Sobre a “Ressurreição” (Hino do Movimento Nacionalista)

Por VL (in http://jantardasquartas.blogspot.com)

A «Ressurreição» foi escrita por Diogo Pacheco de Amorim e musicada por José Campos e Sousa durante o “Verão Quente” de 1975, num momento de grande vontade combativa e de alguma esperança, nas vésperas de uma tão desejada insurreição civil e militar contra o poder comunista-esquerdista secretariado pela ala radical do MFA, que então dominava Portugal.

Não quis a História que acontecesse senão um “sobressalto rectificador”, um bem preparado, preventivo e vitorioso contra-golpe dos militares ainda fiéis à disciplina, perante a sediciosa sublevação de várias unidades de pára-quedistas, abandonadas pelos seus oficiais, revoltadas e manipuladas pela extrema esquerda, da acção de alguns grupos de bandidos armados e a eventualidade da adesão de outras unidades dominadas pela esquerda revolucionária ou pelo PCP, em 25 de Novembro de 1975.

Não se tendo verificado o levantamento nacional verdadeiramente patriótico e libertador de que o hino deveria ser um dos símbolos, ele não deixou, porém, de ser muito celebrado e logo cantado, não só entre os grupos exilados em Espanha como nas redes de patriotas organizados em Portugal – que o receberam através de milhares de “cassetes”. Naturalmente, permaneceu como uma marcha de Esperança, uma bela expressão da indomável vontade de combater por um Pátria “acordada, da morte esquecida”, uma “centelha” que persiste em brilhar nas “trevas da noite”; Não é por acaso que a letra é uma expressão poética e épica de um reencontro de Portugal consigo próprio, a celebração de um imperioso “quebrar de cadeias”, apontado ao futuro. E muito acentuada pelo tom alegre, exaltante claro e afirmativo de uma música plena de ritmo que anima e entusiasma.

Num quadro de aparente “normalização”, depois do 25 de Novembro de 1975, as novas gerações enfrentavam, todavia, os mesmos fantasmas do “Verão Quente” de 75 nos liceus e universidades. Reinava uma literal ditadura da esquerda marxista, assente não só nos programas, mas na coacção física exercida por grupos partidários e irregulares. Violenta e imediata era a resposta a quem contestasse o sentido da “revolução”, a legitimidade da “autoridade democrática” e as (im)próprias formas actuação da esquerda dominante — que feriam o mais elementar pluralismo. Entretanto, a celebração do Dia de Portugal foi suprimida, perante pública indiferença geral. Era praticamente proibido, celebrar e evocar Portugal e a Nação Portuguesa como Valores superiores, permanentes, e disso fazer um acto político.

Nesse contexto o Movimento Nacionalista, lançou activamente uma ofensiva enérgica, a partir de um núcleo de militantes que tinha crescido entre a juventude do Partido do Progresso e se desdobrou nos dois lados da fronteira durante o crítico “Verão Quente”. Por si só, aliado, ou apoiando outros grupos de jovens patriotas ou independentes, o MN expandiu-se activamente e não se limitou à luta de libertação patriótica nas escolas. Porque havia um sentido maior e preciso nos objectivos propostos, porque obedecia a um sentido nacional, resistiu e lutou contra a suspensão do 10 de Junho — Dia de Portugal — e trouxe para a rua, derrotando também o “General Verão”, toda a juventude e todos os portugueses que quisessem fazer do 10 de Junho uma jornada de afirmação portuguesa, acima de qualquer sectarismo. Com símbolos próprios.

A «Ressurreição» tornou-se então o hino do Movimento, cantado na rua, em todas as reuniões, nos acampamentos e nos convívios urbanos. Uma decisão legítima e adequada uma vez que o espírito da «Ressurreição» era exactamente o daqueles dias. De facto, todos sentiam que a «Ressurreição» fora criada, afinal, para os jovens nacionalistas, nem mais… E tornou-se também um desafio cantá-la abertamente, um sinal de renovação, num país cansado e enganado. As maiores manifestações patrióticas, realizadas na Av. da Liberdade e nos Restauradores durante os anos 80, entoaram a «Ressurreição» apoiadas por aparelhagens sonoras mais eficazes. E o hino-marcha vulgarizou-se.

Houve, entretanto, quem pensasse em alterar a letra para obedecer a circunstâncias novas, numa perspectiva “utilitária”, e “funcional”. Nada disso é legítimo e admissível. A identidade de uma obra, não se manipula, renova-se em novas criações. A integridade de um hino, da sua música e da sua letra, é o que o torna único, uma memória viva, registo de uma intenção, que, apesar de datada, continua a designar um Destino. Isso é o que vale, e nada disso mudou. Restam as contingências da acção política, mas isso já é uma outra história.

* * *

Ressurreição

É uma Pátria quebrando cadeias,
É um silêncio que volta a cantar,
É um regresso de heróis às ameias,
Da cidade que volta a lutar.

É um deserto que vemos florir,
É uma fonte jorrando de novo,
É uma aurora que volta a sorrir
Nos olhos cansados do Povo.

E já ardem bandeiras vermelhas,
Nos campos há gritos de guerra,
Nas trevas da noite há centelhas,
Das rosas em festa da terra.

Canta o vento nos trigos doirados,
Dançam ondas à luz das fogueiras,
E nas sombras guerreiros alados
Erguem espadas entre as oliveiras.

É uma Pátria de novo sagrada,
Acordada da morte esquecida,
Vitória da nova alvorada:
Lusitânia em giesta florida.

Letra de Diogo Pacheco de Amorim
Música de José Campos e Sousa

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