A força da Nova Revelação

Por Rodrigo Nunes (publicado no extinto blogue Batalha Final)

A globalização caracteriza-se pelo aumento da mobilidade económica, quase irrestrita, de quase tudo. Os movimentos de capital, as mercadorias, a informação, tudo o que se desloca rapidamente e a baixo custo potenciou o emergir das grandes empresas globais. Alimentada pela demissão dos Estados em controlarem as suas fronteiras e cada vez mais empenhada no acentuar dessa tendência e apostada no progresso técnico que sirva a competição empresarial nos sectores mais lucrativos, o fenómeno da globalização tem vindo a deixar um lastro de pobreza e desigualdade entre os países e as regiões do mundo.

A ideia de que o progresso técnico é a origem dessas desigualdades e do desemprego dá o álibi mais apetecível aos defensores da globalização, uma vez que o progresso técnico é inevitável pouco se poderia fazer e nada haveria a obstar.

Porém é o próprio processo de globalização, ou desnacionalização de toda a realidade (e não me refiro aqui exclusivamente ao económico), em si uma das grandes causas desses problemas e um proteccionismo estratégico é, na verdade, uma defesa, muitas vezes a única, ao dispor das populações [1].

O liberalismo pró-globalização, que vê no avanço dos fenómenos mundialistas o triunfo de uma noção muito peculiar de aptidão está a produzir uma nova sociedade, também ela peculiar, de castas, onde amos e servos são definidos pelo mercado e este supostamente define o valor e o mérito. O resultado disto tem sido o estabelecimento de oligarquias fundadas sobre o poder financeiro que não se separam já do poder político, posto que o controlam, originando uma fusão da política com os negócios bem visível nos regimes ditos democráticos do Ocidente; desde os políticos e seus descendentes que inundam as empresas públicas e privadas (porque ao contrário do que gostam de insinuar os liberais basta passar algum tempo no sector privado para compreender que este paga bem os favores da classe política, mais que não seja porque lhe reconhece a inevitabilidade de existência), seja na guerra global ao terrorismo que a Administração Bush tem conduzido sob argumentos moralistas quando os seus mais altos quadros têm interesses económicos nessa guerra e estão ligados a grandes grupos que com ela beneficiam – não sendo por isso de forma alguma um acontecimento estritamente político – seja na mercantilização de organizações supranacionais como a ONU, albergue de inúmeros dejectos políticos e parte activa na gestão de interesses económicos à escala mundial. É uma misturada total e o triunfo absoluto do poder financeiro, o tal que mais interesse tem no avanço imparável da globalização e dos fenómenos associados de mundialização ou desnacionalização das realidades.

A ordem social foi invertida: o “ter” (material) comanda o poder (político) que por sua vez dá ordens ao saber.

A defesa da globalização por alguns economistas é o produto do sucesso dos “think tanks” que lhes servem de apoio e que as oligarquias que com a globalização mais lucram financiam continuamente. Organizações dispersas à escala global mas com um discurso sempre idêntico; a lição está afinal bem preparada e têm todas filiação aparentada. E quando falamos em “think tanks” é preciso reconhecer que nenhum teve mais sucesso na segunda metade do século XX que o da Escola de Chicago. As alianças e as aproximações de “escolas de pensamento” que depois se formaram a partir daí e a enorme influência que entretanto alcançaram são o resultado de algo que já por várias vezes aqui referi: impõem sempre a sua lógica aqueles que antes vencem a batalha cultural e ideológica, e quando esses são os que mais financiamento antecipadamente receberam essa vitória acaba por ser o seu corolário lógico. É assim que, de repente, nos encontramos perante a fatalidade da globalização e da mundialização, a chuva de argumentos é incessante porque antes a batalha das ideias já foi ganha.

Esta ideologia global triunfou e não deixa espaço para o pensamento dissidente, a globalização é apenas mais um vértice do sistema de pensamento único, que aliás tem pouco de pensamento.

Ignacio Ramonet explica da seguinte forma o funcionamento vicioso dessa ideologia reinante: “Esse moderno dogmatismo constitui a tradução, em termos ideológicos, com pretensões universais, dos interesses de um conjunto de forças económicas, particularmente as do capital internacional” e acrescenta “As suas fontes principais são as grandes instituições económicas e monetárias – Banco Mundial, FMI, OCDE, AGTAC, Comissão Europeia, etc. –, que, através do seu financiamento, põem ao serviço das suas ideias, em todo o mundo, inúmeros centros de investigação, universidades, fundações, as quais, por seu turno, aperfeiçoam e divulgam esse mesmo discurso. Esse discurso anónimo é retomado e reproduzido pelos principais órgãos de informação económica – The Wall Street Journal, Financial Times, The Economist, Far Eastern Economic Review, Les Échos, Agencia Reuter, etc. – que muitas vezes são propriedade de grandes grupos industriais ou financeiros. Um pouco por todo o lado, Faculdades de Ciências Económicas, jornalistas, ensaístas e políticos retomam os principais mandamentos dessas novas tábuas da lei.”

A globalização não diz respeito ao comércio mas à concertação dos interesses à escala global das grandes oligarquias, afinal mais de metade das transacções dão-se entre filiais de grandes firmas globais.

É também imperioso compreender que se trata de um fenómeno que redunda na destruição das identidades colectivas específicas, privatizando e mercantilizando o mundo, individualizando-o. Os seus arautos desresponsabilizam-se dos desempregados, das futuras gerações, do ambiente, dos problemas demográficos do Ocidente… até o homem é mercadoria, se acabam os europeus importa-se gente de outras paragens para manter o sistema em funcionamento.

Por isso não é aceitável rejeitar este novo dogma simplesmente por razões economicistas, direi até que fazê-lo seria situar a discussão ao único nível a que a sabem tratar os emissários da «Nova Revelação» e seria por outro lado aceitá-la implicitamente, que é o que faz a «nova esquerda» com a contraposição da ideia de alterglobalização, isto é, limitam-se a rejeitar o modelo económico não a “ideologia” subjacente – afinal ninguém mais que eles defende a abertura das fronteiras, a livre circulação de pessoas, a destruição das soberanias, a indiferenciação religiosa, etc. A globalização é apenas a expressão, sobretudo económica, de um universalismo nivelador que é muito mais abrangente, que abraça uma concepção do mundo apátrida e que assume a imposição de valores universais absolutos em que o mercado assume o papel de Deus e o quantitativo se sobrepõe ao qualitativo. O homem verdadeiramente livre tem que recusar uma definição quantitativa final do valor. Pegando no exemplo de Baudelaire: dizia ele que o poeta separa o valor de uso de uma obra do seu valor de mercado graças ao choque estético. É uma forma de ver a questão…

1. «La Mondialisation - La destruction des emplois et de la croissance - L'évidence empirique», Maurice Allais.

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