A manipulação da opinião pública

Texto não assinado extraído do site da Acção Monárquica Tradicionalista

Desde a Revolução Francesa, mas mais especificamente desde a vitória do liberalismo, na primeira metade do século XIX, que se tem vindo a verificar uma consolidação lenta mas segura do poder económico sobre as sociedades nos países desenvolvidos. Enquanto no século XIX e na primeira metade do século XX ainda era possível encontrar movimentos tendentes a contrariar esse predomínio do poder económico, pode-se dizer que a história a seguir à II Grande Guerra se resume, do ponto de vista político, à subjugação das sociedades aos interesses económicos. Sobretudo desde que o desaparecimento das fronteiras económicas e o avanço da globalização permitiu o aparecimento de colossos económicos e financeiros mais poderosos que muitos Estados ainda formalmente soberanos.

A lógica do sistema capitalista é a maximização do lucro. Para isso é preciso produzir bens e serviços que os consumidores queiram – nem que tenham de ser convencidos a querê-los – mas é igualmente preciso eliminar tudo aquilo que possa dificultar o processo da maximização do lucro. Desde as barreiras à livre circulação de bens e serviços até à capacidade das forças sociais (tais como os sindicatos) para se oporem à lei da selva que tão bem serve as grandes multinacionais. O que significa garantir que os governantes estejam dispostos a servir prioritariamente os interesses dos grupos económicos.

Se se vivesse em regime político ditatorial era relativamente simples ignorar essas forças sociais, impondo pela força as políticas que servissem os interesses económicos. Uma polícia política e a censura nos órgãos de comunicação social garantiriam a passividade da população face ao predomínio de uma oligarquia de base económica ou empresarial. Quando se quer evitar o odioso ditatorial e se opta por formas “democráticas” de poder, já não se pode impor a vontade da oligarquia pela força. Terá de se manipular a comunidade a aceitar como boas as opções que servem os interesses oligárquicos.

Esse processo de manipulação será tanto mais fácil quanto menos desenvolvida for a comunidade. A falta de conhecimentos e a falta de consciência dos interesses próprios torna mais fácil a venda de gato por lebre. Tudo o que é necessário é controlar os principais órgãos de comunicação social e marginalizar todos os potenciais oponentes. No campo eleitoral isso permite fazer eleger apenas os amigos da oligarquia. No campo das ideias isso permite divulgar apenas as mensagens que são favoráveis a essa mesma oligarquia. Sem que a maioria das pessoas sinta que os seus direitos fundamentais estão a ser violados. Vejamos como isso se passa na prática.

Os custos substanciais de fundar e manter um órgão de comunicação social de âmbito nacional são tais que, sem financiamentos externos, o seu preço seria excessivamente alto para os consumidores. O auto financiamento desses órgãos é hoje praticamente impossível. A sua manutenção depende portanto de dois factores: os financiamentos por parte de accionistas e a publicidade. Evidentemente que só grandes empresas nacionais ou multinacionais têm a capacidade financeira para enterrar meios significativos em empresas de rentabilidade duvidosa. E só o farão se esse investimento lhes gerar dividendos de outra espécie. Nomeadamente influência sobre o público e sobre a classe política, capaz de criar meios de expansão dos seus lucros empresariais. Um público conformado – senão entusiasta – com um sistema favorável aos interesses económicos, como é a globalização num quadro liberal-capitalista, é uma garantia de não oposição à prossecução desses interesses económicos. A eleição de políticos dependentes do poder económico garantirá legislação e governação favoráveis a esses interesses. Os meios de comunicação social pertencentes a grupos económicos automaticamente servirão os interesses dos seus proprietários. Os poucos que tenham uma estrutura accionista independente serão controlados pela necessidade de acesso à publicidade. Como a publicidade é paga em grande parte pelos grandes grupos económicos, estes poderão, pela ameaça de não comprar espaço publicitário, garantir atitudes favoráveis aos mesmos interesses económicos.

Uma vez garantida a subserviência dos meios de comunicação social, é relativamente simples manipular as opiniões e o sentido de voto da maioria dos cidadãos. Por um lado promove-se intensamente as ideias e as pessoas que servem os interesses económicos. Por outro, impede-se o acesso aos meios de comunicação dos críticos dessas ideias e dessas pessoas. Sem recurso a polícias políticas e à censura oficial, controla-se o pensamento da maioria da população e manipulam-se os processos políticos. Sem recurso a ditaduras formais, esvazia-se completamente de sentido o processo democrático. A oligarquia consolida e perpetua o seu poder e as vítimas desta violação nem sequer dão conta de que estão a ser violadas. A menos que surja uma crise económica de grandes proporções, que torne impossível continuar a anestesiar a opinião pública.

A única maneira que a sociedade civil tem de resistir a esta violação sistemática é por via da Internet. Meio barato e de grande acessibilidade, pode permitir uma resistência eficaz contra a oligarquia desde que as páginas resistentes sejam suficientemente conhecidas da população. Apesar de só uma minoria procurar activamente estas páginas de resistência, ela pode no entanto tornar-se suficientemente importante para formar correntes de opinião contrárias à oligarquia. É a única esperança que resta a uma sociedade de facto tiranizada.

Não significa esta crítica que se negue valor aos mecanismos de mercado ou que se proponha a destruição da propriedade privada. Significa apenas que se terão de conseguir meios de submissão do poder económico ao poder político. O poder económico tem de estar ao serviço da comunidade e não o contrário. O que significa que, por vezes, se terá de subordinar o lucro e a eficiência comercial a valores sociais que lhes são intrinsecamente superiores. Mais vale ter bens com preços um pouco mais caros no mercado e ter menos desemprego, do que o contrário. Mais vale algum sacrifício de eficiência produtiva e desconcentrar o poder económico do que o contrário. Mais vale descentralizar os processos produtivos, mesmo à custa do aumento dos custos, e evitar a desertificação das regiões periféricas do que o contrário. Mais vale investir nas regiões subdesenvolvidas do mundo do que explorar os povos dessas regiões, esvaziando-as de recursos naturais e de meios financeiros.

A justiça passa pela transformação das sociedades, e esta passa, em Portugal, pela reinstauração de uma Monarquia tradicional independente do poder económico.

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