A Revolução Conservadora

Introdução

Movimento intelectual e político não-monolítico, conjunto plural por vezes contraditório e heterogéneo, a Revolução Conservadora alemã foi um fenómeno geracional que espelha profundamente a marca da I Guerra Mundial, da experiência da derrota, da agitação revolucionária comunista dos anos 1918-1920 e da humilhação do Tratado de Versalhes. Neste contexto dramático, a sua originalidade foi a de não ter defendido posições reaccionárias ou restauradoras da antiga ordem Guilhermina, mas a de ter querido uma outra modernidade extirpando os estigmas da modernização científica e técnica, abordando conjuntamente temas da direita e da esquerda, tradicionalmente entendidos como contraditórios.

Aspectos e figuras da Revolução Conservadora alemã (1918-1932)

Na esteira de pais espirituais como Friedrich Nietzsche, o movimente revolucionário-conservador desenvolveu-se, na aurora do século XX, como uma oposição radical aos sistemas ideológicos nascidos das “Luzes”, da Revolução Francesa e do triunfo progressivo dos “valores” burgueses. A sua expressão alemã constitui-se no ponto principal e é melhor conhecido desde o trabalho monumental do historiador das ideias Armin Mohler. Resultante de um sentimento de crise face à civilização capitalista moderna, esta corrente de ideias complexas esforçou-se por ultrapassar aquela através de um novo modelo de sociedade civil e política. Malgrado a sua especificidade alemã, a Konservative Revolution (KR) junta-se a outras tentativas na Europa de responder ao desgaste causados pelo progresso destruidor de valores e das estruturas tradicionais.

Desejando conciliar libertação nacional e revolução social numa óptica identitária de «Terceira via», nem de direita nem de esquerda, os representantes da KR formam a terceira família de opositores à República de Weimar depois dos comunistas e dos nacional-socialistas. Geralmente hostil ao «jacobinismo castanho» destes últimos, considerando-os como plebeus, totalitários e massificadores, os autores da KR repartem-se, segundo Mohler, em três grandes famílias: os jovens-conservadores, os nacional-revolucionários e os volkischen aos quais se juntam duas cristalizações passageiras: nomeadamente as tendências relativas às Ligas de Juventude (Bündische Jugend), herdeiras dos velhos Wandervögel, e o Landvolkbewegung (revolta camponesa do Schleswig-Holstein).

Algumas figuras

Entre as figuras mais conhecidas, encontramos Arthur Moeller van den Bruck, Oswald Spengler e Carl Schmitt nos jovens-conservadores; os irmãos Jünger, Ernst von Salomon e o nacional-bolchevique Ernst Niekisch na família nacional-revolucionária; Herman Wirth, Ludwig Ferdinand Clauss e Hans F.K. Gunther entre os volkischen.

Para o escritor berlinense Arthur Moeller van den Bruck, reunindo as suas forças vivas o povo seria capaz de por si só inverter o processo de divisão inerente ao grande capital. O seu Das Dritte Reich (que deveria intitular-se no início O Terceiro Partido) publicado em 1922 queria-se por um lado “revolucionário”, “socialista”, “proletário” – de acordo com o “direito dos povos jovens”. Ele afirma que ser conservador, é criar os valores que merecem ser conservados e pretende que o seu socialismo nacional seja capaz de recriar uma comunidade destruída pela sociedade moderna. A dialéctica entre esses dois termos, retomando a antítese cultura/civilização, tem um aspecto formal (“Devemos ter a força de viver nas contradições” disse ele), mas trata-se, antes de tudo, de acabar com Weimar em nome de valores superiores. Para ele a nação havia tomado o lugar do proletariado como sujeito-objecto da história (versão marxista), havia se tornado a última razão (versão liberal), uma ideologia heróica capaz de aristocratizar as massas, uma terceira frente, entre o liberalismo humanista (unido pelo conservadorismo modernizado e liberalizado e por uma social-democracia revisionista) e o socialismo marxista que combate a exploração capitalista mas permanece animado pelo mesmo projecto de igualdade abstracta.

