António Pedro e a política

Por Barradas de Oliveira (introdução de Manuel Azinhal)

Mais uma achega para a história do nacional-sindicalismo

Continuando a série, publico hoje um artigo de Barradas de Oliveira surgido no semanário “A Rua” a 27 de Dezembro de 1979 (nº 185).

Chamo a atenção dos leitores habituais para dois pormenores para mim da maior importância para o tema genérico em questão.

O primeiro é a afirmação peremptória de que os homens mais marcantes na criação do nacional-sindicalismo foram António Pedro e António Tinoco.

Neste ponto sempre foram insistentes as testemunhas que tenho chamado a esclarecer o caso, Dutra Faria e Barradas de Oliveira (com alguma modéstia, visto que também a si mesmos podiam ser tentados a atribuir esses méritos, dado que qualquer deles tinha tido presença importante no grupo inicial). Nunca ouvi nada nem ninguém que desmentisse que assim foi. A historiografia oficial que aponta Rolão Preto guia-se por critérios compreensíveis, mas superficiais. Para quem ignora, por fora das coisas é que elas são. Basta ver umas fotografias e uns jornais. Para quem sabe, por dentro das coisas é que as coisas são.

Posteriormente, os caminhos da vida de qualquer desses homens haviam de ser variados, e diversos. Mas isso não altera a verdade de uma época.

Realço ainda o pormenor de António Lepierre Tinoco ser o único estudante de Direito do grupo fundador do semanário “Revolução” (curso que aliás não viria a acabar). Talvez assim se explique o intrigante equívoco de nas obras mais divulgadas sobre o nacional-sindicalismno se encontrar repetida a informação de que os estudantes do grupo eram “quase todos estudantes de Direito”. Em todo o caso, um não pode confundir-se com quase todos. A formação marcante era a de Letras. E se fosse prestada atenção a este facto seria mais fácil estabelecer a ligação com outros acontecimentos importantes da nossa vida intelectual desse tempo, como tinha sido o “Manifesto Contra a Literatura de Sodoma” e as polémicas daí surgidas, à roda de António Botto, em que se envolveu Fernando Pessoa.

O segundo ponto que queria sublinhar relaciona-se com a actividade intelectual de António Pedro e o seu pioneirismo na revelação em Portugal de certas correntes artísticas, de um modo que é totalmente ocultado nas versões usuais. Também já aludi a isto: para sustentar uma falsidade que consiste em atribuir os louros ao auto-denominado “Papa do surrealismo” (na verdade Papisa, para saber mais exacto) é vulgar encontrar a história contada atrasada uns anos – de forma a empurrar os primórdios lá para 1940. Dá-se sempre o aparecimento em Portugal do surrealismo e correntes estéticas a ele ligadas como tendo ocorrido quando Mário Cesarinny de Vasconcelos o descobriu. Ora o certo é que quando a Maria Cesarina aí chegou (quem lhe chamava assim era o Jorge de Sena, que até era correligionário dele, correligionário político, que não nas paneleirices) já iam longe as primeiras aparições e tentativas artísticas dessas correntes em Portugal. Neste artigo, Barradas de Oliveira menciona o facto a propósito da pintura de António Pedro. Podia ter lembrado as experiências literárias, nomeadamente as vindas de António Pedro com Dutra Faria e Ramiro Valadão, creio que em 1934, seguindo o modelo conhecido por “cadavre exquis” – coisa estranha e nunca vista em Portugal.

Chega, por hoje, que amanhã também é dia. Aqui fica o “António Pedro e a política”. (Se alguém conhecer os Drs. João Medina e António Costa Pinto, façam favor de lhes levar o texto)


* * *

Estou a vê-lo na sala de actos da velha Faculdade de Letras, belo e terrível como um deus pagão, com a imponência e a força de sua alta estatura, o cabelo loiro quase encrespado, zupando a cavalo marinho os seus adversários comunistas e democratas.

Era em 1931. António Pedro conquistara já como poeta um nome que o tornara respeitado, mas o que nele predominava era uma ânsia de realização quase ilimitada, o que havia de colidir fortemente com uma variada riqueza espiritual a tentá-lo a dispersar-se pela poesia, pela política, pelo jornalismo, pela pintura, pela cerâmica, pela indústria, pelo comércio, pelo teatro. A par disso, uma originalidade que não afectava o seu extremado bom gosto e os encantos de conversador excepcional, com ampla compreensão dos homens e dos factos, capacidade superior de rir e de admirar e o segredo de discorrer multiplicando-se em observações inesperadas.

O deus pagão, educado pelos jesuítas em La Guardia, donde aliás fora expulso pela sua rebeldia natural, seria mais tarde, na variedade e requinte dos seus dotes de inteligência e de sensibilidade, um autêntico príncipe do Renascimento.

