O Movimento Popular Português

Por António Cruz Rodrigues (publicado em vários posts no blogue “Aliança Nacional”)

Como nasceu e viveu o M.P.P.

Numa reunião em minha casa, em Olivais Sul, Lisboa, nos primeiros dias de Maio de 1974, juntou-se o então núcleo duro do grupo VECTOR para apreciarmos os últimos acontecimentos políticos do País.

Pediu-se a presença de alguns elementos de fora deste núcleo, de modo que, por volta das nove da noite, nos juntámos ali umas doze a quinze pessoas, de que se recordam com segurança as seguintes: Agnelo Galamba de Oliveira, José Rebelo Vaz Pinto, José Luís Pechirra, Adelino Felgueiras Barreto, um jovem de apelido Craveiro Lopes, António da Cruz Rodrigues, José Bayolo Pacheco de Amorim, Nuno Abecassis, Fernando Meira Ramos, António Paulo Rückert Moreira e Pedro Garcia Rocha.

Foi unânime a opinião de que era preciso reagir, constituindo-nos em força política, eventualmente um partido, pois que os partidos já estavam então previstos pelos órgãos decisores da Revolução, mas não regulamentados, o que, porém, não impedia que desde logo pudessem apresentar-se publicamente e passar a funcionar sem embargos nem outros embaraços (até ver).

Para dar expressão ao estado de espírito constatado entre os participantes da reunião, os mais activos marcámos pouco depois uma reunião para um sítio à beira da estrada de Conímbriga, perto da via Lisboa – Porto, num pinhal ao ar livre e céu aberto.

Para que não se dissesse que conspirávamos escondidos…

Estiveram presentes: Agnelo Galamba de Oliveira, Adelino Felgueiras Barreto, João Manuel Cortez Pinto, António Paulo Rückert Moreira, Pedro Garcia Rocha, o signatário, o jovem Craveiro Lopes com outro rapaz e uma rapariga da sua idade, e quatro elementos idos do Porto, Fernando Meira Ramos, António Sousa Machado, Joaquim Mendes de Vasconcelos e Nuno Bigotte Chorão.

Tenho uma dúvida: não sei se foi desta segunda reunião, se depois ou, até, se de conversas anteriores entre nós, que saiu o nome Movimento Popular Português.

Que ele surgiu muito cedo, não pode haver dúvida porque logo se começou a trabalhar em publicidade vária que obrigava a ter o nome pronto a imprimir-se.

Tudo isto demonstra quão seguramente vivíamos entre todos uma excepcional disposição de espírito, que se traduziu num estado de completo optimismo e tranquilidade, sem lugar para quaisquer dúvidas quanto a valer a pena arriscar sem reservas, porque em qualquer caso Portugal ganharia.

Tivemos depois, a maioria, momentos de muito menos optimismo; outros de inquietação e insegurança; activistas houve que sofremos o saneamento, a prisão ou ameaças disso; uns tantos sofremos perseguições e assaltos mas, que eu saiba, nunca a qualquer destes militantes faltou determinação de lutarem para vencer.

Vinham, aliás, aí tempos em que iria ser preciso jogar tudo por tudo, mas parecia que todos nos preparávamos alegremente para eles.

Os breves meses de existência do M.P.P.

Voltámos várias vezes ao pinhal de Conímbriga, considerado o melhor local para nos encontrarmos a meio caminho entre Porto e Lisboa, o que facilitava o contacto entre os dois núcleos principais do MPP, até para não abusarmos da utilização de telefones, tornada cada vez mais suspeita, segundo os mais e os menos desconfiados.

Trazido pelo Eng.º Agnelo Galamba de Oliveira, irmão dos então célebres Cónegos Galamba de Oliveira, de Leiria, o Dr. Manuel Braancamp Sobral, pouco depois da 1ª reunião de Conímbriga, passou a fazer parte do órgão dirigente do MPP, se assim se pode dizer dum “partido” que nunca chegou a ter estatutos nem registo oficial e muito menos legalização no sentido estrito da palavra. Aliás, só depois da dissolução do MPP, em Setembro, veio a ser publicada a lei dos partidos.

