A «grande dívida histórica»

Texto extraído do extinto portal Imigport

Estúpido, masoquista e paranóico! Só com estes três epítetos consigo definir a tua personalidade! É preciso ser de uma menoridade mongolóide para escrever o que tu escreves e esquecer-te do passado do teu país! Nós que colonizámos, roubamos, torturamos, violamos e escravizámos estes povos africanos! Não sentes sequer vestígios de culpa nessa tua consciência microscópica? Como podes agora considerá-los como uma espécie de peso morto, a eles que durante séculos nos carregaram a nós? Nós temos uma dívida histórica! Temos o dever de os receber, de os educar e de tratar bem deles!

Eu não aceito a existência desta dívida. E você também não o deve fazer.

A actual tecnologia não permite a transmissão de mensagens para o passado. Deste modo como posso eu tentar convencer os meus antepassados a não fazerem o que fizeram? É evidente que nem nós nem qualquer outro povo da terra pode ser responsabilizado pelo que os seus antepassados fizeram.

Se assim fosse teríamos todos de estar a pagar a dívida de quando a nossa espécie levou o “homo erectus” à extinção, que por sua vez levou o “homo habilis” à extinção e assim sucessivamente. Tem de haver um limite à transmissibilidade hereditária das dívidas históricas porque senão a culpa acumulada era tão grande que a humanidade já tinha morrido de insónia.

De qualquer maneira a esmagadora maioria da população portuguesa actual nunca viveu nas ex-colónias, nunca tratou mal nenhum africano. Nunca explorou ninguém, aliás o contrário é que sucedia. Porque têm eles de andar a pagar dívidas morais?

É claro que houve portugueses que exploraram e “bem” as ex-colónias e os seus povos. Indivíduos com interesses na exploração agrícola, comunicação social, construção e obras públicas, etc. Curiosamente muitos mantêm agora no nosso país as mesmas actividades. Algumas dessas pessoas são agora altas figuras da nossa classe política. Estes sim, devem ter muitos motivos para sentir um peso na consciência. Mas são eles sozinhos que têm de lidar com ela. Se acharem que o suicídio é a única solução, pois façam-no sozinhos. Não arrastem Portugal.

Se realmente temos essa dívida, será que a única forma de a pagar é receber no nosso país o excesso de mão-de-obra dos PALOP? Será que não conseguiam negociar outra forma de pagar a dívida? Pagar em dinheiro ou em géneros por exemplo? Aumentar a cooperação? Porque é que essa dívida tem de ser paga pela manutenção das portas escancaradas?

Mas se insistem que essa dívida existe, então comecemos por verificar se as nossas supostas vítimas são realmente assim tão inocentes e têm o “cadastro” realmente limpo.

O senhor Basil Davidson, grande inimigo dos portugueses e grande demagogo ao serviço dos movimentos de “libertação”, no seu livro «À descoberta do passado de África» refere que a África era originalmente habitada por um grande número de povos diferentes entre os quais os negros propriamente ditos, os árabes, os berberes, os pigmeus, os bosquímanos, etc. Ele também disse que os negros acabaram por se tornar no grupo racial mais numeroso de África. Mas não é muito claro ao explicar a forma como isso aconteceu.

Pois bem, eu vou passar a explicar:

Ao contrário do que aconteceu com os exércitos romanos que transportavam os seus historiadores, nunca ninguém em África se lembrou de escrever a história deste continente e dos seus povos. Reconstruí-la é um trabalho de detective. Mas existem duas pistas valiosas. As línguas e os vestígios arqueológicos.

Quando os exploradores europeus acabaram o reconhecimento de África, observaram que, com excepção do extremo norte, o continente era quase totalmente ocupado pelos negros. As únicas excepções eram pequenas bolsas de pigmeus e do que restava dos povos khoisan.

