A erosão cultural das Identidades na Europa

Por Miguel Ângelo Jardim (publicado em várias partes no blogue Arqueofuturismo on-line)

O discurso sobre a decadência emergiu sempre em períodos de crise maior, sendo as dolorosas transições, férteis em sentimentos de desespero e pessimismo, mas por outro lado geradoras de reacções de esperança e combate, apanágio de todos os que obstinadamente se recusam a sucumbir perante as convulsões e catastróficos naufrágios.

Desde Oswald Spengler e a sua famosa obra “Decadência do Ocidente” (Der Untergang des Abendlandes) que o mundo centrado na esfera cultural Greco-Latina e Heleno-Judaico-Cristã se tem interrogado acerca do seu destino espacial (território) e temporal (histórico).

Com efeito, a humanidade, a que a meu ver erradamente se apelida de “ocidental” [1], na medida em que esta designação peca por ser imprecisa e redutora, enfrenta ameaças e fenómenos de erosão, consequências imediatas da sua própria mundividência (weltanschauung), ou seja, no seu ilusório e aparente poder reside a sua própria fragilidade estrutural.

As sucessivas agressões ao seu espaço cultural/civilizacional irrompem das suas inerentes e congénitas limitações, assim como de múltiplos constrangimentos germinados na cumplicidade da liderança etno-masoquista dos dirigentes políticos, à direita e à esquerda.

O relativismo ético/moral, a religião “secular” dos direitos humanos, o economicismo mercantilista, o consumismo desenfreado, o etno-masoquismo [2], a omissão e demissão das referências definidoras e fundadoras dos nossos modelos sócio-culturais, a grave desorientação ideológica constituem os registos que marcam as nossas sociedades contemporâneas. Estas, há muito que perderam as suas imunidades identitárias, sendo evidente que as nossas defesas intelectuais e morais estão profundamente debilitadas. Dir-se-ia que a superstrutura ideológica e cultural é corroída a partir do seu interior: a contaminação mora dentro das fronteiras!

Internamente cercadas por contradições e antagonismos que se reflectem nas aspirações de autonomia territorial (Euskal-Herria, Bretanha, Córsega, Catalunha, Escócia, Galiza, Pais de Gales), ou por reclamações de índole cultural, casos das minorias religiosas, linguísticas, as sociedades são, cada vez mais, aglomerados de indivíduos anónimos, em busca cega das suas raízes identitárias e comunitárias. O cerne da questão é que aqueles legítimos anseios confrontam-se e chocam com a realidade dos factos. Esta, a realidade social, política e económica, revela-se negadora das marcas e referências locais, definidoras e edificadoras das identidades matriciais.

Em simultâneo, os tentáculos do capitalismo financeiro internacional, vão ditando as regras que regulam ou desregulam a humanidade. Hoje, nenhum Estado, ou nação, exerce a “soberania” suficiente para recusar esta ditadura internacional e apátrida do dinheiro. O valor de referência e medida é o preço estabelecido pelo mercado selvagem, liberto de considerações éticas e morais. Os seres humanos não escapam a esta avaliação mercantil. Paralelamente, e de uma forma subtil, mas não menos persuasiva, vão-se transmitindo e veiculando os produtos “sub-culturais”, alojados nos meios de comunicação do “politicamente correcto” e subordinados à oligarquia internacional de todas as matizes (CNN, Fox News, MTV, Al-Jazeera), e na gigantesca máquina de Hollywood que inunda, de uma forma quase totalitária, as salas de cinema e de vídeo de todo o mundo. Vejam-se as dificuldades colocadas a Mel Gibson para produzir e realizar o seu filme sobre Jesus Cristo… a denominada “globalização”, na verdade o mundialismo desavergonhado, não é de todo inocente, transporta consigo uma carga ideológica com contornos e objectivos bem definidos.