Oswald Spengler, frequentemente apresentado – e um pouco rapidamente – como um profeta do declínio, surge como outro grande pensador da KR. Ele não possuía segundo ele próprio sentido geral da história, a humanidade não sendo senão uma entidade abstracta, sendo as únicas unidades históricas reais as culturas que um método de morfologia histórica permite identificar e estudar. A história universal não é mais do que a biografia comparada das culturas movidas por uma necessidade imanente que é o seu “destino”. Em oposição ao seu método interpretativo, o tema da cultura ocidental e do seu declínio (a fase do declínio corresponde, no vocabulário de Spengler, à civilização) tem uma tonalidade trágica. Defendendo uma concepção orgânica das civilizações, para ele só a Alemanha – como Roma que absorveu e continuou a herança grega – pode assegurar a sobrevivência do Ocidente, declinação de um tema forte do romantismo. O Imperium Germanicum impor-se-á se conseguir reconciliar os diversos grupos sociais (Socialismo e Prussianismo, 1920): a ideia de luta das classes é assim rejeitada, bem como a dos partidos que não servem senão os seus próprios interesses; os que acicatam os antagonismos são incapazes dessa grandeza necessária para reunir os alemães.

À constelação KR, pertencem também os irmãos Jünger, sem compromisso com as elites e em que Ernst dá conta de que a modernização técnica conduz a uma ordem planetária que torna de uma certa maneira o seu nacionalismo obsoleto, o jurista católico Carl Schmitt, que coloca em equação a política e o Estado, dando à primeira a prioridade e fazendo do segundo a imagem fútil de uma acção efémera da história, um instante destinado a desaparecer (em contrapartida a política é, por oposição natural a todas as contingências, a própria substância, que se manifesta numa relação, ao mesmo tempo natural e específica, entre os homens: nomeadamente a amizade e a inimizade. O princípio político e a acção manifestam-se nesta relação. As diversas formas de poder em que as lutas sociais e económicas manifestam a violência contida nas sociedades), ou o antigo líder social-democrata Ernst Niekisch que retém da Rússia estalinista uma forma particularmente eficaz de socialismo nacional. A amplitude da actividade estendida por estes neo-conservadores mostra bem que esta corrente é proteiforme: mais de 500 publicações, perto de 400 “organizações”, desde as formações paramilitares às ligas, passando por múltiplos círculos culturais.

Especificidade da KR

Esta vontade de destino presente na KR deve sobretudo o seu impulso ao choque da I Guerra Mundial, verdadeiro traumatismo que marca verdadeiramente a mudança de século. Enquanto que a velha direita monárquica vê a derrota como o resultado de uma conspiração das esquerdas derrotistas, aqueles a que vamos chamar revolucionários-conservadores consideram-na não como um azar mas como uma necessidade da qual convém decifrar o sentido: “Tínhamos de perder a guerra para ganhar a Nação” dirá Franz Schauwecker, figura do movimento nacional-revolucionário; uma vitória da Alemanha guilhermina, burguesa e esclerótica, teria sido uma derrocada da “Alemanha secreta”. Essa prova (espécie de Krisis entre a vida e a morte) pode e deve, por conseguinte, permitir à Alemanha ultrapassar o guilhermismo, recomeçando sobre novas bases. Estas últimas são simples, apresentando por isso mesmo uma coerência ideológica da KR:

- Hostilidade à Europa ocidental e à “civilização”, entendida como quinta-essência da razão pura, das Luzes, da efeminação dos costumes, da decomposição dos valores, do espírito burguês e da arte clássica. A isto os conservadores-revolucionários vão ôpor a “cultura”, ou seja a subjectividade expressa pelas artes e em especial o romantismo, expressão da procura do infinito. À “massa”, opõem o “povo”.

- Interesse pelo leste de acordo com um certo espírito prussiano e pela análise de que os povos alemães e russos têm interesses comuns face ao Ocidente. Daqui deriva uma certa benevolência em relação à Rússia bolchevique, levada ao extremo pela corrente nacional-bolchevique.

- Vontade de transformar a experiência da guerra em origem de um mundo novo de acordo com uma orientação nietzscheana. De facto, numerosos serão aqueles que se recusarão a adaptar-se à vida civil e à normalização individual burguesa.