Os pigmeus são um grupo racial que partilha com os negros a cor da pele mas a semelhança acaba aí. São de estatura mais pequena, têm o cabelo mais encaracolado e um crânio de formas distintas. Hoje existem apenas 200.000 pigmeus para 200 milhões de negros. Todos os indícios apontam para que os caçadores pigmeus tenham ocupado outrora todas as florestas tropicais até serem expulsos e condenados a viver isolados em pequenas “ilhas” pelo avanço dos agricultores negros. Dos antigos pigmeus já se descobriram artefactos em zonas actualmente ocupadas por agricultores negros embora ainda não se tenham descoberto esqueletos.

Os khoisan pelo seu lado dividiam-se em dois grupos. Os de estatura elevada, mais tarde designados desdenhosamente por Hotentotes que eram pastores e os San, também chamados pejorativamente de bosquímanos, de estatura pequena que eram caçadores recolectores. Estes povos formam também um grupo racial distinto e têm um tom de pele de um castanho muito mais claro que os negros, que há quem designe por “amarelado”. Foi um grupo deste povo que foi a estrela principal do filme “Os deuses devem estar loucos”. Foram também estes povos que se tornaram aliados naturais das tropas portuguesas no sul de Angola, durante a guerra colonial, quando eram designados por “setas” e muito apreciados pelas suas qualidades. As línguas khoisan só existem actualmente na África do Sul com excepção da língua Hadza e Sandawe que são faladas na Tanzânia a uma distância de mais de 1.500 milhas dos seus parentes linguísticos mais próximos. Adicionalmente as famosas consoantes “clicádas” da linguagem khoisan e algumas das suas palavras aparecem em linguagens faladas por negros do Quénia. Tudo isto sugere que as línguas e o povo khoisan outrora se estendiam bastante para norte até serem obliterados pelos negros deixando para trás apenas algumas palavras como testemunho da sua antiga presença. Arqueólogos na Zâmbia descobriram crânios e ferramentas de pedra típicas do povo khoisan.

E afinal de onde vieram os negros propriamente ditos?

As 1400 línguas africanas provêem de apenas 4 grupos originais como provaram os trabalhos do linguista Joseph Greenberd de Stanford. Os povos bantos formam hoje o grupo populacional mais numeroso do sul de África. As linguagens banto representam quase metade das 1032 línguas do grupo Níger-Congo. Só os povos que falam línguas da família Banto representam perto de 100 milhões de pessoas. Todas as 464 línguas Banto são tão aparentadas que têm sido consideradas 464 dialectos da mesma língua.

Utilizando várias técnicas e tendo em conta a actual distribuição geográfica desses dialectos e o grau de afastamento linguístico entre si foi possível reconstruir o puzzle da origem desta língua e presumivelmente do seu povo. Eles tiveram origem na zona dos Camarões e Nigéria. É esta a terra que podem genuinamente reivindicar como sendo a terra dos seus antepassados. Todos os outros territórios foram conquistados e os seus habitantes originais expulsos ou condenados à extinção.

A expansão banto começou cerca de 3000 A.C. Em 1000 A.C. já tinham chegado à zona dos grandes lagos. A costa este de África foi atingida nos primeiros anos da nossa era. Pouco depois adquiriram a tecnologia do ferro que já tinha começado a ser trabalhado na zona do Sael e finalmente num dos avanços colonizadores mais rápidos da pré-história recente deslocaram o que restava dos povos khoisan das suas terras e ocuparam-nas em poucos séculos.

O registo fóssil não gravou o que passou, mas sabemos qual foi o resultado; no fim, dos khoisan não restavam mais do que poucas centenas de famílias a viver uma vida precária no deserto escaldante do Kalahari, entre o norte da Namíbia e o sul de Angola.

Como se deu essa substituição?

De modo pacífico, simplesmente pelo acumular das inúmeras pequenas vantagens competitivas que uma cultura superior proporciona, ou violentamente? O registo fóssil é silencioso sobre isto. Mas tendo em conta o comportamento actual desses povos será que alguém é capaz de apostar o braço direito em como essa substituição não se deu também por via violenta? Algum povo na história cedeu o terreno que ocupava sem dar luta? A ausência de prova não é prova da ausência.