É óbvio que não se pretende retornar a um saudoso paraíso campestre onde todos se conheciam e cooperavam entre si. Esse tempo mítico faz parte da memória histórica. Todavia é possível e desejável retomar modelos económico-sociais que tenham em consideração as preocupações urbanísticas, a gestão racional e ordenada do espaço territorial, o ambiente e a ecologia, a economia social incorporada nas novas formas e modelos de propriedade (empresas comunitárias e municipais, cooperativas). Sem entrar em pormenores de ordem religiosa ou teológica, os próprios Mosteiros Católicos e Ortodoxos na sua milenar organização são exemplos, à dimensão micro-económica, de uma boa convivência e adaptação a esta nova abordagem da economia, baseando-se esta muito mais nas necessidades reais do que no hiper-consumo materialista.

Na senda de autores tão fascinantes como contraditórios nas suas propostas, e cito alguns, Althusius, William Morris, John Ruskin, Proudhon, Oswald Spengler, Teixeira de Pascoaes, Martim Buber, Otto von Gierke, Rudolf Steiner, Frédéric Le Play, Arnaud Dandieu, José Maria Arizmendiarrieta, Henri de Man, Denis de Rougemont, Saint-Loup, Rudolph Kjellen, Alain de Benoist, Guillaume Faye, poder-se-ão projectar soluções práticas que alcancem resultados positivos ao nível local, nacional e europeu. O discurso político terá que assumir a coragem de superar a errónea e falsa dicotomia entre a direita e a esquerda, conceitos herdados da remota Revolução Francesa. Em paralelo, os sistemas partidários vigentes na Europa e nos Estados Unidos não reflectem, nem representam os reais interesses e anseios dos povos, revelando uma crise de representatividade expressa nos elevados níveis de abstenção e desinteresse pela Polis.

E a Europa?

Esta deverá construir-se numa estrutura que garanta a coesão económica social e política. A filosofia de acção orientar-se-á pelo registo da unidade em torno dos valores comuns dos europeus e contra os inimigos que pretendem, de diferentes formas, destruir-nos. O modelo político da unidade europeia poderá variar entre esquemas mais soberanistas (intergovernamental), de índole confederal, (união de estados soberanos) ou federal (federalismo).

Em qualquer dos casos a união consagrará a igualdade entre todos os povos europeus, irmãos na cultura e na herança comum. Na sua rica pluralidade as culturas europeias não revelam antagonismos entre si, antes apresentam uma salutar e funcional complementaridade. Conforme esta perspectiva o conflito na ex-Jugoslávia foi uma tragédia, só serviu interesses obscuros, enfraquecendo o flanco leste e sul do continente europeu. Promover conflitos entre nações europeias apenas beneficia os inimigos de ontem e de hoje do nosso continente. As comunidades orgânicas, munidas das suas liberdades concretas, equilíbrio entre os direitos individuais (liberdade de pensamento e de expressão) e os direitos colectivos ao trabalho, segurança e paz social, opõem-se ao propagandeado discurso de defesa dos “direitos do homem”, a nova religião secular, totalitária, negadora dos direitos dos povos. Lembrando Ortega e Gasset, o ser humano só existe quando enquadrado nas suas circunstâncias históricas. A humanidade como entidade abstracta é pura ficção. É injusto conceder os mesmos direitos à vítima e ao agressor; premiar e recompensar da mesma forma o desonesto e o honesto! Ou seja, na melhor das interpretações, os chamados “direitos humanos” a serem aplicados, terão sempre que levar em consideração os particularismos sociais e económicos, assim como as realidades concretas etno-culturais de cada povo. Resumindo: a filosofia dos direitos do homem deverá obrigar-se a respeitar o momento histórico e a identidade dos povos. O indivíduo só atinge a plenitude das suas capacidades quando inserido e articulado com os interesses e o bem comum da sua comunidade.