- Concepção cíclica ou “esférica” do tempo, o que explica o uso do termo “revolucionário” no seu primeiro sentido. Para este movimento político e intelectual, trata-se de fechar um ciclo para abrir um novo. Mas mais do que ter uma concepção redonda mas linear do tempo – que é o círculo – encarando este último como uma esfera onde qualquer futuro é possível por pouca que seja a vontade humana. Em todos os casos, opõe-se de maneira virulenta à concepção linear e limitada do tempo cristão ou marxista, globalmente similares.

Se a KR encarna a luta contra a ideologia dominante da época de Weimar (preconizando uma democracia “formal”, defensora do liberalismo burguês), ela não pode, contudo, ser reduzida a uma antecipação do nacional-socialismo. Por um lado, as ideias da KR encontram-se, sob formas especificamente nacionais, em todos os países da Europa desde a segunda metade do século XIX. Por outro lado, este formidável “laboratório de ideias” portador de um projecto de civilização (uma germanidade renovada) que é a KR verá parte dos seus temas adoptados pelo Estado-partido, sobretudo para melhor asfixiar o seu potencial subversivo. Tendo em conta o niilismo europeu (descristianização a partir do século XVIII, seguido pela atomização social aquando da segunda Revolução Industrial, são, de resto, mais os sintomas que causas desta lógica niilista), a tensão constitutiva da KR como “modernismo anti-modernista” não pode ser reduzida a uma “linguagem totalitária”. Visando um Estado autoritário que teria voltado a dar à Alemanha o seu estatuto de grande potência, a KR rendeu o lugar ao Estado totalitário que esta tinha, sem dúvida, a intenção de impedir.

Historicamente, é reconhecido hoje que os meios da oposição real (ou potencial) ao hitlerismo levaram a marca da KR, mostrando, por conseguinte, uma autonomia em relação aos movimentos de massificação da época. Renegada por um conservadorismo que a encarava como demasiado liberal ou por um socialismo proletário que a considerava demasiado revisionista ou materialista, a KR adopta, no entanto, uma atitude voluntariosa perante a evolução do mundo moderno: visa tanto a “grande noite” como o “grande momento decisivo”. Os promotores da KR são assim, à sua maneira, revolucionários, mas permanecem conservadores na sua preocupação de salvaguardar ou reencontrar os valores essenciais do seu país. Não querem ser simples reaccionários que se agarram a um passado já terminado, a revolução deve ter por objectivo a restauração de valores que merecem ser conservados e que o curso do tempo põe em perigo.

Contrariamente ao conservadorismo tradicional e às suas nostalgias passadistas, a KR aprova resolutamente a modernidade instrumental, rejeitando ao mesmo tempo e de igual forma resoluta as Grandes Receitas emancipadoras da modernidade substancial. A KR é eminentemente moderna dado que traduz o desencanto face à modernidade e tende a substituir as religiões secularizadas por religiosidades novas, nacionais ou seculares (cristianismo nacional, misticismos pagãos, religiões políticas); é eminentemente modernista dado que aprova aquilo que Jaspers nomeia como “a ordem técnica de massa”, modernidade técnica e social, vector de uma mobilização total (daí as diversas triturações de socialismo nacional). Mas permanece anti-modernista na medida em que rejeita sem concessão o projecto normativo da modernidade procedente do Aufklärung e prosseguida tanto pelo liberalismo (apesar da sua traição no e pelo capitalismo) como pelo marxismo (apesar da traição estalinista). Se a revolução se duplica aqui indissociavelmente e simultaneamente da sua contra-revolução, e que traduz correctamente o sintagma paradoxal de “revolução conservadora” avançado por Mohler, conclui-se que para alterar a modernidade não se pode fazê-lo senão assumindo-a plenamente.

Un Amor fati nietzscheano

A particularidade da KR está naquilo que a levou a aprovar, ou mesmo a glorificar, o mundo como a modernização o fez e de ter proposto um impulso para uma espécie de hiper-modernidade desembaraçada dos discursos humanitários que nivelam a diversidade do real. Com o retrocesso, a sua vontade de superar o niilismo insuflando a energia originária extraída do povo alemão constituiu não tanto uma fuga para a frente mas antes uma aposta lúcida sobre o futuro, aposta carregada de gravidade mas também de força de alma.

