Desmontando o «islamofascismo»

Por Rodrigo Nunes (Batalha Final)

Na guerra da cultura e das ideias as terminologias contam, e muito. São frequentemente indicadores fiéis das visões do mundo que se vão impondo generalizadamente à sociedade e a que aderem as pessoas. Com cada vez maior assiduidade surge o termo islamofascismo associado à análise política que parte de alguns sectores, tradicionais inimigos da luta nacionalista. Analisemos a validade dessa associação ou invenção terminológica e vejamos as suas origens, objectivos, legitimidade e moralidade.

Primeiramente é preciso situar o surgimento do termo. O vocábulo islamofascismo generaliza-se numa altura em que, por todo o Ocidente, o Islão, como um todo, é visto como uma ameaça descontrolada e um perigo aos chamados valores civilizacionais do Ocidente. Naturalmente que isto ocorre na sequência de acontecimentos recentes ligados a acções terroristas reclamadas em nome do Islão e de manifestações de intransigência religiosa pouco compreensíveis à luz das modernas e seculares sociedades europeias. Existe assim hoje, indiscutivelmente, na opinião pública ocidental, uma imagem generalizadamente negativa do Islão.

A associação à ideia de fascismo procura agravar essa imagem negativa servindo-se de uma ideologia – o fascismo – que é percepcionada pelo cidadão comum como ligada aos maiores flagelos do século XX. Nada mais é, portanto, que sustentar a hostilidade face ao Islão, alimentando a percepção negativa que as populações têm do fascismo, fomentada por uma visão unilateral da História tornada oficial e incontestável no pós-guerra, procurando passar a ideia de que entre ambos os fenómenos existirá uma particular similaridade. Não é assim tão estranho, o rótulo fascista serve hoje qualquer tentativa de ofender ou desconsiderar politicamente sem precisar ser empregue com um mínimo de propriedade.

Origens e propósitos da ideia

O termo islamofascismo surge inicialmente nos EUA, nos meandros neo-conservadores e nalguns sectores liberais. Aqui é preciso, antes de mais, referir, porque é importante, que por fascismo estas pessoas entendem sobretudo o nacional-socialismo. A associação entre Islão e fascismo é, pois, o resultado natural da própria origem e essência do neo-conservadorismo, um movimento político ligado aos lobbies judaicos norte-americanos e principal impulsionador da política externa dos EUA e da defesa intransigente dos interesses locais e globais israelitas. Sendo conhecida a origem trotskista de alguns dos seus mentores e a influência do pensamento straussiano na sua estratégia de actuação cultural torna-se fácil agora montar o puzzle e perceber a origem e razões de tão espúria associação de conceitos.

Conjugar o islamismo com o fascismo é apenas uma forma de mesclar os inimigos tradicionais do povo judaico numa ameaça actual e exportá-la para outros sectores políticos, tornando-a referência para o cidadão comum, como um eficaz slogan publicitário que mecanicamente se apregoa sem grande reflexão, e que pega… O Islão é actualmente a ameaça maior ao Estado de Israel e o nacional-socialismo é o histórico inimigo tornado eterno e aquele que é necessário, sempre e por todas as formas, denegrir e ao mesmo tempo manter vivo, como um fantasma que não pode ser deixado perdido no tempo. Ainda recentemente li mais um episódio desta comédia, com o artigo de David Meir-Levi (mais um dos judeus do neo-conservadorismo) intitulado “Hamas Uber Alles”. Dispensam-se mais comentários.

Encontrada a origem do termo islamofascismo e os objectivos de quem o procura vulgarizar analisemos então a legitimidade dessa associação

A validade da ideia

Antes de prosseguir é preciso relembrar que existe à partida uma grande diferença entre uma doutrina estritamente política e uma doutrina religiosa, depois, tanto o fascismo como o Islão não são movimentos monolíticos, no seu seio convivem ou conviveram correntes razoavelmente distintas. A análise que segue assenta por isso na síntese de características que são, aproximadamente, definidoras dos dois fenómenos tomados no geral e que permitem um exame comparado.

O fascismo e o Islão são, como veremos, fenómenos completamente distintos e não passíveis de comparação e muito menos associação. O fascismo é um movimento de cariz nacionalista, mais autenticamente no caso nacional-socialista mas igualmente válido para as outras manifestações históricas do fascismo. O Islão, pelo contrário, é um fenómeno anti-nacionalista, é tendencialmente universalista e integracionista de base, procurando ultrapassar e subjugar as manifestações nacionalistas.

O fascismo é um movimento revolucionário enquanto este Islão que ameaça a Europa é marcadamente reaccionário. Aqui os termos revolucionário e reaccionário não devem ser entendidos em face de contextos históricos específicos, pois nesses um movimento será revolucionário apenas na medida em que pretenda um corte radical com o que existe. Devem por isso ser lidos no seu sentido lato, de sempre, o que ultrapassa meras contingências temporais. É a variável tempo que estabelece a diferença; o islamismo é reaccionário porque pretende o regresso a uma realidade passada e marcada no tempo, o fascismo, por outro lado, é revolucionário porque aspira a uma nova ordem e uma nova era, servindo-se de um passado mítico para criar um novo futuro.

