A Europa como espaço de civilização

Por Juan António Llopart (Intervenção na VII «Mesa Redonda» da associação «Terre et Peuple», que teve lugar em Paris no dia 7 de Outubro de 2001)

Já foi dito e repetido várias vezes que o século XX terminou entre os anos de 1989 e 1991, após a desintegração do bloco soviético e o desmembramento da URSS. Podemos assim dizer que os contemporâneos da queda do Muro de Berlim, a 9 de Novembro de 1989, tiveram a sensação de viver um momento histórico. Da mesma maneira, podemos dizer que o século XX começou a 11 de Setembro com o ataque aos EUA.

O mundo pós-guerra fria que lhe sucedeu não é, por muito que custe a Fukuyama, o mundo do fim da história, o mundo da universalização entendida como a extensão «ad infinitum» da democracia burguesa.

Para os povos e nações da Europa, o futuro está em aberto. As perspectivas estão ainda por definir: imprevisibilidade do universo político-estratégico, emergência e estruturação de vastas regiões planetárias, necessidade de afirmação de um Grande Espaço europeu.

O projecto da Nova Ordem Mundial (NOM) propõe uma ordem internacional fundada sobre o universalismo do direito e sobre o triunfo do mercado. Mas a NOM, nas suas declarações, não vai mais além, deixando o caminho livre às mais diversas interpretações. Para uns, a NOM seria unipolar: os Estados Unidos, de agora em diante, ostentariam em exclusividade o papel de polícias do mundo. Para outros, a NOM deveria ser «onusiana», assumindo a ONU o papel que Franklin D. Roosevelt tinha prevista para ela. Hoje, é nos imposta a primeira versão.

O sonho de uma NOM americanocêntrica sobrepôs-se, certamente, às demais versões. A diplomacia americana centrou-se numa definição estreita, já que não é responsável, dos interesses do país. E o liberal-mercantilismo nacional pretende fazer do comércio, para parafrasear Clausewitz, a continuação da guerra por outros meios. A diplomacia ianque é uma diplomacia de assalto e acosso económico. A mundialização impõe-se aos factores estatais mais poderosos, sem possibilidade de escolha.

A proliferação de Estados desde o final da guerra fria não nos deve fazer cair em erro. Esta forma política não detém a exclusividade do jogo mundial, pois o sistema clássico de Estados é hoje acompanhado por outro sistema de actores «exóticos e anónimos»: empresas transnacionais, organizações não-governamentais, máfias, seitas, etc.

A história não contém em si promessa alguma, não é portadora de nenhum «sentido»; o famoso «fim da história» anunciado por Francis Fukuyama é uma falácia em todos os sentidos. Vivemos, efectivamente, o fim de uma concepção escatológica da história. A crença numa história transparente e apreensível pela razão esfuma-se, porque é o que é: muito mais uma ilusão do espírito do que uma realidade.

Em 1951, em plena «época quente» da guerra fria, o jurista e politólogo alemão Carl Schmitt julgava impossível a extensão de um único sistema político, económico e social à totalidade da superfície terrestre. Contra o universalismo da «ilusão tecno-industrial do mundo» mantido tanto por marxistas como por liberais, Schmitt anunciava a possibilidade de um «novo pluralismo» sucessor da bipolaridade Este/Oeste. O futuro «nomos» da Terra fundar-se-ia sobre a coexistência de uma pluralidade de entidades «portadoras de uma ordem autónoma»: os «Grandes Espaços». Carl Schmitt entendia o termo «nomos» como a ordenação política, social e económica do mundo («nomos», em grego, significa «organização»).

Jogando com o princípio de ingerência conforme à razão política, C. Schmitt propunha a definição de um novo «nomos» fundado no equilíbrio entre Grandes Espaços, adoptando cada um deles a sua própria doutrina Monroe.

Falta precisar o que é um Grande Espaço. Carl Schmitt designa deste modo as grandes unidades de «sentido» e de poder que observa em emergência. Particularmente estruturados por uma ou mais potências directoras e economicamente auto-centrados, a sua estatura e zona de influência estende-se por cima dos limites de um Estado-Nação. Um Grande Espaço seria um bloco de nações reagrupadas sobre bases geográficas, históricas, culturais e económicas e dotado de capacidades políticas e estratégicas. Os Estados-Nação não poderão esperar que a massa crítica exija a extensão dos seus horizontes, pois só os Grandes Espaços serão capazes de exercer com eficácia a completa soberania.

