Recorda-se Rolão Preto

Por Francisco de Paula Dutra Faria (in "A Rua", n.º 84, 19 de Janeiro de 1978)

Sinal evidente de como vão mudados os tempos (e os ventos…) desde aquela madrugada sinistra de Abril de 1974 – um grupo de estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa evocou agora nas colunas de "O Dia" a memória de Rolão Preto, recentemente falecido, definindo-o quer como um dos fundadores do Integralismo Lusitano (face à mediocridade reinante e ao desprestigio total das esferas da nova cultura oficial, é tempo - dizem estes estudantes - de afirmar bem alto que à juventude compete determinar, aceitar ou recusar a herança histórica transmitida pela geração integralista) quer também, não o esqueceram, como o animador e o chefe, mais tarde, daquilo a que eles chamam (e, de facto, foi) "a epopeia do Nacional-Sindicalismo".

Como um dos poucos hoje ainda vivos da patrulha inicial do Nacional-Sindicalismo, permita-se-me que muito comovidamente me associe a esta homenagem prestada por jovens que, a menos de três anos do Alcácer-Quibir que reduziu Portugal ao pobrezinho e sufocante rectângulo ibérico, se atrevem (e galhardamente o fazem) a soprar com vigor em cinzas que pareciam mortas, para que se reanime a chama de outrora e volte a aquecer o coração dos portugueses.

De facto, o que foi o papel de Rolão Preto no movimento dos "camisas azuis" (azuis, mas de operária ganga) e o que foi a influência exercida por este movimento no Portugal da década de 30 "são matérias que exclusivamente à História compete julgar". Para que, porém, a História possa pronunciar-se, haverá, então, que não deixar cair no esquecimento, para que intencionalmente haviam sido relegados, nem esses anos da vida portuguesa, nem os homens que durante esse período souberam interpretar e encarnar as esperanças e aspirações do português de então.

Recorda o texto que "O Dia" publica terem-se referido alguns jornais – da esquerda, evidentemente – ao que teria sido "o passado nazi" de Rolão Preto, ao noticiarem a sua morte. Alusão, contra a qual os estudantes protestam.

Efectivamente, iludidos por alguns aspectos exteriores (e secundários) do Nacional-Sindicalismo (tais como a camisa azul como uniforme, a braçadeira encarnada com a Cruz de Cristo, as brigadas de choque, os desfiles mais ou menos militarizados…), alguns teriam sido levados a pensar que se tratou de um movimento aparentado com o fascismo italiano e com o nacional-socialismo alemão: mas o próprio Rolão Preto sempre o negou e já em plena segunda guerra mundial (quando as tropas alemãs triunfavam invariavelmente em todos os campos de batalha e a bandeira com a cruz gamada se desfraldava vitoriosa por sobre quase todas as capitais da Europa) claramente manifestou as suas preferências, recusando-se a ouvir sequer os que lhe diziam ter chegado o momento oportuno para ressuscitar em Portugal o Nacional-Sindicalismo, que as circunstâncias do momento logo identificariam então com o nazismo…

De resto, bastará talvez lembrar a origem ideológica dos que fundaram com António Pedro o Nacional-Sindicalismo e confiaram a Rolão Preto a direcção do vespertino que foi o órgão do movimento – a "Revolução", na sua segunda fase – para termos de concluir que (postas de lado insignificativas semelhanças de estilo e de indumentária) muito pouco ou mesmo nada tínhamos de comum com as ideologias ao tempo imperantes em Roma e em Berlim.

António Pedro militara com o extraordinário poeta que foi Guilherme de Faria numa vaga e romântica tentativa de rejuvenescimento do velho e simpático Partido Legitimista. António do Amaral Pyrrait – alma e verbo de fogo – fora aluno dos jesuítas. António de Sousa Rego – vitimado pela tuberculose com pouco mais de vinte anos – era um leitor quotidiano e atento de Jacques Bainville. António Lepierre Tinoco ainda era "caloiro" da Faculdade de Direito e já lia Georges Sorel. Quanto a mim, familiarizara-me com o pensamento de Maurras antes mesmo de ler António Sardinha. E Júlio Álvares Pereira de Matos chegara-nos de Paris, onde fora (estudante no "Quartier Latin") "camelot du Roi".

Relativamente a Rolão Preto, até assumir a direcção da "Revolução", onde se revelaria um empolgante jornalista, um orador de poderosa garra e um espantoso dinamizador de homens (mas eu sonhei ou houve por aí alguém que o tenha classificado de "pobre diabo"?) apenas publicara um livro, "A Monarquia é a Restauração da Inteligência", mas um livro que figurava na biblioteca de todo o bom integralista, a par das obras de Sardinha, de Pequito Rebelo, de Hipólito Raposo.

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