O fascismo, como observou Locchi, faz o culto da superação humana, do sobre-humano nietzschiano se quisermos, ao Islão tal formulação é completamente estranha e inaceitável.

O fascismo afirma uma postura no mundo anti-burguesa e heróica, exalta a força criadora e a acção onde, o Islão, pelo contrário, é contemplação e conformismo.

O fascismo exalta a diferença onde o Islão procura a sua eliminação, pelo que é igualitarista.

Não existe, portanto, qualquer legitimidade na junção de um conceito ao outro, os seus princípios fundamentais são completamente diferentes e até incompatíveis.

Há porem três excepções onde podemos encontrar alguma convergência e que devemos analisar separadamente, o problema é que estas excepções não são específicas do Islão ou do fascismo e estendem-se a muitas outras realidades, não caracterizam, pois, exclusivamente, qualquer um destes fenómenos.

A primeira é um caso peculiar, pois sai fora dos objectivos pretendidos por quem promove a disseminação da ideia islamofascista. Tanto o fascismo como o Islão rejeitam uma visão economicista do homem, o que no caso do Islão é inevitável pois uma religião é, à partida, necessariamente anti-economicista, o que significa que esta característica o fascismo partilha-a com qualquer religião (como aliás a partilham todos os movimentos políticos ou sociais que rejeitam o economicismo, e são muitos).

Naturalmente que os objectivos procurados ao associar o fascismo ao Islão não assentam nisto, mas, inadvertidamente, esta é uma razão escondida, que não será admitida, para a associação, o que é facilmente perceptível se conhecermos os grupos que estão por detrás desta invenção terminológica, todos eles representam, de facto, uma visão economicista e materialista do mundo, como adiante verificaremos, e, consciente ou inconscientemente, vêem no fascismo a rejeição dessa mundividência.

Mas no que se baseiam então, abertamente, os propagadores dessa suposta similaridade entre os fenómenos considerados? Na natureza anti-democrática e numa alegada tendência totalitária do fascismo e do islamismo radical.

É verdade que ambos serão anti-democráticos, mas o que significa a apologia da democracia por si só, sem qualquer outro enquadramento, se as democracias podem também servir os mais infames e agressivos regimes?

E, a título de curiosidade, se o objectivo é a exaltação da “democracia” porque não islamocomunismo em vez de islamofascismo? É claro que compreendemos que a associação não poderia ser feita ao comunismo, é que o comunismo, apesar de tudo, também saiu vencedor da ordem mundial que emergiu do pós-guerra, tem no Ocidente quem o defenda em todos os sítios, na cultura, no ensino, nos parlamentos, já nos fascismos é permitido bater à vontade, valem todas as mentiras e distorções, a sua defesa é matéria proibida e anos sucessivos de intoxicação cultural permitem que o cidadão médio, sem saber sequer realmente o que é o fascismo, acene a cabeça em concordância com tudo o que suje a “besta”. Bom, e depois, convenhamos, é que se o nacional-socialismo representou a revolta da Europa face ao liberalismo e uma reacção ao domínio judaico, o comunismo, pelo contrário, teve na sua revolução e nas suas estruturas de poder o bom povo eleito, e isso também faz a diferença, pelas razões que expliquei anteriormente.

Quanto ao suposto totalitarismo do fascismo ele será muito diferente do que encontramos no Islão e, sobretudo, no que toca a voragens totalitárias, os inventores do islamofascismo e os regimes que representam não recebem lições de nada ou ninguém, como explicarei adiante.

Averiguemos então a autoridade moral de quem se baseia nestes dois pontos para sustentar a ideia de um islamismo fascista.

Autoridade moral dos grupos promotores do novo conceito

Comecemos pela questão democrática… Não é por serem realidades anti-democráticas que estas doutrinas são relacionadas e atacadas, os países ocidentais, campeões da “liberdade e democracia”, como várias das áreas políticas que sustêm a democracia-liberal, nunca mostraram qualquer problema em apoiar regimes anti-democráticos e pouco respeitadores dos “direitos humanos”, desde que convergentes com os seus próprios interesses geopolíticos e económicos. São vários os casos presentes e passados de países onde vigoram (ou vigoraram) regimes autoritários (e nem fascistas), limitativos da existência de oposições internas, que merecem (ou mereceram) o apoio dos paladinos da democracia, com quem mantêm (e mantiveram) inclusive alianças estratégicas.