Uma coisa é certa: um povo não só se apoderou do território antes ocupado por outro, como o substituiu quase completamente, atirando o povo nativo para a beira de extinção! Agora existe um nome para isso. Chama-se genocídio!

As potências coloniais europeias nunca chegaram a este extremo!

Quando é que os povos banto chegaram às nossas ex-colónias? Não se sabe com precisão. Mas sabemos que quando os Holandeses chegaram à zona do cabo ainda lá viviam grupos de khoisan e os negros Xhosa ainda lá não tinham chegado. É muito possível que quando os nossos navegadores chegaram a Angola, o povo que lá encontraram tenha colonizado e ocupado esses territórios há poucas centenas de anos atrás, quanto muito. Eles não eram nenhuns anjinhos que lá viviam pacatamente desde a noite dos tempos!

Espero que o leitor se esteja a aperceber de todas as consequências disto. É que as nossas supostas vítimas TAMBÉM são descendentes de COLONIZADORES! Precisamente da ÚLTIMA vaga de colonização a atingir o sul de África antes da chegada dos europeus. E eles foram bem mais longe! O que é pior? A escravatura ou o genocídio?

Deixemo-nos de complexos! Os negros jogaram o jogo da história como todos os outros povos. Umas vezes jogaram bem, outras jogaram mal. Umas vezes ganharam, outras perderam. Tal como todos os outros povos. Eles não são nenhuns coitadinhos fadados para o papel de vítimas!

Se nós temos uma dívida moral a pagar pelo que fizeram os nossos antepassados, então os negros não têm também uma dívida moral a pagar pelo que os seus antepassados fizeram aos khoisan e aos pigmeus? Já a começaram a pagar? Porque é que só se fala na nossa dívida e não na deles?

Nós já entregamos os territórios que ocupamos, através desse processo que ficou conhecido como a “descolonização exemplar”. E eles? De que esperam para devolver os territórios ocupados aos khoisan e aos pigmeus?

Mas existe mais um pormenor que eu considero simplesmente delicioso: Um grupo de cientistas tentou determinar o grau de parentesco genético entre grupos negros seus vizinhos e os khoisan e chegou a uma interessante conclusão: Eles estão bastante separados! Tudo indica que houve muito pouca mistura de sangue! Como explicar isto? Como explicar que duas raças vivam nas proximidades uma da outra durante provavelmente centenas de anos sem que tenha havido mistura de sangue? Será que os negros não achavam os khoisan suficientemente atraentes? Ou será que os negros consideravam os bosquímanos uma raça INFERIOR? Parece que Hitler não foi original nas suas teses de higiene racial!

Os SOéSes tinham um cartaz de propaganda que mostrava uma mulher negra e dizia mais ou menos isto: “Eu já fui escrava. Você é racista. Eu pelo menos evoluí”.

Se esses meninos se tivessem dado ao trabalho de estudar a história de África poderiam ter escrito uma frase mais completa: “Eu já fui escrava. Também fui colonizadora e até genocida. Você é racista mas eu ainda sou mais. Será que evoluí alguma coisa?”

Talvez…

É evidente que isto não foi sempre a regra. Houve também miscigenação. Por exemplo o povo xhosa de Nelson Mandela não pode esconder os seus genes khoisan. Mas os zulus já não aparentam possuí-los.

E a escravatura? Nós não começámos a escravatura em África. Foram os árabes os primeiros, dos tempos modernos, a traficar com os escravos africanos. E eles eram apenas intermediários. Quem caçava os negros, eram OUTROS negros. Houve tribos que se especializaram nisso. Houve reinos africanos que viveram épocas de grande prosperidade à pala do negócio da escravatura. Só mais tarde os nossos antepassados começaram a cobrir todas as fases do “negócio”.

Eu não estou a tentar legitimar a escravatura. Ela foi algo de horrível. Só peço é que as coisas sejam vistas na devida perspectiva. Não é justo que os nossos antepassados sejam retratados como os piores monstros, responsáveis por tudo o que de mau aconteceu aos negros, sobretudo quando os próprios negros têm o palmarés que já descrevi.