No dia 3 de Junho, umas três semanas depois da reunião de Olivais – Sul estava nos jornais, rádios e televisão o primeiro texto do MPP: era o manifesto fundador do partido.

Por Lisboa toda, e também no Porto, foram distribuídos nas ruas alguns milhares de exemplares por grupos de mais novos.

A base logística era no andar da Editorial Resistência, na Rua Nova de São Mamede, muito perto da rua da escola Politécnica e quase paredes-meias com a própria Igreja de São Mamede.

Não se consegue hoje encontrar um exemplar sequer do manifesto. Socorreu-me a memória dum então garoto de apenas doze anos, o Francisco Felgueiras Barreto, que não tem dúvidas destas palavras do manifesto, as únicas que foi possível reconstituir sem andar pelas hemerotecas:

“Não se iluda. Comunismo é pior que Fascismo. Todos os Países comunistas têm uma polícia igual a PIDE/DGS. Proíbem liberdade de expressão, direito à greve e partidos políticos divergentes.”

Assinado: “MPP – Movimento Popular Português.”

A fidelidade textual dos pormenores não se pode garantir, a não ser pela via da memória do ganapo de então, mas nada me permite duvidar do tema, conhecendo como conheço qual era o essencial da nossa linha de pensamento e de acção.

O MPP foi a primeira das organizações políticas pós-Abril a declarar-se frontalmente anticomunista e a prová-lo por actos, numa altura em que todos os Portugueses sentiam e sofriam — como nunca depois, mesmo entre o 28 de Setembro (1974) e o 25 de Novembro (1975) — a opressão esmagadora do poder comunista em Portugal. Porque ainda não lhe conhecíamos as fraquezas, nem tínhamos ainda avaliação rigorosa das forças e disposições da resistência anticomunista do País, o PCP paralisava mesmo só por existir. Não se avalia hoje o mito assustador que era o PCP. Todos o veneravam ostensivamente, a começar pelos grandes partidos que já então se anunciavam como tal, os socialistas e os sociais-democratas.

Os MCS, em geral, rápida e desassombradamente “ocupados” pelo PCP, contribuíram mais que qualquer outro veículo para a sujeição do País e a instalação e domínio do mito irresistível.

O MPP foi o primeiro e, durante tempo mais que bastante, o único a atacar o mito frontalmente e maciçamente.

É só um facto, mas um facto tão estranho e insuportável, pelo que diz ou pode dizer do carácter colectivo das sociedades, em geral, e da portuguesa, em particular, que quase preferia que o exclusivo histórico do MPP viesse a ser desmentido.

Os “feitos” anticomunistas do Movimento Popular Português. Outras frentes de combate de Maio a Setembro 1974

O carácter frontal e maciço da pública reacção anticomunista do MPP reforça o ineditismo dela e mais torna impossível encontrar-lhe termo de comparação, naquela altura em que o PREC já se anunciava.

De facto, não se tratou apenas do manifesto.

A surpreendente generosidade de militantes, permitiu-nos ir logo muito mais longe.

Fizemos um cartaz impresso que foi largamente colado nas paredes de Lisboa e alguns também no Porto, o qual repetia esta frase do manifesto:

“Não se iluda: COMUNISMO é pior que Fascismo”, sobre fundo negro.

Nos dias seguintes à colagem, pelo menos em Lisboa, os cartazes afixados apareceram em grande parte cortados e arrancados, salvo a palavra COMUNISMO… por certo ameaçando Portugal com o triunfo e ditadura do dito…

Em tamanho reduzido, houve igualmente um autocolante tal qual o cartaz, que também foi distribuído aos milhares em Lisboa e no Porto.

Mas talvez a mais importante manifestação impressa da existência do MPP e da sua clara doutrina e posição ideológica, terá sido a brochura “PCP – Um Partido Fascista”, de capa vermelha, da qual foi distribuída praticamente toda a edição de quinze mil exemplares, creio, mas de que, dessa sim, ainda restam algumas brochuras.

Foi a brochura “PCP – Um Partido Fascista” publicada sob o pseudónimo J. V. Claro que, vim depois a descobrir num alfarrabista, já fora usado numa brochura política qualquer, pelo menos, durante a II Grande Guerra (1939-45).

