O «fascista» como lugar comum

Por J. L. Gomes Tello

Há quem goste de evocar a recordação de outros homens. Por exemplo, a desses voluntários valões e flamengos, quase crianças, que se faziam matar ao longo da via-férrea de Leninegrado, sob o céu de cristal duro da noite russa.

E porquê? Um deles, estudante universitário, dava as razões do seu combate sentado ao pé da fogueira do acampamento, enquanto, ao longe, a artilharia russa lançava as suas granadas sobre a neve suja. Estava ali porque tinha lido Spengler, porque defendia a catedral de Aquisgran, porque tinha percorrido o caminho de Chartres, recitando os poemas do pobre Péguy, morto, ele também, durante a primeira guerra mundial no Marne. E, em suma «pela Pátria». Gostaria, ainda, de falar dos homens de uma parte da
Divisão «Charlemagne», que eram franceses, belgas, alemães, etc., etc.; foram quase os últimos que, com os «punhos de aço» e com as granadas de mão defenderam as últimas trincheiras de Berlim, deixando-se esmagar pelos carros de combate soviéticos. Gostaria de falar dos pequenos finlandeses, que ainda adolescentes, faziam a guarda nas pontes de Novgorod, nas cabanas de Podberesja, nos taludes de Sapolje.

Gostaria de falar daqueles da «Viking» e de tantos e tantos outros. E, naturalmente, dos que estavam em Grofenwehr – onde estão hoje os americanos – e em Hof, metade alemã, metade russa.

Formavam a Europa.

Mas é bem sabido que, como fascistas, estão condenados ao esquecimento.

No fundo, estão condenados à vitória.

Morreram com as armas nas mãos, fuzilavam-nos contra um qualquer muro, condenaram-nos a trabalhos forçados perpétuos ou, o que ainda é pior, destinaram-nos a ser os exilados internos da Europa existencialista, liberal e pré-comunista do após-guerra. Mas isso não impede que as suas palavras sejam vitoriosas. Acreditavam numa Europa unida, mas não quando instalados confortavelmente à mesa, discutindo, teoricamente, o assunto: lutaram e combateram por ela. O tenente Eckar Baron Von Ardenne escrevia pouco antes da sua morte: «Eu não luto para defender um campo ou um belo edifício, mas para provar perante Deus e o mundo inteiro a disposição ao sacrifício do qual a nossa nação poderá extrair o germe que permitirá estabelecer uma nova ordem no mundo. Eu luto para que renasçam e se imponham as ideias que querem tornar o mundo melhor e mais belo». Por outras palavras, foi também, o que disseram Motza, Marin e os legionários da Guarda de Ferro, mortos em combate, enterrados na «Casa verde» de Bucareste e cujas cinzas foram lançadas ao vento pelos Sovietes quando se precipitaram sobre os Cárpatos. Há reconhecer que, entre os que morreram frente ao inimigo em defesa da Europa e os que hoje falam dela, tendo ajudado esse mesmo inimigo, é preferível crer nos primeiros.

Entre estes encontrava-se, também, o sargento italiano Dino Fumagalli, que lançou uma fórmula que tem, hoje, todo o seu peso: «A Europa não forma um conjunto arbitrário de Estados, mas um organismo político»; enquanto que o dinamarquês Mogens-Kall-Bertelsen falava da «Pátria Europa». Onde terá caído esse sargento que era também médico e esse dinamarquês que era estudante? Pouco importa.

Eu queria simplesmente dizer que na sua mente, eles traziam a ideia da Europa, uma ideia que acariciavam entre eles os homens das trincheiras das paisagens cinzentas de Leninegrado como os das margens do Volga. E como eles, o húngaro Mecser falava de uma agricultura europeia comum. Ê provável que durante as discussões de Bruxelas não tenham lido as páginas amarelecidas da «Europa Académica Combatente», escritas há vinte anos pelos estudantes que manejavam a espingarda para a defesa do presente, pela edificação do futuro.

Mas estas ideias estavam lá.

E igualmente na declaração do grego Logothetoulos: «Os homens do Continente europeu, como nós que pertencemos a diferentes nações, podemos ter o mesmo espírito e uma moeda comum. As diversas nações devem manter entre elas relações livres, trabalhando sem restrições, trocando os seus artigos, desenvolvendo as suas ciências e criando, desde agora, o verdadeiro sentimento de comunidade tal como foi praticado na Grécia antiga. Da Acrópole a Narvique, os soldados de 1941 ouviram pela primeira vez esta fórmula: «Comunidade dos Europeus».

