Ezra Pound, Fascista de Esquerda

Por L. Gallesi (Traduzido por Rodrigo Nunes)

Ezra Pound não é – e nunca quis ser – um autor fácil. Como diz um dos seus versos mais famosos, ele sabe perfeitamente que “Beauty is difficult”, ou seja que a beleza é difícil, não só para o artista que a cria mas também para o público que quer apreciá-la plenamente. A quem lamenta a obscuridade complexa dos seus “Cantos”, o poeta responde com o convite a “ler, ler, ler e ainda reler” o texto. E, como sabem os apaixonados de poesia em geral e de Pound em particular, este é o único método eficaz para tirar proveito da literatura e de qualquer actividade intelectual.

Mais citado que efectivamente lido em Itália, Ezra Pound goza de uma fama inversamente proporcional ao real aprofundamento da sua obra e da sua vida. Contribui para isto, talvez, o escasso conhecimento da língua inglesa por parte dos seus admiradores italianos, ou uma certa propensão para o imediatismo e para a preguiça mental tão difusa entre os mesmos, de Pound gosta-se de citar um par de frases e alguns factos, muitas vezes fantasiosos – como a nunca ocorrida detenção em Coldano – mas dificilmente se coloca a estudo fora das faculdades de línguas e literatura estrangeira moderna. Grande parte da fama de Pound está ligada às consequências da sua adesão ao fascismo, que lhe custa a inumana detenção numa prisão militar a norte de Pisa e a sucessiva detenção num manicómio criminal americano por uma dúzia de anos. A par do outro grande decano da literatura mundial, o prémio Nobel Knut Hamsun, Pound paga duramente por um crime de opinião (…).

Fascista declaradamente “de esquerda”, encontra apenas uma vez Mussolini, por quem nutre fascínio, e não gosta nem frequenta personalidades ilustres. Substancialmente ignorado pelos vértices políticos durante o regime fascista, Pound não é estimado nem nos círculos dos intelectuais que “contam” e que não apreciam a sua originalidade. No início dos anos 30, por exemplo, o anglicista Mário Praz critica sem piedade o “Cavalcanti” de Pound, suscitando com ele uma violentíssima polémica, enquanto nos mesmos anos Longanesi descreve-o assim: “É um velho incoerente (…) descurado no vestir, caótico no falar, tímido e um impostor. As suas ideias são muito confusas, crê na grandeza do fascismo”. Os seus discursos na Rádio Roma fazem mais de um funcionário radiofónico duvidar da sua sanidade mental, enquanto a sua nacionalidade americana lhe cria enormes dificuldades financeiras a partir da entrada dos EUA na guerra: bloqueamento das suas contas correntes e das dos seus familiares, apreensão do pequeno apartamento possuído a Veneza e de outros bens também de propriedade da sua companheira Olga Rudge. Durante a República Social Italiana, finalmente, apesar do seu empenho profuso em difundir as ideias de Jefferson e o pensamento de Confúcio, quais únicos antídotos à ignorância e à má-fé dos inimigos de Itália, perdem-se as suas reiteradas tentativas para encontrar de novo o Duce e influenciar a política cultural e escolar do fascismo italiano.

A consideração da Itália para com Pound parece melhorar no pós-guerra, com a denúncia da absurda detenção a que se seguem numerosos apelos subscritos por jornalistas e homens da cultura a favor da sua libertação, ainda que se consolide a sua fama de autor muito difícil e, de certo modo, por vezes demasiado original. Julius Evola que partilha com o autor dos “Cantos” o editor, Vanni Scheiwiller, considera Pound “um pouco original”, “maníaco”, e responde, a quem lhe propõe um parecer acerca da eventual publicação de uma antologia dos seus escritos de carácter político, que “seria preciso apenas evitar as considerações sobre a economia ligadas ao conhecido complexo da usura”. O que equivaleria, em concreto, a eliminar ao menos 4/5 dos escritos políticos de Pound, que exactamente contra a usura combate a batalha política pessoal que o coloca do lado das forças do Eixo, em guerra contra os especuladores e os exploradores do povo como eficazmente e correctamente demonstrou Giano Accame no seu apaixonante “Pound economista”, que fica como a melhor exposição do seu pensamento económico e político (…).

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