Além destas acções, desenvolveu o MPP outras que, nos planos político e social onde ocorreram, se destinavam a mostrar a nossa capacidade de actuação no terreno, em frente a frente com os agentes políticos ou apresentando-nos directamente à gente anónima.

Na área política, sentimos mais que tudo a necessidade de nos darmos a conhecer ao Primeiro-Ministro, até porque não queríamos que pudesse julgar-se por mais tempo que tínhamos alguma coisa a esconder, em particular o quê e quem se encontrava realmente por trás do MPP – Movimento Popular Português.

No princípio de Setembro conseguiu-se que o Primeiro-Ministro recebesse uma delegação nossa, composta pelos Eng.º Agnelo Galamba de Oliveira, Eng.º Adelino Felgueiras Barreto e Dr. Manuel Braancamp Sobral, delegação que foi por nós todos cuidadosamente escolhida para que, tanto quanto possível, não pudesse haver engulhos da parte de ninguém.

E assim foi de facto.

A audiência, em São Bento, durou uma hora, á vontade, a conversa foi muito aberta e o PM aparentemente muito franco, naquele estilo que depois lhe conheci bem na Universidade Livre, como Reitor convidado também pelo grupo do Vector, estilo sem imprudências mas frontal, poderia dizer sem papas na língua, e até sem esconder a justiça que fazia ao Doutor Salazar, se vinha a propósito.

Também a propósito, mas de Religião, já no fim da audiência, terá o P.M. deixado cair um lamento, olhando um crucifixo que, não se diria como, ainda estava ali, numa parede do gabinete que ocupava.

É que, já a despedirem-se, o Eng.º Galamba de Oliveira disse algo de carácter religioso a que o P.M. reagiu perguntando, com um sorriso, se ele estava a querer convertê-lo.

Galamba respondeu com outro sorriso, como quem diz, naquele estilo “Galamba” que tantos de nós tão bem lhe conhecemos: “Então? Era algo do Outro Mundo?...”

Já sério o P.M. Palma Carlos disse algo como isto, olhando o crucifixo: “Vocês, católicos, são muito felizes nas dificuldades, porque têm sempre a quem recorrer!”

“Eu não!” — acrescentou após uma ligeira pausa.

Foi a nota final, a confirmar a sensação de desespero com a situação política do País, que ao longo da audiência o Prof. Doutor Adelino da Palma Carlos, o último Primeiro-Ministro do Portugal “imperial”, fora deixando aos seus três interlocutores do MPP.

Como veio a acabar o M.P.P.

Ao contrário do que se passou com a audiência dada pelo Primeiro-Ministro Doutor Adelino da Palma Carlos ao M.P.P., não me foi possível, na realidade, recordar com segurança quem terá representado o M.P.P. na audiência concedida pelo Presidente da República General António de Spínola, em 10 de Julho de 1974, à “delegação representativa do Movimento Federalista Português, do Partido Trabalhista Democrático Português, do Partido Liberal e do M.P.P.”, como refere o “relatório” oficial sobre a intentona do 28 de Setembro de 1974, na parte transcrita em 06 do corrente pelo blogue “O Sexo dos Anjos”.

Não se pode imaginar qualquer resultado minimamente interessante da audiência, sabido já na altura como Spínola estava a apostar tudo no Partido do Progresso e no CDS.

Não consegui sequer recordar, nem recorrendo à ajuda de alguns dos nomes que apontei antes, directamente envolvidos no M.P.P., quem nos terá representado na audiência, se audiência acabou de facto por haver.

A ter havido audiência (e não mera entrega do papel a algum secretário) e a termos estado representados, parece-nos que só poderia ter sido através do Eng.º A. Galamba de Oliveira e/ou do Dr. Manuel Braancamp Sobral.

Quaisquer outros de nós éramos insuficientemente “diplomáticos” para suportar uma audiência com o homem que todos considerávamos o principal responsável pelo êxito do assalto em curso ao Poder por parte do PCP e, portanto, o principal responsável, pela consequente destruição de Portugal que, aos olhos de muitos, era já inevitável.