Como explicou Jean Thiriart, «não pode existir uma grande quantidade de especializações (em produtos ou serviços) senão ultrapassando um certo limiar crítico. O «limiar crítico» é um dado essencial para quem queira compreender a história moderna. História intimamente ligada à tecnologia.

Um padeiro não pode viver senão numa povoação com pelo menos 500 lares. O dono de uma garagem, numa cidade de 5000 lares. Uma indústria siderúrgica, num país de 25 milhões de habitantes. Uma fábrica de camiões pesados, numa população de 500 milhões. O limiar crítico da indústria aeronáutica situa-se num país de pelo menos 100 milhões de habitantes. O lançamento de satélites com êxito e amortizável exige um país de, pelo menos, 200 milhões de habitantes. A investigação fundamental em física não pode ser financiada senão por superpotências militares (250 milhões)».

A globalização das relações internacionais impõe novas formas políticas. Os mundialistas sonham com a constituição de um governo mundial, sonho que cada dia se evidencia mais como uma quimera. Constituída por várias culturas, povos e etnias diferenciadas, a humanidade não é uma unidade de pensamento, de concepção nem de acção susceptível de dar nascimento a uma república universal qualquer. Quando a «comunidade internacional» evoca este propósito, Julien Freund compara-a a uma «espécie de mercado de moral, de política, de direito, de economia, de história e de filosofia da história que não pode ocultar quão vaga é esta definição». Nenhum centro de poder é possuidor pleno nem da vontade nem dos meios para impor uma ordem universal. Numa palavra, o mundo é um «pluriversum» (C. Schmitt), uma pluralidade de colectividades particulares e independentes.

Entre o nacional e o mundial, encontram-se os Espaços de Civilização. É sobre este facto espacial que se estruturam as novas territorialidades económicas; e é também sobre este facto que novas unidades políticas estão prestes a nascer, a partir do Estado-Nação, tal como este emergiu lentamente, durante a Idade Média, a partir da ordem senhorial. As regiões planetárias, mesmo as mais incertas, devem considerar-se como o núcleo dos futuros Grandes Espaços.

Sem limites, um espaço político não pode existir; a lógica política é uma lógica de enraizamento territorial, de fronteiras que delimitam o campo do exercício da soberania. O futuro Grande Espaço Europeu deverá ser necessariamente limitado, o que implica uma reflexão prévia sobre esses limites.

A Norte e a Oeste, as fronteiras do continente europeu encontram o seu «limes» evidente nos oceanos Árctico e Atlântico. No Sul, apesar do lirismo mediterrânico, é evidente que, após as conquistas árabes do Medievo, o «Mar Branco» (nome árabe do Mediterrâneo) alberga nas suas costas Norte e Sul dois tipos diferentes de civilização. Esta é também a principal razão para excluir a candidatura turca à União Europeia. A Este, pelo contrário, os limites que separam a Europa e a Ásia são menos evidentes. Após o golfo da Finlândia-Mar de Azov, a península europeia funde-se com a imensidade da planície norte-asiática; o espaço abre-se e as fronteiras do velho continente flutuam ao ritmo dos movimentos dos povos e das correntes de civilização. Assim, tivemos a seu tempo a Rússia de Kiev (sécs. IX a XII) edificada como vanguarda europeia sobre o eixo do Báltico ao Mar Negro (recordemos que no ano de 1044 o Grão-duque Iaroslav enviou em matrimónio uma das suas filhas a Henrique I de França); mas as invasões mongóis do século XIII alteraram a situação. Moscovo caiu em 1238, Kiev resistiu até 1240 e, por muitos anos, a Ásia estendeu-se desde Chipre até ao Dniepr. No século XVI, após a tomada de Kazán (1551) e de Astrakán (1556), Ivan o Terrível estende a «ecumene» europeia por todo o Volga. Moscovo torna-se um dos pólos espirituais da nossa civilização. No século XVIII, após novas vitórias, o geógrafo oficial da corte de Pedro o Grande, Tatichtchev, coloca nos Urais o limite geográfico entre a Europa e a Ásia. Estas modestas montanhas, facilmente franqueáveis, nada mais são do que um simples convencionalismo: depois da aventura dos cossacos de Yermak, no século XVII, a Rússia tomou posse das imensidades siberianas e a Europa, enquanto civilização, estendeu-se, de facto, desde o Atlântico até ao Pacífico.