Na Europa, por exemplo, não se podem aplicar modelos que contradigam e violem os direitos historicamente conquistados pelas mulheres, ou seja, dever-se-á dar prioridade à nossa raiz cultural em detrimento do respeito por uma ideologia ou religião que agrida e viole o nosso modo de viver. Em resumo: não se pode entender e ler de uma forma absoluta os denominados “direitos humanos”, estes devem estar sempre subordinados ao direito à nossa identidade e segurança. Caso contrário a Europa estará a cometer um lento suicídio. A aliança entre a criminalidade (tráfico de droga e carne branca, terrorismo) e a alta finança internacional, e o discurso da culpabilização protegido por uma prática neo-liberal, revela-se mortífero para as identidades e culturas europeias. A consciência do nosso passado é uma das armas de resistência no combate do futuro pela nossa Identidade. Os novos bárbaros escalam as nossas fronteiras físicas e espirituais, deveremos estar preparados para o confronto. Esta é a questão fulcral.

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Notas:

1. A ideia de Ocidente é simultaneamente geográfica, política e cultural. Enquadra-se nos países da Europa ocidental de tradição católica e protestante, organizados em regimes de democracia-liberal, fundados no primado da lei e na separação de poderes (legislativo, executivo e judicial). Obviamente que esta definição peca por ser limitativa e redutora. A Grécia, por exemplo, não sendo geograficamente do ocidente, faz parte da esfera ocidental, ainda que seja ortodoxa do ponto de vista religioso. O Estado Novo, durante o consulado de Salazar, não sendo democrata-liberal, remetia-se para o conceito de raiz corporativista da democracia orgânica, tendo como bandeira a defesa do ocidente e dos seus valores. E, por último, nem todos os países e estados regidos pelos valores e registos da democracia-liberal possuem a mesma estrutura jurídico-política. Alguns são monárquicos, outros republicanos. Alguns são unitários no enquadramento jurídico-constitucional, caso de Portugal, outros são federalistas, casos da Alemanha, Bélgica e Suiça. A França possui uma constituição escrita e é laica do ponto de vista religioso. O Reino Unido não tem constituição escrita e a Igreja Anglicana tem poderes, ainda que simbólicos, de carácter nacional e oficial. Contudo, podemos afirmar que todos estes países e Estados garantem teoricamente as liberdades individuais e a primazia da lei. No campo económico é a economia de mercado, com maior ou menor intervenção social do Estado, que predomina.

2. Etno-masoquismo é o termo formulado pelo filósofo francês Guillaume Faye, no seu livro “L’Archeofuturisme” (Arqueofuturismo) para designar a atitude dos europeus em desprezar a sua própria cultura e valores em proveito ou favorecimento de culturas exóticas, como são, por exemplo, a africana e a asiática. Isto ocorre, nomeadamente, na música, na culinária e nos matrimónios com não-europeus. Significa, ao mesmo tempo, a fraqueza e a debilidade dos europeus perante outras civilizações.

3. Na obra de Ferdinand Tonnies aparecem os conceitos de comunidade (gemeinschaft) e sociedade (geselschaft), no entanto, os mesmos já tinham sido aflorados por Henry Maine no seu livro “Ancient law”, publicado em 1861. Maine diz-nos que a organização social baseada no parentesco, no “status”, nos costumes comuns, e no direito colectivo à terra constitui uma comunidade. Pelo contrário, a ideia de sociedade radica-se no contrato e nos direitos individuais. Segundo Tonnies, na comunidade predomina e funciona a vontade orgânica, natural, baseada nos hábitos e costumes comuns, numa cultura essencialmente idêntica (wesenwille). No caso da sociedade é a decisão contratual que é importante. A comunidade é solidária enquanto que a sociedade é competitiva. Mais tarde, o filósofo alemão Schmalenbach procurou superar esta dicotomia introduzindo os conceitos de aliança e “comunitariedade”, o mesmo é dizer que, vivência comunitária (gemeinschaftlischkeit), baseando-se esta na decisão voluntária e consciente dos seres humanos se unirem numa aliança orgânica, com fins e objectivos comuns no trabalho, na vida social, na produção e no consumo.

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