Do Império

Por António José de Brito (in «A Rua», n.º 255, pág. 7, 08.05.1981)

O Estado, sustentamo-lo, é a realização, na história, do universal e do uno. Ora como é isso possível, objectar-nos-ão, se existem vários Estados. Estes constituem uma multiplicidade, logo são elementos singulares, não sendo nem a universalidade nem a unidade.

Temos de reconhecer que os Estados existentes não encarnam nem exaurem, de modo perfeito, a ideia de Estado, antes são uma muito imperfeita concretização dela. No entanto, hoje em dia, não há, dotadas de consistência, de duração, de perenidade, senão essas diversas unidades que, enquanto diversas, não são a unidade, mas também não são pura pluralidade, porque unificam os indivíduos e os grupos sociais menores, que podem, até, ir desaparecendo e ser substituídos por outros, permanecendo a ordem superior que os vincula.

Os Estados, na actualidade, não há dúvida que não são o Estado, e tão-só aproximações do Estado. Eles apresentam-se, habitualmente, sob a forma de nações politicamente organizadas e participam da variedade própria das nações. Estas podem ser encaradas debaixo de duas perspectivas: ou na perspectiva da unidade mais efectiva visível no presente, ou na perspectiva da separação entre os homens que, também, nela está contida. A primeira perspectiva representa o que há de positivo no facto nacional, a segunda o que nele há de negativo. De acordo com a primeira, a nação é vista como comunidade — ainda que incompleta; na segunda, como indivíduo singular. Se prolongarmos a tendência inicialmente referida a nação elevar-se-á a Estado; se dermos a primazia à segunda chegamos à destruição da nação porque, se o que separa é o que vale, então as separações entre indivíduos e grupos têm de estar acima da unidade nacional que, imediatamente se dissolverá.

É lícito dizer, portanto, que os Estados nacionais se encontram na encruzilhada. Ou erguem-se acima da sua particularidade, afirmando plenamente o universal e o uno, que os tornam superiores às pessoas ut singuli e aos grupos, ou retrogradam até à atomização, decompondo-se nos elementos que integraram.

Elevando-se acima da sua particularidade, formam uma civitas maxima — o Império — que envolve as nações, sem, no entanto as estar a destruir, como as nações não destroem os indivíduos ou corpos intermediários que englobam. Os Estados nacionais, nessa altura, estarão, apenas, a ultrapassar a singularidade e a dispersão e a adoptar o ideal de Estado na sua plenitude normativa.

Quando houver um só Estado por toda a parte, a unidade e a universalidade estarão o mais amplamente realizadas que é possível estar, isto é, o Estado terá tomado ser na sua autêntica integralidade.

E dado que são os movimentos nacionalistas dos diferentes países quem sabe ver nas nações o seu aspecto positivo, recusando, em nome delas, o individualismo, o personalismo, a dissolução democrática, etc., é aos movimentos nacionalistas que cabe encaminhar as nações no sentido do que têm de essencialmente mais valioso — a unidade, o universal; ou seja, é aos movimentos nacionalistas que cumpre dirigi-las na senda do Império, onde a essência da ideia depara com a sua existência. Para isso, o mais importante passo a dar consiste em pôr de parte as rivalidades e egoísmos nacionais e em estruturar uma forte solidariedade entre as nações face aos inimigos que a todas ameaçam — os dogmas revolucionários sejam demo-liberais ou marxistas. Importa, assim, que os movimentos nacionalistas dêem as suas mãos, fraternalmente ligados, numa manifestação de concórdia e estima totais.

É essa a grande exigência do nosso tempo.

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