Em palavras ainda mais breves, um outro soldado, Josef Ambrus, proclamou que no sector cultural, lutava-se por esta ideia: «A Europa para os europeu», e noutros termos mais políticos, Paul Moneaux, que era de Liege, escrevia: «Parece necessário criar um organismo que compreenda as nacionalidades do Continente e que dê a cada uma a possibilidade de se desenvolver perfeitamente».

Onde estão, agora, esses jovens soldados? Terão escolhido entre a morte e o cepticismo? Pouco importa.

Mas tais eram as suas ideias, combatiam por elas e muitos deram o seu sangue por tais conceitos. Como o fez o cabo francês Charles Hesse: «Para sempre a aliança europeia deve ser constituída com o nosso sangue. Cada um de nós sabe que é membro das fileiras que trabalham pela reconstrução da Europa». Ou como o búlgaro Kassadjov: «Sob o troar dos canhões, o rugir dos «stukas» e o heroísmo inegável de multidões de jovens combatentes da ordem nova, há que compreender que um novo espírito luta pelo seu direito e pelo direito de uma Nova Europa, melhor condicionada do ponto de vista social». A expectativa foi longa, mas a sua morte rápida.

Que aconteceu ao belga Leon van Huffel? Pelo menos as suas palavras ecoam ainda no céu da nossa luta: «A ideologia dos jovens estados unidos opõe às concepções do liberalismo e do marxismo uma filosofia nova. Duas máximas formam o ponto de partida desta ideologia: o princípio da comunidade e o principio da liberdade criadora». Era um soldado, um voluntário, um combatente.

Todos cometeram um erro terrível. Ou, melhor, dois erros. Um, o de terem estado adiantados vinte anos. O outro, o de se terem proclamado «fascistas» e de terem servido esta ideia, com o seu uniforme, com as suas armas, com a sua inteligência. Estão, portanto, condenados. Não bastava fuzilá-los, como o fizeram no muro amarelo de Santa Maria, em Florença, onde pude ver, há alguns anos, os buracos das balas. Ou como fizeram com as onze cordas numa garagem duma praça de Milão.

Não. Não se trata de não nos termos apercebido que 1962 não é 1945. Basta-nos ler os jornais – do Congo a Paris, de Berlim à ONU – para nos capacitarmos desse facto. Mas além de os fuzilar, é preciso condenar as suas ideias ao silêncio. É do conhecimento geral que depois de 1945, o emprego da palavra «fascista» – e emprego a palavra para simplificação – é sinónimo de bárbaro, do mesmo modo que «antifascista» é sinónima de intelectual progressista da «esquerda». A juventude da nossa época – aquela que procuram intoxicar – caminha, ou melhor, arrasta-se por estes dois «trilhos». E é tudo.

É por isso que seria bom recordar que desde o tenente Von Ardenne, morto em combate, a Gentile, assassinado por uma rajada numa rua de Milão, há toda uma linha de pensamento que querem manter silenciosa. Quando se publicaram alguns livros do pobre
Drieu la Rochelle, que se suicidou de desgosto perante a cloaca, foi para alterar a linha do seu pensamento. Mesmo a obra de Saint Exupéry – que no entanto estava do outro lado da barricada – é amordaçada nos seus aspectos mais importantes. E não dizemos nada de Moller van Brucke, ou de Brasillach. Não bastou fuzilá-lo, foi necessário ainda mobilizar os partidos para impedir a representação das suas obras.

E o caso de Céline, ainda mais patético, prescinde de qualquer comentário. «Fascista», e isso chega para que mantenham na obscuridade Sorel e com ele toda uma geração de revolucionários cujas ideias foram bandeiras de combate. E vão mesmo ao ponto de dar o nome de «fascistas» aos que, perante os acontecimentos actuais, e ainda ontem inimigos, se dão as mãos pela Europa. Os «colaboracionistas» e os «resistentes» começaram a compreender. Uniram-se.

Nem uns, nem outros, escapam a esta etiqueta: «Fascista». E o problema está resolvido.
Na realidade, acontece que a nossa época igualitária está habituada a demolir os heróis. Carlyle, Spengler, Nietszche, Chamberlain – o outro –, Sorel, Winning, Diesel e tantos outros que acabaram por criar o fundo comum desta filosofia que chamam «fascista», escreveram páginas sobre a Europa que seria bom reler. Mas eu creio que existe já uma minoria de jovens que não se deixam enganar pela falsificação materialista da Europa, e que no nosso velho continente procuram as raízes espirituais do conceito sem o qual não haverá Europa possível, porque a Europa, não é nem o marxismo, por mais disfarçado que seja actualmente, nem o materialismo capitalista, por mais confortável que no-lo descrevam. Hoje, nós estamos na primeira etapa da inquietude, do regresso. E não será pequena a surpresa se no caminho do regresso encontrarmos as ideias dum soldado fascista morto numa trincheira em 1941.

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