Havia, porém, forças políticas de Direita e até Nacionalistas portugueses dispostos a perdoar tudo a Spínola, em nome dum pragmatismo político que não encontrava eco no M.P.P.

Se é certo que, acima de tudo, o M.P.P. transmitiu desde a primeira hora a certeza de querer e saber identificar o Inimigo no meio da confusão triunfante, isto é, o inimigo principal, o PCP, não é menos certo que sempre o MPP viu em Spínola o “inocente útil” com quem nada queria, com quem não pactuaria nunca e que considerávamos politicamente um inepto, um desastrado, se não pura e simplesmente um desastre acabado.

Com esse, nunca embarcaríamos em aventuras.

Parecia que já em Julho estávamos a palpitar os desastres do “28 de Setembro” e do “11 de Março”.

Mas não, não nos passava pela cabeça o que veio a acontecer.

Tínhamos muito com que nos ocuparmos, acções concretas lançadas ou em via de lançamento, em cujo êxito estávamos profundamente empenhados.

Íamos fazer o primeiro comício do M.P.P. entre o Povo e tínhamos escolhido, por sugestão do José Luís Pechirra, fazê-lo no Alentejo. Sim, no Alentejo, na “boca do lobo” comunista, para juntarmos os actos às palavras e darmos a prova de como não éramos de balelas, mas prontos a correr os riscos todos dos combates necessários, em que acreditávamos. Fomos ao Alentejo, admitimos por cautela o pior, não nos deram essa honra; e as coisas até não correram nada mal; teríamos até voltado em breve, não levassem os acontecimentos outro rumo, com a prisão do J. Luís Pechirra e do Manuel Maria Múrias, no “28 de Setembro”; e conseguiríamos a legalização do M.P.P., facilmente, com os milhares de assinaturas que por nosso intermédio foram mais tarde, na altura própria, para o PDC – Partido da Democracia Cristã.

Mas é cedo para falar disso, que não era previsível em Julho.

Nesse mês estávamos, o grupo do VECTOR, enquanto nos envolvíamos nas acções já referidas do M.P.P., a ajudar o Manuel Maria, com igual empenho e toda a nossa logística, a preparar a bela aventura do BANDARRA.

Não vou aqui repetir-me, mas quem queira saber ou recordar o que isso foi pode refrescar conhecimentos ou recordações lendo, neste blogue, o que escrevi na morte do M.M.M., a propósito do lançamento do inesquecível semanário e dos seus inesquecíveis três números (o “zero, o “um” e o “dois”) os únicos que a pesada mão da “censura” abrilina/comunista deixou sair.

O M.P.P. espelhou bem o período em que viveu. Actividades outras, paralelas, do grupo do VECTOR

Enquanto prosseguia com intensidade a sua ligação ao M.P.P., o grupo do VECTOR impulsionava outras iniciativas.

Além do “empurrão” já referido ao nascimento do “Bandarra” e do indispensável apoio logístico continuado à sua publicação, conseguimos manter sem uma quebra a saída regular da revista “Resistência”.

Por aqueles tempos foram a “Resistência” e o “Jornal de Economia e Finanças”, as únicas publicações anteriores a 25 de Abril de 1974 que sobreviveram à Revolução, resistindo e reagindo sempre, conforme a sua vocação de origem, ao rumo anti-nacional que os Comunistas, e seus apaniguados da altura, quiseram imprimir-lhe furiosamente.

Quando, em Junho/74, Spínola fez o seu famoso discurso para a descolonização, renegando inclusivamente os termos em que a questão fora apresentada no dia do levantamento pela “Junta de Salvação Nacional”, a que ele presidia, a “Resistência” publicou um editorial em que atacava frontalmente o pronunciamento do então Presidente da República.

Nos termos da lei da Imprensa então vigente, já do Governo do Coronel Gonçalves, o editorial valeu-nos prontamente a pesada multa de cem contos, o equivalente, a preços de hoje, a cerca de 4000 contos (20.000 euros).

Teríamos de pagar, sob pena de ser impedidos de publicar a revista, e não tínhamos o dinheiro, naturalmente.

