Ser anarquista de Direita

Por Jean-Marc Goglin (traduzido para português por J.M.)

O anarquismo surge no final do século XIX e recusa, em nome das liberdades individuais, a noção de progresso que a sociedade industrial em vias de se constituir lhe tenta impor.

O anarquista de direita não é um simples individualista. Ancora os seus valores na recusa da democracia. Eleva-se contra as normas rígidas dos pensamentos e dos comportamentos nascidos da revolução industrial e quer-se o defensor dos valores aristocráticos tradicionais da França.

I. Recusar a democracia

O anarquista de direita recusa filosoficamente a herança de 1789. Recusa o postulado igualitário legado pela Revolução Francesa e nega a legitimidade da maioria. Segundo ele, o critério quantitativo não pode dar legitimidade à escolha. A escolha pode ser efectuada apenas por alguns. Definir a liberdade como um princípio colectivo afigura-se incoerente para o anarquista de direita. A liberdade é individual e não é senão o privilégio de uns quantos. Um governo revolucionário não pode em caso algum oficializar a liberdade e os direitos que daí decorrem. Com efeito, a liberdade escolhe-se e constrói-se graças à vontade e à energia. O anarquista de direita recusa por conseguinte a legitimidade da República. Segundo ele, esta representa a decadência tanto moral como política. Ele considera o sistema político instável, corrompido e ineficaz. Segundo ele, a burguesia detém de facto o poder e mascara a sua dominação sob um semblante democrático que conduz à tirania colectiva.

O anarquista de direita odeia o intelectual que é o inventor da democracia. Julga-o irrealista, inconsciente. Acusa-lhe o seu sentido da história que vai inevitavelmente para o progresso. Recusa igualmente o sentido da história de Auguste Comte como o de Karl Marx.

A ilusão que o intelectual tem ao definir as grandes perspectivas políticas apresenta-se, por consequência, como um perigo para o anarquista de direita. Não somente o intelectual não é um guia, como apodrece os fundamentos da sociedade. Teoriza mal e é incapaz de agir ele próprio de acordo com as suas ideias, as quais são, de resto, inaplicáveis. O anarquista de direita considera assim, na esteira de Friedrich Nietzsche, que o século XIX é um século de decadência ao mesmo tempo individual e colectiva. Segundo ele, a espiritualidade desaparece sob a ilusão do progresso técnico.

II. Propor um ideal libertário e aristocrático

O anarquista de direita considera que tem o dever intelectual e moral de revoltar-se. Esta oposição conduz frequentemente o anarquista de direita à violência: nos seus propósitos, nos seus escritos mas também nos seus actos.

Opõe-se primeiramente às instituições que sob a cobertura da democracia aprisionam as liberdades individuais. Ele fustiga igualmente a inércia da colectividade cega. A noção de povo afigura-se-lhe como um mito porque este é incapaz de pensar e agir. Ele fustiga não os poderosos mas os medíocres que deixam fazer, ou seja fabricar, os poderosos.

O anarquista defende a ideia que é necessário responsabilizar os homens. O anarquista de direita propõe uma filosofia do “eu”. Este “eu” deve ser violento, exigente, lúcido e criador. Como Arthur de Gobineau, ele considera que o “eu” original é primordial e que é necessário ser-lhe fiel. Os valores adquiridos durante a infância estruturam o indivíduo para sempre e devem ser salvaguardados. O anarquista defende o aristocratismo que é para ele a demanda perpétua da excelência através dos valores que são a honra, a fidelidade, o heroísmo… O aristocrata é aquele que sabe harmonizar a força dos seus desejos e a severidade das suas exigências.

O anarquista descobre valores comuns com o Antigo Regime. Ele não é, contudo, monárquico. Com efeito, ele é mais nostálgico dos ideais de cavalaria do que da organização institucional.

O anarquista de direita tenta apresentar uma síntese entre a expressão da liberdade total e o reconhecimento dos valores superiores do indivíduo. Ele pertence a uma corrente de pensamento que marca a vida política do século XIX na sua oposição às outras grandes correntes de pensamento do século: a democracia, o marxismo, o socialismo, o bonapartismo e o liberalismo.

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