Werwolf: os últimos defensores do III Reich

Por João Martins

Alemanha, 1944. Os exércitos do III Reich lutavam desesperadamente para conter a tenaz aliada que exercia um poder bélico tremendo, autêntico rolo compressor, e que levava as altas patentes militares a pensarem ser impossível conter a invasão do território alemão por meios convencionais.

Foi nesta atmosfera crepuscular que Heinrich Himmler decidiu formar aquele que seria o derradeiro bastião de defesa do regime nacional-socialista, ou quiçá do próprio ideal nacional-socialista. Concebido para actuar atrás das linhas inimigas, o plano Werwolf tinha por base o estabelecimento de uma intrincada rede de sabotagem com o intuito de desarticular a capacidade logística das forças aliadas nas regiões ocupadas e, desse modo, permitir à Wehrmacht ganhar algum tempo para a organização da Alpenfestung (Fortaleza dos Alpes), ou por outras palavras, o plano de defesa alemão, temido pelas forças aliadas, já que estas julgavam que Hitler iria coordenar a partir dali a resistência final e que, consequentemente, prolongaria a guerra por muito mais tempo. Plano este que nunca chegou a ser posto em prática.

Coube ao General SS Hans Prutzmann o cargo de Generalinspekteur für Spezialabwehr (Inspector Geral para a Defesa Especial), o qual tinha por missão a organização dos Werwolf. Prutzmann, que conhecia particularmente bem as tácticas de guerrilha empregues pelos soviéticos nos territórios ocupados pelo exército alemão, julgou ser pertinente que os resistentes nacional-socialistas adoptassem essas mesmas tácticas.

Inicialmente os membros que compunham os Werwolf eram provenientes da SS e da Hitlerjugend, tendo ascendido a mais de 5.000 os recrutas que no Inverno de 1944-45 foram treinados na complexa arte da guerrilha. Contudo, após o inflamado “discurso Werwolf” do Ministro da Propaganda Joseph Goebbels a 23 de Março de 1945, no qual apelava a uma resistência fanática de todos os cidadãos alemães, incluindo mulheres e crianças, os Werwolf conheceram um notável aumento nos seus efectivos.

Rede e tácticas dos Werwolf

A rede Werwolf começava a ganhar contornos, embora numa desesperada corrida contra o tempo devido à rápida progressão dos exércitos aliados. Milhares de armas e de explosivos foram enterrados em sítios secretos por toda a Alemanha, cuja localização apenas era do conhecimento das unidades Werwolf destacadas nessas regiões. Mais relevante foi a ideia de criar empresas que iriam funcionar como garante do financiamento das actividades dos resistentes após a ocupação total do território germânico.

Tendo por objectivo incitar a população alemã a rejeitar qualquer colaboração com o ocupante e transformar a presença deste último num inferno, os Werwolf lançaram uma campanha de ataques cirúrgicos contra as forças aliadas e os colaboracionistas alemães. Desde atiradores furtivos que abatiam militares aliados, passando por incêndios selectivos, actos de sabotagem em linhas férreas, ataques a postos da polícia e a veículos militares que circulavam isoladamente nas estradas, até ao assassinato de figuras proeminentes da colaboração e de reconhecido passado anti-nacional-socialista, tudo foi posto em prática pelos Combatentes da liberdade nacional-socialistas, tal como eram denominados os Werwolf pela rádio do mesmo nome. A Rádio Werwolf advertia que “o braço do Partido Nacional-Socialista era longo e que os seus agentes estavam vigilantes”. Esta estação de rádio garantia que os Werwolf jamais se curvariam perante o inimigo e acrescentava que utilizariam todos os meios para lhe infligir danos. Por toda a Alemanha as paredes apareciam marcadas com a runa do lobo e com palavras de ordem como “Nicht fur uns, alles fur Deutschland!” (“Nada para nós, tudo pela Alemanha!”), ou “Wer nicht mitmacht, ist gegen uns – Werwolf!” (“Quem não está connosco, está contra nós - Werwolf!”).

Enquanto isso, a Rádio Werwolf anunciava o surgimento de um sistema judicial próprio que iria punir devidamente os traidores alemães.