Se, por outro lado, o objectivo é associar aos regimes anti-democráticos a exclusividade de uma qualquer natureza beligerante e expansionista, então o objectivo é categoricamente falhado, visto que as democracias se têm mostrado verdadeiramente exemplares no mesmo tipo de actuação, algumas até recordistas. Acaso os regimes democráticos não têm mostrado particular apetência belicista e expansionista? Têm de facto! Ou a intervenção militar noutros países, quando feita em nome da democracia, torna-se automaticamente legítima? E sobretudo, que ironia que esta associação seja levada a cabo precisamente pelos movimentos que, ao abrigo de políticas como as definidas no “Projecto para o Novo Século Americano”, mais pressionam a política externa americana para o intervencionismo global.

E quanto ao totalitarismo de ambos? Esclareçamos a questão, é verdade que o fascismo procurou o todo, mas na nação, procurou a harmonia nacional dirigida a um fim comum, a união das forças orgânicas nacionais em torno do interesse pátrio, não permitindo pois a expressão dos movimentos que se revelavam anti-nacionais, sim, tinha nesse sentido uma natureza totalitária. O Islão, pelo contrário, tem uma dinâmica totalitária que assenta em princípios internacionalistas (como o comunismo), aspira a um expansionismo face ao todo que é próprio de uma religião que se apresenta como reveladora de uma verdade única que deve ser partilhada por toda a humanidade e que não se ancora na nação nem na sua exaltação, antes pelo contrário, procura a sua superação em nome de um ideal universalista.

Mas os sectores liberais e os neo-conservadores, que utilizam o termo islamofascismo para criticar essa apetência totalitária que identificam com ambos os conceitos, têm legitimidade para o fazer? São anti-totalitaristas? Não propriamente.

Por um lado nenhum sistema tem hoje maior aspiração totalitária que a própria democracia-liberal, que todos esses grupos de que falámos apresentam como contraponto exemplar ao novel conceito islmofascita supostamente representativo de todos os totalitarismos; as guerras de exportação democrática em defesa da “liberdade” comprovam-no como o comprova a diabolização de todos os regimes não democráticos, ou o facto das democracias modernas, quando não permitem a existência de oposições anti-democráticas, serem, mesmo à escala nacional, tendencialmente totalitárias.

À luz dos “bons e livres” existe apenas um caminho tolerável para todo o mundo, a implementação democrática universal, e se necessário for, pela força, como já vimos. Ora este totalitarismo desenvolve-se a uma escala global, em contraposição com o que alguma vez foi alcançado por qualquer ideal fascista, sendo que com excepção do nacional-socialismo, que tinha propósitos metanacionais, à escala europeia, a maior parte dos fascismos tinham um raio de acção/intenção nacional, ou quanto muito regional. Em última análise o objectivo democrático, ao contrário do fascista, é a instauração do regime em absolutamente todos os pontos do mundo, ou seja, abarcar, verdadeiramente, o todo, nada é mais totalitário que isto. Uma das razões de fundo prende-se com o facto de ser o regime democrático o sistema que permite por excelência a ascensão do poder financeiro a poder efectivo.

Assim se explica a adesão de alguns sectores liberais, em concreto, à ideia de islamofascismo, o primado do mercado global, dos interesses privados, do poder financeiro, a que de facto tanto o islamismo como o fascismo se opõem, compreende-se. Vemo-los também, constantemente, falar em totalitarismo referindo-se a uma suposta omnipresença do Estado nas vidas dos cidadãos e ligando isso, no caso em análise, a um estatismo que seria próprio do fascismo, pois sim, o problema, descodificando, é a própria existência de Estado, porque o objectivo de fundo é a privatização de todo o espaço público, e recordo as palavras de Alain Minc (1997): “Desde sempre na história da humanidade o mercado é o estado natural da sociedade”.

Esta redução da humanidade ao mercado leva a que, como afirma Dominique Plihon, o liberalismo, ao descrever uma ordem natural que não admite concepções alternativas do mundo e da vida, se transforme ele próprio num totalitarismo. Mais, o resultado natural desta concepção, a própria mundialização decorrente, impulsionada por sectores liberais e neo-conservadores, é o expoente máximo de um totalitarismo, porque obviamente destrói a diferença, homogeneíza e aspira ao todo.

O absurdo da associação do islamismo ao fascismo é tanto maior quando qualquer regime fascista teria já resolvido definitivamente a “ameaça islâmica”, ameaça essa que foi introduzida na Europa precisamente com o beneplácito dos mesmos que agora falam em islamofascismo.

Não só não existe legitimidade nessa invenção vocabular, porque não existe nenhum Islão fascista, como não há, por parte de quem a criou e propagandeia, autoridade moral para o fazer.

E perante o que fica atrás exposto, sobre as origens, propósitos, validade e moralidade dessa peregrina associação islamofascista nos termos em que a pretendem passar, caberá perguntar a estes engenheiros de vocábulos se é lícito referirmo-nos às ideologias e forças políticas que a querem impor, e que eles representam, como democrato-colonialistas, imperial-sionistas ou liberal-totalitaristas?

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