações de Hitler... O documento geralmente conhecido, cópia passada à máquina do meu relato original... apresentada no Tribunal Internacional de Nuremberga constitui uma prova?... não posso afirmar com certeza se o documento é uma reprodução absolutamente exacta e literal do meu relato original... Hitler... estava realmente decidido em 5 de Novembro... a correr o risco de uma guerra?... A resposta a esta pergunta há-de ocupar, sem dúvida, ainda por muito tempo, os historiadores e os psicólogos.»

Comecemos por frisar ter sido Hossbach um anti-nazi destacado. Ele alude, com efeito, nas declarações de que transcrevemos excertos, ao «general Beck ... de quem ... era colaborador íntimo». Ora Beck, um dos traidores que participaram na conjura e no atentado de 20 de Julho de 1944 contra a vida do Führer, desde o início tomara posição de primeira linha entre os inimigos do III Reich. Hossbach, seu íntimo colaborador, abundava nas mesmas ideias.

Pois bem! Apesar do seu anti-nazismo, Hossbach não tem coragem para garantir, na qualidade de ouvinte do discurso de Hitler de 5 de Novembro, que este manifestara um intuito firme de recorrer à guerra —, primeiro ponto. Segundo ponto: o relato de Hossbach, confessadamente, não é um relato integral e literal das asserções do Führer. Terceiro ponto: foi escrito de memória, cinco dias depois, e por um adversário. Quarto ponto: Hossbach nem sequer assegura que o documento de Nuremberga constitua a reprodução absolutamente exacta do seu relato original; se o último, pelas razões apontadas, merece ser encarado com suspeita, que dizer de um texto que nem se sabe se é posterior à reunião de 5 de Novembro) do amigo do general Beck?

Tudo leva, portanto, a pôr radicalmente em dúvida o chamado “protocolo de Hossbach”. Benoist-Méchin, no entanto, procede de outro modo. E tenta até utilizar respostas de Goering, no decorrer do seu interrogatório, em Nuremberga, em favor da autenticidade do referido protocolo. Aqui entramos no domínio do incompreensível. Efectivamente o que Hermann Goering disse foi que, no protocolo de Hossbach, havia, a par de verdades, inexactidões flagrantes. Claro! Pode-se não tomar em consideração semelhante testemunho, e, nesse caso, ele não serve para provar a tal autenticidade. Mas, se aceitarmos o testemunho, é impossível deixar de concluir pela falsidade do protocolo em questão, o qual, então, ou teria sofrido interpolações ou teria sido redigido de forma deficiente, desde início. Benoist-Méchin, todavia, pessoa inteligente, nada facciosa e cujos constantes esforços de objectividade merecem homenagens, extrai do depoimento do desventurado e heróico Feld-Marschall, precisamente, o contrário daquilo que, em boa lógica, se deve inferir. Vá-se lá descobrir porquê! Mistério insondável!

Regressemos, porém, ao Sr. Latreille. Sua Excelência refere-se, nestes termos, aos massacres da ‘Libération’: «Um pouco por toda a parte... tinha havido execuções sumárias de pessoas acusadas de colaboração, com simulacro de julgamento ou não. O seu número total não deve ter excedido 10.000... Depois, com a instalação dos novos poderes os excessos acabaram por diminuir (e foram, na verdade muito inferiores ao número de 105.000 execuções que mais tarde se anunciou, numa verdadeira lenda negra)». Não está má a lenda negra! Quem assegurou que o número de execuções se elevou a 105.000 não foram detractores do gaullismo e da democracia, foi um elemento destacado dos novos poderes instalados no Governo de França: o socialista Adrien Tixier, ministro do Interior. Adrien Tixier comunicou a aludida cifra de execuções ao coronel Passy — combatente da resistência — que tornou públicas as palavras daquele homem de Estado, sem ser objecto de qualquer desmentido. Aliás, a existência das afirmações de Adrien Tixier nem um germanófobo e anti-hitleriano tão convicto como o Sr. Robert Aron se atreve a negá-la. Na sua "Histoire de la Libération" procura ele mostrar que o depoimento de Tixier pouco vale, mas, nem por sombras, o considera inexistente. Entende o Sr. Robert Aron que, em Fevereiro de 1945 — data em que situa as confidências ao coronel Passy — não havia possibilidade de conseguir ainda estatísticas dignas de fé acerca das execuções sumárias, além disso, não se devia tomar muito a sério o ministro do Interior socialista que era um impulsivo, um homem de ‘boutades’. Só é pena que o Sr. Aron antecipe para Fevereiro as conversações com o coronel Passy, que tiveram lugar meses depois, e que não nos informe se este último não era senão um tonto, capaz de dar importância a ‘boutades’, ou, também, por coincidência, um impulsivo dado a fantasias.

De qualquer forma, o Sr. Robert Aron, ao menos, discute o valor das confissões de Adrien Tixier. O Sr. Latreille não. Manhosamente, nem contesta que se tivessem verificado, nem analisa a validade das mesmas. Faz melhor! Não se lhes refere! Some-as, com desembaraço, na caixa do ponto. Em vez de as criticar, oculta-as. E, assim, o número de 105.000 execuções, apresentado por um ministro do Interior, passa a ser função de uma lenda negra. Esplêndido! Parabéns!

Para finalizar ponhamos em destaque uma referência do Sr. Latreille ao Processo de Nuremberga: «A publicação dos debates enche hoje trinta e um volumes, de seiscentas páginas cada.» Sua Excelência não esclarece que há várias edições: uma inglesa, outra francesa, etc. Admitamos conforme é natural que exclusivamente está em causa a versão francesa. Trinta e um volumes, todos de seiscentas páginas! Admirável geometrismo e sentido da igualdade. É pena, contudo, que, empunhando logo o tomo XX, por acaso, ainda nas nossas mãos, víssemos que tem seiscentas e oitenta e oito páginas, isto é, quase setecentas.

De certo trata-se, agora, de uma pura questão de pormenor. Simplesmente serve muito bem para evidenciar a disciplina e a precisão do método historiográfico do anti-totalitário profissional Sr. André Latreille. Dá lindos exemplos de rigor científico o egrégio professor.

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