Na sua infinita riqueza, a tradição política europeia apresenta-nos, fundamentalmente, três tipos de «polis»: a Cidade, o Estado e o Império. Os dois primeiros modelos convêm aos pequenos espaços mais ou menos restringidos, e é por isso que a ideia de «Império» merece actualmente a nossa atenção. A concepção imperial é possuidora de conotações precisas enquanto objecto de estudo no campo da filosofia política: o Império é um tipo de unidade política que associa as etnias, os povos e as nações mais diversas, reunidas em torno de um princípio de soberania de carácter moral. Respeitador das identidades, o Império é animado por uma soberania fundada nas alianças mais do que no controlo territorial directo. Fundar um Império, já foi dito, é circunscrever um mundo. Geralmente coincidente com uma área cultural, o Império é, efectivamente, a expressão política institucional do «patriotismo de civilização» (J. Evola).

Assim, face aos EUA e às novas civilizações emergentes, a Europa tem de se construir sobre uma base federal que reconheça a autonomia de todos os seus componentes e organize a cooperação entre as regiões e as nações que a constituem. A civilização europeia construir-se-á sobre a soma – não a negação – das suas culturas históricas, permitindo assim a todos os seus habitantes tomar plena consciência das suas origens comuns. A chave de cúpula desta Europa deve ser o princípio de subsidiariedade: em todos os níveis, a autoridade inferior delegará o seu poder na autoridade superior apenas nos terrenos que escapam à sua competência. O novo «Império», que será um Império de Vladivostok a Reiquejavique, representa de alguma forma a «Grande Jónia» no plano do pensamento e a «Grande Roma» no plano do poder político.

Para isso, a Europa deve libertar-se do jugo que a asfixia desde 1945. Trata-se de expulsar os EUA da Europa. Por todos os meios. Há que considerar tudo para destruir a presença americana na Europa. O nosso objectivo deve ser: nem um só soldado americano nos territórios europeus. Não se trata, pois, de tomar distâncias. Trata-se de destruir a política americana na Europa, de expulsá-los dela.

Celtas, germanos, gregos, eslavos, escandinavos, latinos, iberos, ou mais exactamente Nós, os seus descendentes, temos que nos considerar agora um único povo, herdeiros da mesma terra, uma imensa pátria com recursos colossais em matérias-primas e em energias humanas, nascida de uma História comum. A Grande Europa será o maior território político unificado de toda a história da humanidade, estendendo-se sobre catorze meridianos. «Só existe política para aqueles que aspiram à grandiosidade», dizia Nietzsche.

A nossa fronteira está na Mongólia frente à China. Sobre o Atlântico e o Pacífico frente à república imperialista norte-americana, superpotência única mas cujo declínio geoestratégico e cultural começa a dar os seus primeiros sintomas. E sobre o Mediterrâneo e o Cáucaso, frente ao bloco muçulmano que será a primeira fonte de ameaças, mas também, se formos fortes, um excelente parceiro…

Temos a sorte, Nós, descendentes de povos irmãos, de possuir um espaço potencial que poderá constituir para os nossos filhos aquilo que Carlos V sonhou e que não pôde manter: «um Império sobre o qual o Sol nunca se põe». Finalizo esta intervenção com umas palavras de G. Faye do seu livro «Arqueofuturismo» que expressam de forma clara, o que poderíamos denominar de Europa-esperança:

«A constituição de um conjunto eurosiberiano seria, para a História humana, uma revolução muito mais importante que a efémera construção da União Soviética ou dos Estados Unidos da América. Este acontecimento de alcance mundial só se poderia comparar à construção do Império Chinês ou do Império Romano.

Amanhã: do golfo de Brest ao de Port Arthur, das nossas ilhas geladas do Árctico ao Sol vitorioso de Creta, da meseta da estepe e dos fiordes aos montes baixos, cem nações livres e unidas, agrupadas num Império, poderiam talvez conceder-se o que Tácito chamava o Reino da Terra, Orbis Terrae Regnum.»

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