O perfil do Marquês de Pombal

Por BOS (publicado no blogue Nova Frente)

Para falar de Sebastião José de Carvalho e Melo, surripiei o título do livro de Camilo Castelo Branco, que admitia o seu ódio «grande, entranhado e único» na vida a Pombal. Eu abomino igualmente a pombalina criatura, que considero uma das figuras mais sinistras da história portuguesa. E digo porquê.

Bisneto de um padre, Sebastião da Mata Escura, e de uma mulher negra, Marta Fernandes, Pombal executou com denodo o ambicioso plano de se afidalgar e enriquecer a todo o custo. Estava-lhe nos genes. O pai publicara um livro em 1692 em que procurava atribuir-se nobreza que nunca tivera, com vista a apoderar-se de uma herança ilegítima. Era Manuel Carvalho de Ataíde, que casara com uma mulher pobre, que Sebastião José votou depois ao mais completo abandono, obrigando-a a viver de esmolas.

A historiografia maçónica e liberal do século XIX (Pombal era maçon, iniciado em Londres) forjou o mito do ministro genial, atribuindo-lhe o plano grandioso de reconstrução da Baixa lisboeta. Grande balela! Quem proferiu a frase: «— É preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos» foi o Marquês de Alorna, mas o vulgo dos apologistas de Pombal não permite que algum português, tirante Carvalho e Melo, pudesse dar ordem tão ática. O projecto de remodelação dos bairros existentes entre o Rossio e o Terreiro do Paço já existia três reinados antes, governando D. Afonso VI. Sofreu alterações nos últimos anos do reinado de D. João V, que ficaram a cargo de Carlos Mardel e Eugénio dos Santos. Foi este último que conseguiu convencer Pombal a executar o projecto, agora que o terramoto o tornara inadiável. Contrariado embora, o ministro acabou por anuir. Porém, dotou o plano de um orçamento ridículo. E as obras foram assim feitas à custa de impostos brutais lançados sobre a população faminta.

Em 1756, no ano seguinte ao terramoto, Portugal recebeu um donativo de 100.000 libras da Inglaterra para remediar a catástrofe. Enquanto a Coroa ordenava que os nossos representantes fossem a França mendigar igual quantia, Pombal desbaratava o Tesouro em 36.000 cruzados para pagar as actuações por dois meses do cantor Egipcielli.

Decretou a emancipação ipso facto de todo o escravo vindo do Ultramar para a Metrópole, mas manteve a escravatura no Brasil por ser conveniente aos negócios que lá tinha, e que eram dirigidos por seu irmão Francisco Xavier de Mendonça. Perpetrou uma carnificina nas mais ilustres famílias do Reino com o propósito de confiscar os bens de muitas delas. Mandou prender o duque de Aveiro, forjando uma acusação inverosímil. E como estivesse com a mão na massa, confiscou-lhe os bens e os dos amigos, que prendeu igualmente: os marqueses de Távora, de Alorna, de Ponte de Lima; e os condes de Óbidos, de Atouguia, de Vila Nova, do Calhariz, da Ribeira e de S. Lourenço. Ficou imensamente rico. Comprou vistosos coches e cabeleiras. Num último assomo de despotismo para com o duque de Aveiro, antes de lhe quebrar os ossos a martelo, forçou-o a declarar que actuara a mando dos Jesuítas. Com a declaração na mão, mandou prender os padres da Companhia de Jesus e extinguir a Universidade de Évora, de que eram professores. Engrossou o património pessoal com mais umas quantas propriedades eclesiásticas.

Só extinguiu a Inquisição depois de criar um Tribunal de Estado, para assuntos políticos, e instituir a primeira polícia política portuguesa, desalojando o Santo Ofício do Rossio para lá instalar os novos serviços. A tortura inquisitorial continuou — dirigida agora directamente por Pombal. As prisões abarrotavam de presos políticos. Foi um tirano sanguinário. D. José não era igualmente flor que se cheirasse. Carvalho e Melo morreu impune, coçando sossegadamente a sua lepra. Era Conde de Oeiras, Marquês de Pombal, alcaide-mor de Lamego, senhor donatário de Oeiras, Carvalho e Cercosa, inspector-geral do Real Erário, mordomo-mor do Paço, comendador das Três Minas e de Santa Maria de Mata Lobos. O homem mais poderoso do Reino!

Callhau com dois olhos, viveu em Londres alguns anos mas não encaixou no toutiço uma única palavra de Inglês. Perguntarão os leitores se o desgraçado não fez nada de bom, se não há legislação que a sua veia de estadista haja inspirado. Há, claro que há! Leis da estreme concepção de Pombal — indisputavelmente dele — há quatro: uma manda construir o canal de Oeiras para que os vinhos dele se transportassem e vendessem mais facilmente; outra estabelece a feira de Oeiras para encarecer as propriedades e os géneros da sua lavoura; outra ainda é a Lei dos Contíguos, com vista a encravar na sua quinta de Oeiras as pequenas propriedades limítrofes; e, finalmente, a Lei de 15 de Março de 1751 em que proíbe pendurar cornos epigramáticos às portas das pessoas casadas. Se quiserem louvar o Marquês, celebrem o seu nome por este rasgo civilizador. Proibiu os cornos às portas das casas. Começou aí a emancipação feminina. Deve ter sido por isto que os liberais lhe ergueram a estátua.

Comentários

Sem comentários

Adicionar Comentários

Este post não permite comentários