“Fenómeno político que envolve toda a Europa e que ainda não atingiu o fim do seu curso” (Armin Mohler), a Revolução Conservadora alemã, que teve um impacto evidente nos movimentos nacionalistas-revolucionários dos anos 1970, permanece um universo ainda mal conhecido hoje. No limiar de um terceiro milénio carregado de perigos e de possibilidades, merece ser redescoberta pelas novas gerações de europeus que poderão extrair do seu realismo heróico uma lição de coragem, distante dos cobardes receios ou dos discursos de oposição formal que deixam no final o indivíduo desmobilizado, mas também explorado. Goethe recordava que por natureza a acção é início. Ela não se escreve sob o ditado das circunstâncias: empresta-lhes a sua matéria, insufla-lhes o seu espírito. Como o pensamento, a acção não é colectiva: associa, une ou opõe os indivíduos. Se os mistura, não os confunde. Como em todas as realidades enigmáticas e fundadoras, atributos contrários são a ela atribuídos: a acção é ao mesmo tempo o vazio e o cheio, o nada e o cumprimento, a ausência e a realização, o fugitivo e o essencial. Da sua opacidade criadora, dos seus desafios intermitentes e imperiosos, os homens escolhem à sua vontade a sua degradação ou a sua elevação.

As três grandes tendências da KR

No seio deste movimento bastante polimorfo, podemos distinguir três grandes tendências: os nacional-revolucionários, os jovens-conservadores e os völkisch. Elas tinham em comum a rejeição violenta da República de Weimar que perpetuava sob ornatos republicanos o estilo de vida burguês, tornando os seus anos iniciais difíceis através dos sobressaltos provocados em grande parte por aqueles que regressavam das trincheiras e que consideravam a situação inaceitável. Contudo, estas três tendências divergem igualmente no estilo e na táctica, bem como na visão da futura Alemanha “regenerada”. Apesar de tudo reencontra-se uma mesma rejeição do Aufklärung. Note-se, porém, que a nação ou o Estado preocupam muito menos os völkisch que o povo, o qual tem de reencontrar o sentido da terra, ou seja da vida… Os völkisch recorrem a um recrutamento mais popular, ainda que esta “prática plebeia” (L. Dupeux) não significasse a adesão ao princípio democrático. Se eram animados por uma ética racialista, não se pode, todavia, reduzir esta a um racismo biológico ou a um fanatismo pangermanista.

Descodifiquemos então essas três tendências:

1) A tendência völkisch é a mais voltada para o passado dado que quer defender o “povo”, entendido como identidade étnica e espiritual. Sem estar a pretender retornar a uma época ultrapassada – a origem indo-europeia – ela quer acima de tudo servir de ponte. Esta corrente exprimiu-se por orientações racialistas, um regresso a uma espiritualidade ocultista ou pagã, uma preocupação pela ecologia e pela conservação da vida no campo. É sem dúvida a tendência menos “política”, no sentido que se dá a este termo.

2) A corrente jovem-conservadora de facto difere totalmente deste projecto querendo claramente agir politicamente sobre o presente, afirmando-se de direita. Coloca-se na linha do conservadorismo alemão que pretende regenerar de acordo com a fórmula do teórico Albrecht Eric Günther: “entendemos por princípio conservador não a defesa do que existia ontem, mas uma vida fundada sobre o que terá sempre valor”. Violentamente hostil ao liberalismo, a corrente jovem-conservadora adopta uma terceira via económica entre a economia de mercado e a economia colectivista planificada, a qual se apoia largamente nas “corporações” (ainda que este termo seja inoportuno). Politicamente, os jovem-conservadores são assombrados pela memória do Santo Império germânico e o seu federalismo imperial que eles desejavam estender à Europa.

3) Por fim, a última tendência é a corrente nacional-revolucionária. Activista e anti-burguesa, identifica-se com o mundo urbano e industrial, distante da mística völkisch. Se a noção política central do movimento völkisch é o “povo” e a dos jovens-conservadores “o império”, os nacional-revolucionários colocam a “nação” como eixo de análise. Encarnado por Ernst Jünger, o movimento tem uma ala esquerda bem conhecida: o nacional-bolchevismo, animado designadamente por Ernst Niekisch. É da corrente nacional-revolucionária que provirão a maior parte das tentativas de desestabilização da República de Weimar nos anos 1920: assassinatos políticos (os ministros Erzberger e Rathenau), tentativas de putsch…

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