Fizemos um apelo de urgência aos nossos assinantes. E a reacção deles foi notável: em pouco mais de quinze dias juntámos perto de 200 contos, praticamente o dobro do que pedíramos, o que veio ajudar muito as contas da Editora, que nunca foram famosas e, antes pelo contrário, sempre deficitárias.

Daí em diante, a “Resistência” superou-se a si própria a ponto de poder afirmar-se — lembro-me do que um dia me disse o senhor Dom Duarte Pio de Bragança a esse respeito — que foi um dos melhores repositórios de críticas e comentários à governação, durante todo o PREC. Aos olhos de alguns, nos quais incluo o Senhor Duque de Bragança, terá sido mesmo o melhor, com a regularidade quinzenal que então conseguiu manter.

Chegou a ter mais de 3500 assinantes, o que para uma revista de cultura, doutrina e crítica foi, nesse tempo, um feito notável.

Era seguramente a revista não eclesiástica com mais sacerdotes como assinantes, que chegaram a ser mais de 1000, o que dá ainda mais a ideia da influência que poderá ter exercido.

Tudo isso enquanto o PREC decorria e o grupo fundador da revista, o grupo do VECTOR, desenvolvia a sua acção em várias direcções com o mesmo empenhamento e unidade estratégica, a curto e a longo prazo.

Agora, sim, vamos falar, enfim, de porque acabou

Em certa altura, alguns de nós começámos a apercebermo-nos, já em Agosto, de tentativas de fractura da coesão interna do grupo. O provocador ostensivo era um dos outros dois jovens trazidos pelo jovem Craveiro Lopes, o qual parecia apostado em dividir o núcleo duro do MPP, que se reunia com alguma regularidade no “refúgio” de Conímbriga. A certo ponto, parecia mesmo estar a conseguir levar para o seu lado um dos mais velhos elementos do núcleo duro, mas também dos mais recentes, por isso talvez menos integrado na “cultura” do grupo do VECTOR. Desmascarado o jovem numa reunião de Conímbriga — penso que na última que lá fizemos — foi-lhe comunicada a sua expulsão do MPP, que acatou imediatamente, retirando-se logo seguido da jovem de que já também falei.

Acreditámos que nos havíamos livrado do elemento perturbador, talvez mesmo mais que isso, talvez uma infiltração completamente alheia aos propósitos do grupo, possivelmente servindo interesses que não tinham a clareza dos nossos.

Setembro, veio a ficar como um mês de derrotas, mas também como um mês que algumas coisas clarificou.

Efectivamente rumores pouco tranquilizadores andavam no ar.

Diria que o nosso posicionamento de radical anticomunismo não convinha aos spinolistas, que não quereriam alertar o PCP com as manobras que eles, spinolistas, andariam já a dispor para a “inventona” de fins de Setembro.

Falhada a possível tentativa de nos minarem por dentro, “pondo” no MPP pessoas dóceis aos seus planos, mesmo assim só estaria completada, aos olhos deles, a “unidade” da Direita em Portugal, se o sector nacionalista que representávamos pudesse ser dado como incluído nela, mas depois de domesticado e depois de anulados os seus dirigentes incómodos, precisamente o núcleo duro do VECTOR, que éramos aliás a grande maioria dos dirigentes do MPP.

Mas o grupo demonstrou a sua solidez rejeitando as tentativas de nos dividirem. Os que saíram não representavam de facto nada dentro do espírito e projectos do VECTOR.

Isso, porém, não nos fechou os olhos às realidades circundantes do momento.

E a principal dessas realidades era que não podíamos esperar senão hostilidade dos spinolistas, cujo líder, por outro lado, era a aposta de muita gente das nossas simpatias, gente que só o tempo poderia esclarecer, e não nós ou quem quer que fosse, naquela conjuntura de optimismo pouco reflectido.

Convidados para uma reunião no “franjinhas”, onde se falou da manifestação da “maioria silenciosa”, no Campo Pequeno, projectada para a noite de 27 de Setembro, os dois representantes do MPP que lá fomos saímos perfeitamente convencidos e sem ilusões sobre o aventureirismo amador para que tudo aquilo se encaminhava. Como veio a confirmar-se.

Não aconselhámos a ninguém a participação nos “eventos” preparados.

