Fascismo: nascimento de uma religião política

(Traduzido e publicado em Novopress a partir de um original Emboscado)

Serve o presente artigo para realizar uma breve análise sobre os elementos que precederam a aparição do fascismo e que tornaram possível a sua emergência, assim como o seu carácter de religião política. Além disso, esta análise foi feita a partir dos estudos realizados por Emilio Gentile em Fascismo: História e Interpretação, obra que é aqui tomada como referência para explicar o carácter de religião política desta ideologia.

Na geração de 1914 encontrava-se muito viva a aspiração a dar um fundamento de religiosidade laica à política, para uma reforma intelectual e moral dos italianos. Para isso contribuiu de forma significativa a Grande Guerra, a qual, juntamente com o contexto anterior à mesma, geraria as condições necessárias para a emergência do fascismo como fenómeno político mas sobretudo como nova religião política.

A 1ª Guerra Mundial foi uma experiência de massas que criou um estado de efervescência colectivo, dando lugar a uma série de mitos, sentimentos, ideias e, acima de tudo, um estado de ânimo vinculado a uma nova religiosidade que se ligava com a mitificação de uma guerra encarada como “grande acontecimento” regenerador.

A experiência da guerra enquanto mito contribuiu para a sacralização da política e contribuiu com novo material para a criação de uma religião nacional com os mitos, ritos e símbolos nascidos nas trincheiras. Assim, uma série de elementos como a simbologia da morte e da ressurreição, a devoção à nação, a mística do sangue e do sacrifício, o culto dos heróis e dos mártires, como também a comunhão da camaradagem, contribuiram para difundir entre os combatentes a ideia da política como experiência total cuja finalidade era renovar todas as formas da existência. A política teria que ser então encarregada de perpetuar o ímpeto heróico da guerra, providenciando à comunidade nacional o seu correspondente sentido místico.

Depois do fim da Grande Guerra, produziu-se um renascimento do sentimento religioso como consequência da experiência que supôs a morte massiva e a vida de trincheiras. A experiência da guerra, como esforço conjunto dos integrantes da nação, tornou uma vida em comum no campo de batalha, gerando assim os correspondentes laços de solidariedade e um sentimento de união, contribuindo para dar um sentido de coesão colectiva à própria comunidade nacional.

Esta experiência, tal como a necessidade de uma religião laica que estabeleceria na comunidade o laço social que fortalecesse a sua unidade e coesão, constituiu o fermento necessário para que o fascismo surgisse como movimento capaz de superar a banalidade da vida quotidiana e nacionalizar as massas, afirmando-se simultaneamente como religião político, fazendo para isso uso dos mitos, ritos e símbolos aparecidos durante a Grande Guerra e encontrando assim um terreno favorável para se enraizar e desenvolver.

Além disso, o estado de entusiasmo e de efervescência colectiva foram condições que favoreceram a aparição do fascismo como movimento, na qual a união dos seus integrantes não estava determinada por uma doutrina mas sim por um estado de ânimo e uma “experiência de fé” para a qual se sentiam eleitos, como homens novos regenerados pela guerra.

Foi essa mesma guerra a que renovou a sacralidade da nação, ao reencontrar-se a ela própria no campo de batalha entre os homens que fizeram a sua vida nos combates e nas trincheiras, criando e estreitando laços de solidariedade que possibilitariam a coesão da nação, gerando as bases sociais necessárias para que o novo estado de unidade social entre os italianos passasse a encarnar-se no fascismo, desta vez como religião nacional portadora de tudo o que havia aparecido com a experiência da guerra, implantando aí um particular sentimento religioso com que alcançar a unidade da nação.

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