Portugal, que na altura se chamava Lusitânia, também foi durante três séculos uma colónia do Império Romano. É quase certo que muitos dos nossos antepassados também foram escravizados. Alguma vez nos lembramos de ir cobrar dívidas morais à Itália?

O nosso país também foi ocupado por árabes durante cinco séculos. Perdemos a soberania para Espanha durante 75 anos, sofremos as invasões francesas. Durante o século XIX as coisas corriam-nos tão mal que Portugal quase se transformou numa colónia de Inglaterra; eles eram os donos das nossas maiores empresas, controlavam uma significativa porção do nosso comércio externo, etc.

De cada vez que nos livramos dessas situações de subjugação passamos as décadas seguintes a culpar o “inimigo” por todos os nossos males? Não tenho conhecimento de que tenha sido essa a nossa actuação. Aliás todos os países europeus passaram por situações difíceis. E todos eles reagiram da mesma maneira: Lamberam as feridas e seguiram em frente!

Só os africanos negros parecem estar determinados a passar o resto da eternidade a usar o colonialismo europeu como bode expiatório para todos os males que afligem os seus países.

E durante mais quanto tempo vão eles fazer isso? Mais 50 anos? Mais 500 anos? Mais 5000 anos?

E quanto à obrigação de os educar? Eu não percebo estas pessoas. Por um lado desfazem-se em rasgados elogios aos heróis africanos que resistiram durante 500 anos à aculturação europeia. Por outro, acham que eles são ignorantes por nossa culpa e é nossa obrigação educá-los! Em que é que ficamos? Decidam-se de uma vez por todas!

Bom, uma vez que estamos a falar de dívidas, temos que falar em amortizações: Durante os séculos XVIII, XIX e grande parte do século XX as colónias africanas nunca deram lucro. Elas eram antes um pesado fardo para o Estado português. Só na década de 50 é que Angola e Moçambique começaram a conseguir bastar-se com os seus próprios recursos. Cabo Verde, Guiné e São Tomé NUNCA chegaram a ser economicamente independentes. Foram os portugueses da metrópole que pagaram as cidades que deixamos em África, bem planeadas, espaçosas e melhores do que as que tínhamos em Portugal. O mesmo se passou com as infra-estruturas, as escolas, os hospitais, etc. A ideia bastante divulgada de que nós vivíamos à conta das colónias africanas é falsa. Pelo menos até aos anos 50 foi precisamente o contrário que se passou. Isto não abate nada na dívida?

Nessas colónias montámos um sistema educativo e de cuidados médicos que eram justamente considerados dos melhores de toda a África. Isso não abate nada na nossa dívida histórica?

E os portugueses que dedicaram a sua vida a esses territórios, que com o seu trabalho contribuíram para o seu progresso e prosperidade e que no fim tiveram que regressar quase só com a roupa que traziam vestida? Isso não abate nada na nossa dívida?

Na década de 60 rebeldes da UPA, no norte de Angola atacaram fazendas dos colonos portugueses. Mataram com armas primitivas homens, mulheres e crianças, na maioria dos casos com requintes de malvadez e no fim declararam-se não arrependidos e disseram que hoje repetiam tudo. Isso também não desconta nada?
E os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé que estavam desertos quando os encontrámos? Nós fomos os primeiros habitantes dessas ilhas. O facto de lhes termos concedido a independência foi um acto de generosidade ao qual não estávamos obrigados. Isso também não amortiza nada?

E o que temos gasto em programas de cooperação, em perdões de dívidas, em ajudas alimentares, em apoio a refugiados, em reservar nas nossas universidades lugares para africanos?

Mas afinal quanto é que ainda devemos?

E daqui por umas décadas vão cobrar aos nossos descendentes a dívida da forma como os trabalhadores imigrantes ilegais estão a ser tratados pelos “patos-bravos” desde a década de 80?

NOTA: Mais pormenores sobre a pré-história recente de África podem ser encontrados no artigo «How Africa became black» de Jared Diamond publicado na revista “Discover magazine”.

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