Andam agora a exaltar-lhe os méritos artísticos, esquecendo o António Pedro que expôs numa galeria de arte da Rua Ivens, em Junho de 1936, as suas primeiras expressões de pintura abstracta. E que pela mesma época publicava em Lisboa a tradução do “Manifesto do Dimensionismo”; corrente de arte moderna pouco antes surgida em Paris e encabeçada por um grupo de artistas de que faziam parte um inglês, um norte-americano, um chileno, um russo, um polaco, um catalão, um húngaro e um português. Era este António Pedro, que havia trocado as soturnas aulas da Faculdade de Letras pelos estudos de Estética na Sorbonne.

Essa corrente artística, que muitos críticos confundiam com o Surrealismo, do qual seria já uma fase de ultrapassagem, foi a primeira manifestação de arte abstracta havida como tal entre nós. Além de erro histórico, pratica injustiça quem a esqueça em benefício de alguns pretensos inovadores que só apareceram bastantes anos mais tarde.

Mas voltemos ao deus pagão que em 1931 assentava as vergalhadas do seu cavalo-marinho nos lombos dos adversários políticos.

António Pedro era nacionalista militante. O seu espírito de inconformismo activo levou-o a publicar nesse ano, com a direcção conjunta de Dutra Faria, um semanário de que saíram apenas nove números. Depois faz na Liga Nacional 28 de Maio uma conferência: “Esboço para uma revisão de valores”.

No ano seguinte, alargada a equipa do semanário, é um dos cabeças do grupo de estudantes que se atiram à publicação de um diário académico nacionalista da tarde, que viria a ser um êxito. A tal ponto que os moços lhe suprimiram o atributo de “académico” e chamaram para a sua direcção uma pessoa mais velha e de nome político já consagrado: Rolão Preto.

Poucos meses depois, o jornal – de que António Pedro foi o primeiro chefe de redacção –, era ponto de partida de um movimento político onde eram evidentes as simpatias pelo Fascismo: o Nacional-Sindicalismo.

Na criação deste movimento há dois nomes a fixar, pela sua maior vinculação à iniciativa e ao processo organizativo: o de António Pedro e o de um estudante de Direito, António Tinoco, notável pela intuição política e pelas excepcionais qualidades de acção.

Tem-se levantado por vezes a questão de ter sido ou não o Nacional-Sindicalismo um movimento fascista. Há quem diga que sim, e quem diga que não, e todos se firmam em argumentos consideráveis. Independentemente disso, certo é terem sido precisamente aqueles dois e, entre os “velhos”, Alberto de Monsaraz – os de maiores simpatias pelo Fascismo. Um por motivos estéticos acima de tudo, outro pelas razões de revolucionarismo social. Curiosamente, anos depois do malogro do movimento e da convulsão política da Europa, e embora de relações cortadas, ambos caíram no Socialismo. Tinoco chegaria mesmo a fazer parte do directório do partido. Depois, as desilusões afastaram-no da acção política. Regressou ao fogo do Catolicismo em que se educara e que foi o grande lenitivo na terrível doença que o levou. Morreu como só morrem os santos.

O Pedro, esse foi levado pela sua rebeldia permanente, dada, acima de quaisquer outros factos, a incompatibilidade do seu comprimento de onda espiritual com a fria determinação de Salazar. Firmou-se numa oposição que era ainda a do revolucionário do tipo de exaltação fascista, contra o homem que teimava em não ser chefe de um partido, mas governante de uma nação que tem de se defender e perdurar, para além das ilusões e até das justas discordâncias de uma geração insatisfeita.

Essencialmente artista, o Pedro reagia como tal. Lembro-me de uma noite em que recolhíamos a casa, subindo a pé, lentamente, as ruas da encosta do Castelo. À porta da sua casa, então na Rua de S. Mamede ao Caldas, costumávamos ficar horas em despreocupada cavaqueira. Pois nessa noite dizia-me ele com um sorriso de resignação:

- Sabe que este Salazar conseguiu ir fazendo de mim, cada vez mais, esta coisa vexatória: democrático! Veja lá: democrático!…

Evidentemente que não era democrático no sentido ideológico, se não apenas na reacção sentimental. Nem podia ser de outra forma o aristocrata do espírito e o jornalista que tinha escrito no jornal “Revolução”, entre tantas dezenas de artigos, a série de “Os Sete Pecados Mortais da Democracia”. Eram estes:

A soberba individualista;
A avareza capitalista;
A luxúria das palavras;
A ira revolucionária;
A inveja democrática;
A gula do orçamento;
A preguiça constitucional.

Diga-se de passagem que esta série de artigos ganhou, decorridos quarenta e sete anos, uma actualidade flagrante. Algumas vezes me tenho quedado a pensar como a inveja, principalmente a inveja, tem sido, ao longo de tanto processo revolucionário, a grande mola em que os ardores do idealismo não passam de mascarada.

E certo é que da fase pró-democrática de António Pedro não ficou nada de comparável aos seus artigos tão vibrantes e tão inteligentes dos anos 30 e ao magnífico “Poema de Exaltação Nacional-sindicalista”, já conhecido dos leitores de “A Rua”.

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