Embrenhados nas florestas, emergiam da escuridão, atacavam silenciosamente e desapareciam tal como haviam surgido, os Werwolf rapidamente se tornaram na maior preocupação das forças aliadas e no terror dos colaboracionistas. Com o fim da guerra e com o território alemão totalmente ocupado, os Werwolf viram-se obrigados a adoptar uma nova forma de actuação, despindo o uniforme e adquirindo uma forma de vida pouco suspeita, mas que lhes permitisse continuar a resistência. De referir que, por esta altura, a rede Werwolf já estava muito debilitada não só pela intensa pressão exercida pelos exércitos aliados, como também devido à desorganização que se gerou após a queda do governo nacional-socialista. Os Werwolf eram nesta fase combatentes sem líder, pessoas que eram movidas pela crença fanática na ideologia nacional-socialista aliada ao profundo amor pátrio, humilhado por uma impiedosa ocupação que havia posto em marcha o processo atroz de desnazificação e de culpabilização colectiva de um povo por pretensos crimes. Os Werwolf persistiram de forma muito activa na luta contra o ocupante e no castigo infligido aos colaboracionistas até 1947, embora de acordo com alguns historiadores as acções de guerrilha se tenham estendido até 1949.

Operações dos Werwolf

Como já referimos, a acção dos Werwolf incidiu na destruição da logística das forças aliadas e na punição de alemães considerados traidores. Porém, entre as suas acções destacam-se um conjunto de assassinatos selectivos contra altas patentes militares dos exércitos americano, soviético e britânico. Entre as vítimas mais proeminentes dos Werwolf regista-se o assassinato numa emboscada do Coronel-General Nikolai Berzari, primeiro comandante soviético de Berlim, o assassinato do Major britânico John Poston, Ajudante-de-campo de Montgomery. A Rádio Werwolf reclamou de igual forma a vida do General Maurice Rose, o oficial de origem judaica com a patente mais alta no exército norte-americano. No entanto, a execução do Dr. Franz Oppenhoff, Presidente da Câmara de Aachen, ali colocado pelos aliados, foi o acto mais propagandeado pelos Werwolf na campanha intimidatória contra os colaboradores do ocupante.

Não obstante a sua curta vida, os Werwolf exerceram um profundo impacto psicológico entre a população alemã e os ocupantes. Os Werwolf tornaram-se uma espécie de força invisível e omnipresente, transmitindo a sensação de que a estrutura do partido nacional-socialista se mantinha incólume. Perante isto, os aliados reagiam com extrema severidade, proibindo o direito de assembleia e reunião aos civis alemães sendo que qualquer desafio a estas ordens estava sujeito a represálias colectivas, particularmente da parte dos soviéticos e dos franceses. Casos houve em que os ocupantes executaram pessoas e evacuaram aldeias inteiras devido a actos de sabotagem nessas localidades. As deportações das populações que tiveram lugar no leste da Alemanha foram em parte justificadas pelas novas autoridades polacas e checas como sendo uma resposta às acções desenvolvidas pelos Werwolf.

O legado dos Werwolf na actualidade

Para além dos nacionalistas alemães que, de forma individual ou colectiva, encontraram no exemplo traçado pelos Werwolf um paradigma organizacional, também outros combatentes ao longo da história viram nessa organização guerrilheira uma fonte de inspiração. Exemplo concreto é a actual resistência ao invasor e ocupante americano dos combatentes iraquianos, uma rede muito bem estruturada pelo deposto regime do partido Baas.

Recentemente os Werwolf foram recuperados dos anais da história exactamente por duas figuras de vulto da Administração Bush. A Conselheira para a Segurança Nacional Condoleezza Rice, aludindo à resistência iraquiana, reconheceu num discurso, perante uma audiência de veteranos de guerras em que os EUA se envolveram, a importância que os Werwolf tiveram outrora e como foram imitados pelos resistentes Baasistas e Fedayeen. Já o Secretário da Defesa Donald Rumsfeld disse o seguinte: “Um grupo de assassinos era conhecido por Werwolf. Eles e outros remanescentes do regime nazi tinham por alvo as forças aliadas, bem como civis alemães que colaboravam com as forças aliadas. Presidentes de Câmaras foram assassinados, incluindo aquele que nós designamos para Aachen, a primeira cidade alemã a ser libertada. Crianças com a idade de 10 anos eram usadas como atiradores furtivos, emissões de rádio e panfletos avisavam os alemães para não colaborarem com os aliados. Eles sabotaram fábricas, centrais eléctricas, caminhos-de-ferro. Eles fizeram explodir esquadras de polícia e edifícios governamentais e destruíram armazéns de arte e de antiguidades que se encontravam no museu de Berlim. Não vos parece isto familiar?”

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