Consumada em 28 de Setembro a derrota da Direita e dos Nacionalistas, fez-se uma análise serena e fria da situação, para concluirmos que não havia mais lugar para a multidão de Partidos que tinham surgido naqueles cinco meses acabados de passar.

Em coerência, decidiu-se a dissolução do MPP.

Passado mais de um mês surgiu o convite ao grupo do VECTOR para aderir ao PDC – Partido da Democracia Cristã.

Convite apresentado, aliás, expressamente, como traduzindo o reconhecimento do significado e valor do combate do CESV pela Doutrina Social da Igreja, que o PDC dizia prosseguir também.

Na nossa aceitação do convite, depois de uma reunião do núcleo duro do VECTOR, que já incluía o Dr. Manuel Arnao Metelo, com os principais dirigentes e fundadores do PDC, para esclarecimento dos termos em que éramos convidados, pesaram esses termos perfeitamente satisfatórios, na altura. Mas pesou ainda mais a necessidade que todos reconhecíamos de unir forças face aos combates que se aproximavam e agora mais duros e exigentes seriam, depois da derrota de 28 de Setembro.

Na verdade, o convite era sumamente interesseiro, porque o PDC carecia em absoluto de quadros experientes e de convicções.

Nós estávamos desmobilizados politicamente, mas prontos para continuar o combate de sempre.

Um parêntese. Achegas sobre a ida do MPP ao Alentejo, em princípios de Setembro de 1974

O comício foi no Cano, concelho de Sousel, distrito de Portalegre, logo nos começos de Setembro, a um sábado.

Saímos de Lisboa, manhã cedo, em duas carrinhas, além de mim, o Agnelo Galamba de Oliveira, o Manuel Arnao Metelo, o Pedro Garcia Rocha, o José Luís Pechirra, o irmão Manuel Pechirra, um brasileiro Pontes (inventor do “Pontex”…) e o António da Gama Ochôa, que desde havia algum tempo passara a actuar no projecto MPP, mas que já a partir de 1973, pelo menos, era também militante e dirigente do VECTOR.

Foi o António da Gama Ochôa um alto funcionário do Ministério das Corporações, exemplar chefe de família, culto e inteligente doutrinador do Corporativismo de Associação, que soube suportar com nobilíssima coragem as terríveis agruras dum saneamento pior que moralmente injusto, porque completamente ilegal, como depois do PREC veio a ser-lhe reconhecido.

Se me ler, que me perdoe as “indiscrições”.

O dia de acção política começou no Cano, com distribuição na feira semanal, durante a manhã, do manifesto e de prospectos anunciando o comício dessa noite, bem como de autocolantes e brochuras; fomos almoçar a Estremoz, onde aproveitamos para também distribuir alguma propaganda; e, dada uma volta por outras povoações da zona, depois do jantar também em Estremoz voltámos ao Cano, para o comício ao fim da tarde.

Perorámos todos do alto duma varanda, creio que na Casa do Povo, sobre a praça central do lugar, para uma assistência que excedia as seiscentas pessoas; nada mal para a conjuntura e para o meio.

Não tínhamos, nenhum de nós, creio, experiência por aí além da oratória que se impunha, mas não nos saímos mal nas diatribes anticomunistas que não poupámos. Todos ouvimos aplausos, não houve apupos, mas o Galamba de Oliveira e o José Luís Pechirra foram mesmo aplaudidos com particular vigor e entusiasmo.

O comício começara ainda ao lusco-fusco. Acabámos noite bem cerrada, na praça fracamente iluminada, e regressámos a Lisboa convencidos de que o Alentejo não era uma seara política pobre e negativa como se dizia.

Os acontecimentos a partir de umas três semanas depois daquela noite iam rectificar juízos eventualmente precipitados de alguns e alertar-nos fortemente para a necessidade de uma luta bem mais dura e mais arriscada, bem mais exigente do que até aí e daquilo que a maioria ousava prever.

Veio a ser necessária, de facto, a partir do “28 de Setembro”, uma radical revisão e endurecimento das nossas disposições para o combate.

Diga-se, com orgulho e alegria, que foram muitíssimo poucos os que não estiveram à altura.

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