Dutra Faria

Por Barradas de Oliveira (introdução de Manuel Azinhal)

Na convicção de que os apontamentos sobre a história do nacional sindicalismo português interessaram a três ou quatro leitores acrescento hoje um artigo de Barradas de Oliveira, publicado a 13 de Julho de 1978, no n.º 109 do semanário "A Rua", na sequência do falecimento do seu amigo e companheiro Dutra Faria. Toca nalguns pontos cruciais para o conhecimento das origens desse movimento, com a autoridade de também ter lá estado. Já agora não resisto a um reparo: tenho lido constantemente repetida em diversos locais (desde a obra de João Medina até à página do CEPP) a afirmação de que o grupo de estudantes que promoveu o "diário académico nacionalista da tarde" intitulado de "Revolução" era constituído por rapazes "quase todos de Direito". É falso: vendo bem os nomes habitualmente indicados, ou falando alguma vez com algum deles quando era tempo, constata-se que apenas um era estudante de Direito. Os restantes eram de Letras. Este pormenor, a origem na Faculdade de Letras de Lisboa e não na Faculdade de Direito, não é tão irrelevante como possa parecer. Fico por aqui, esperando que apreciem a evocação do açoriano Dutra Faria, um dos jovens que esteve na génese do nacional-sindicalismo. - Manuel Azinhal

Daquele grupo de rapazes que em 1930 partiram a enfrentar a vida, dispostos a um esforço da agitação de ideias que projectasse a sociedade em que viviam nas realidades simultaneamente do seu tempo e da sua história, Dutra Faria era dos já raríssimos sobreviventes.

Viera da sua cidade de Angra do Heroísmo em 1929, para entrar como caloiro na Faculdade de Letras de Lisboa. Já então havia publicado na sua terra um voluminho de ensaios literários e trazia a sua primeira experiência jornalística da revista "Cruzada Nova", que dirigira ainda aluno do liceu, com Correia de Melo.

Em Lisboa marcara logo pelo brilho da linguagem serena, clara, elegante, os seus artigos na revista "Política".

A Europa vivia um período de transformação radical, à qual não foram estranhas as novas gerações portuguesas. Dutra Faria e António Pedro publicaram então um semanário nacionalista revolucionário, a "Acção Nacional", que teve a vida efémera dos semanários da época: saíram só nove números. Fora porém, apenas um ensaio, porque em 1932 apareceram os nomes dos dois moços, juntos com os de António de Sousa Rego e António Maria do Amaral Pyrrait, todos estudantes, no cabeçalho de um diário académico nacionalista da tarde: a "Revolução". O êxito desta levou a uma ampliação, sem o restritivo do académico, e a chamar à direcção do jornal o dr. Rolão Preto. Dali haveria de nascer o movimento nacional-sindicalista que, num momento, agitou muita gente e perturbou o Poder. O Dr. Salazar fê-los extinguir – ao jornal e ao movimento.



Mais tarde encontrámos Dutra Faria como chefe da redacção do semanário "Fradique", de Tomaz Ribeiro Colaço, como colaborador do "Diário de Lisboa", ao tempo dirigido por Joaquim Manso, e do "Notícias” de Lourenço Marques, de Manuel Vaz.

António Ferro convida-o para redactor do SNI, sem prejuízo da colaboração assídua no semanário "Acção" de Manuel Múrias.

Quando este é escolhido pelo Dr. Salazar para dirigir o "Diário da Manhã", chama Dutra Faria para chefe da redacção. Dali sairia em 1947 para dirigir a agência noticiosa ANI, que fundara de sociedade com outros dois jornalistas. Na ANI trabalhou intensivamente até Novembro de 1974.

Desempenhara também, entretanto, nos anos 60 o cargo de director-adjunto de “A Voz”. Já havia antes recusado o cargo de Secretário Nacional da Informação, para que fora convidado pelo ministro da Presidência Marcelo Caetano, com quem antes colaborara activamente nos sectores culturais da Mocidade Portuguesa. Queria ser antes jornalista e só jornalista.

Fez parte do grupo inicial de trabalhadores do “Diário Popular" e foi também fundista do "Diário de Notícias". A sua colaboração mais vasta, porém, foram as crónicas, os artigos, as entrevistas, que a ANI distribuía por dezenas de jornais da província, do Ultramar e dos núcleos portugueses do estrangeiro, constituindo assim o primeiro elemento de coesão das comunidades portuguesas dispersas pelo Mundo. São milhares de peças de um grande jornalista, que aliava à sedução do estilo, a finesse de um espírito superior, a actualidade palpitante do assunto, a serenidade de juízo, o ânimo de tolerância e a capacidade de conversar urbanamente com amigos e com adversários. Milhares de crónicas que são um verdadeiro monumento de jornalismo disperso, até que um dia as vão recolher como elementos indispensáveis à história duma época.

Foi durante anos comentador internacional da Televisão e, em 1976, dirigiu no Rio de Janeiro a delegação da agência noticiosa EFE naquela cidade. Os seus últimos trabalhos foram os artigos que escreveu para “A Rua”.

Deixa alguns livros: "Ao acaso", 1928; "Carta ao Director do Diário da Manhã," 1932; "Unidade da Juventude", 1935; "Roda do Tempo", 1936; "De Marinetti aos dimensionistas", 1936; "Diário dum intelectual comunista", esboço dum romance, 1936; "Navegação de paz e de glória", 1945; "S. Francisco e o problema da paz", 1945; "O mistério da serra interdita", romance de aventuras publicado sob o pseudónimo de Patrick Al Cane, 1945; “Debate inoportuno", 1962; "Portugal do Capricórnio", 1965; e "Mientras sopran los vientos de la História”, em espanhol, 1968.

Maurrasiano de formação mental e adesão da inteligência, não o impediu a sua cooperação com os governos nacionais de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano de defender sempre as posições monárquicas dos novos, até como elementos de correcção necessária e flecha dirigida ao futuro. Os seus candidatos eram os do partido popular monárquico de então…

Dutra Faria de seu nome completo, Francisco de Paula Dutra Faria faleceu de acidente cardiovascular na madrugada do dia 6 de Julho de 1978, no hospital de Santo António dos Capuchos. Contava 68 anos.

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